São Paulo tem menos favela e mais favelado

Falta de terrenos e desocupações motivam queda inédita; mas população nesses locais cresce 3,7% ao ano

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli,

17 Outubro 2009 | 23h24

Ao longo de uma vida na qual os centavos sempre foram contados e comemorados, na qual o que não era bom para a maioria das pessoas era razoavelmente ótimo para ela, a dona de casa Delza de Souza Gonçalves acabou traçando um retrato de toda a população que nunca conseguiu um dos direitos mais básicos. Com 60 anos, Delza passou os últimos 32 anos em seis diferentes favelas de São Paulo – no fim dos anos 1970, o marido dela ficou desempregado, foi desalojado, e começou então a peregrinação por invasões no Peri, em Taipas, duas na Brasilândia, na Freguesia do Ó e na Água Branca – hoje, mora às margens de um córrego fétido que deságua no Rio Tietê. “Eu nunca consegui uma folga de R$ 500 no orçamento, o que seria suficiente para pagar aluguel, água e luz fora da favela”, diz ela, resumindo a trajetória e o sentimento de quase 1,3 milhão de favelados paulistanos.

 

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Dona Delza é também um exemplo da situação habitacional da capital. Segundo levantamento feito pelo Estado, com base no banco de dados da Secretaria Municipal da Habitação (Sehab), o número de favelas caiu pela primeira vez na história da cidade. Após o crescimento vertiginoso nas décadas de 80 e 90 e a estabilidade nos últimos dez anos, as invasões sofreram agora uma leve e inédita queda – em 2008 eram 1.641 favelas e atualmente são 1.636.

 

 

Os motivos passam pela falta de novos terrenos para a criação de ocupações e pela desapropriação de favelas na capital. Ainda assim, o cenário não é otimista, uma vez que a população favelada continua crescendo, num ritmo quase duas vezes superior à da média paulistana. Hoje, conforme a Sehab, são cerca de 1,3 milhão de pessoas em favelas, número que cresce 3,7% ao ano.

Segundo especialistas, a população favelada cresce pois as famílias não conseguem romper com o ciclo da submoradia – assim, filhos saem de casa para ir morar em outro barraco, em outra invasão.

 

 

 

 

MAIS ESPREMIDAS

“A maior parte dos espaços vazios já está ocupado, então o número de favelas cai. Ao mesmo tempo, elas ficam mais espremidas e mais verticalizadas”, diz Maria Lucia Refinetti Martins, professora do Laboratório de Habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Há também o reflexo das desapropriações. Não adianta dar um cheque para a família sair de uma favela, se depois ela vai para outra. Só empurra o problema para outro lugar.”

É justamente o caso de dona Delza. “Recebi um cheque de R$ 5 mil no começo do ano passado, quando a favela onde estava foi removida. Só consegui comprar este barraco, que está caindo aos pedaços. Preciso agora de outro cheque, não aguento mais tomar chuva em barraco de favela.” (colaborou Daniel Jelin)

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