São Paulo vai ao Recife buscar o maracatu

Foliões seguem blocos ao som de ritmo pernambucano; paulistanos aprendem a arte com mestres batuqueiros

Ana Bizzotto - O Estado de S. Paulo,

10 Fevereiro 2010 | 09h04

 

SÃO PAULO - Quando a inspiração está a 2,6 mil quilômetros de distância, o jeito é ir até lá. É o que fazem todos os anos músicos que reproduzem em São Paulo o melhor do maracatu pernambucano. E como a época ideal para isso é o carnaval, eles passam um mês ou mais no Recife e em outras cidades do Estado pesquisando e colaborando com nações de maracatu de baque virado - grupos tradicionais que preservam, desde o século 19, a manifestação cultural ligada ao candomblé.

 

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O interesse não surgiu do nada. Ainda que as primeiras nações sejam bastante antigas, foi a explosão do movimento Mangue Beat, nos anos 1990, que difundiu o ritmo e influenciou a formação de grupos em todo o País. "Todo batuqueiro que se preze tem de ir ao menos uma vez na vida ao Recife. É como a Meca para quem toca maracatu", diz o percussionista Maurici Brasil, diretor artístico da Cia. de Artes do Baque Bolado (www.baquebolado.com).

Criado em 1996, o grupo surgiu de uma brincadeira entre amigos que nem sabiam bem o que era maracatu. Com o tempo, eles se aprimoraram e decidiram incorporar dança, teatro e outros ritmos populares, como a umbigada. O grupo ensaia duas vezes por semana e promove oficinas às quintas, no Bom Retiro, no centro de São Paulo.

Enquanto alguns músicos do Baque Bolado e outros grupos conheciam de perto o maracatu pernambucano, quem não tinha dinheiro para viajar decidiu criar o Maracaduros, arrastão que desfila na Vila Madalena, zona oeste, há 12 anos, sempre na segunda-feira de carnaval. "É um acontecimento totalmente anárquico. Não tem ensaio, cada um chega com um instrumento, alguém apita e vamos embora", descreve Brasil. Segundo ele, o batuque reúne 50 músicos e 3 mil foliões, com apenas uma regra: os batuqueiros têm de se vestir de mulher, "nem que seja apenas com batom e presilha no cabelo".

 

Criada em 1996, a Cia de Artes do Baque Bolado vai participar do Maracaduros, arrastão que desfila na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, há 12 anos

Outro jeito de conhecer melhor o ritmo em São Paulo é participar das oficinas promovidas por mestres batuqueiros de Pernambuco. "Os grupos daqui fazem parceria para pagar a passagem deles e dar uma ajuda de custo", explica Lelo Morais, produtor do grupo Ilê Aláfia. Os músicos também se juntaram para criar o site www.maracatu.org.br, com informações sobre seus grupos e a história do ritmo.

Fundado em 1999 na Associação Cristã de Moços (ACM), no Jabaquara, zona sul, o Ilê reúne 80 pessoas, de crianças a idosos, e tenta reproduzir a formação tradicional da nação, com a corte real, ala de baianas e alas de percussão jovem e mirim. Até o nome é ligado à cultura negra - na língua iorubá, Ilê Aláfia significa "casa da felicidade". "Só não praticamos os rituais religiosos", diz Morais.

A Companhia Caracachá, criada em 2003, procura fazer a releitura do ritmo. Os fundadores viajam há mais de 10 anos para o Recife, mas o trabalho não se resume a tocar no carnaval. Os músicos levam material para fantasias e ajudam a construir e afinar instrumentos típicos de percussão, como a alfaia.

"Além de aprender coisas novas, damos um retorno sobre o trabalho que fazemos em São Paulo", diz Henrique Barros, um dos fundadores, que desde janeiro está tocando e trabalhando no Maracatu Nação Porto Rico, no Recife. Os ensaios da Caracachá ocorrem às quintas na raia olímpica da USP.

Já o grupo Bloco de Pedra surgiu em 2005, a partir de uma oficina de percussão que originou o projeto Calo na Mão, totalmente voltado ao maracatu. O projeto engloba ensaios do Bloco e oficinas de construção de instrumentos e introdução ao ritmo. "Vimos ali a oportunidade de fazer um projeto bacana, que envolvesse a comunidade com a cultura popular", diz Luiz Gustavo Silviano, fundador e coordenador.

Frequentador do carnaval pernambucano, onde tocou por anos na nação Estrela Brilhante de Igarassú, Silviano acha importante aproveitar a abertura proporcionada por eles a quem vem de fora. "É um ritmo sobre o qual não há muito registro. Faltam lugares para pesquisar e estudar, então nada melhor que conversar com quem vive essa história lá."

Os ensaios do Bloco de Pedra e oficinas gratuitas ocorrem aos sábados, em Pinheiros, e chegam a reunir mil pessoas. O encontro no sábado de carnaval está confirmado para quem quer conhecer o ritmo ou simplesmente se deixar levar pelo batuque.

PARA CURTIR E BATUCAR

Maracaduros

Rua Wizard com Mourato Coelho, Vila Madalena Segunda-feira, dia 15

Concentração: 21h; desfile: 22h30

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