ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

São Paulo tem curso para recuperar agressor de mulher

Acusados de violência doméstica vão a palestras para mudar mentalidade; acolher autor do crime previne novos casos, diz autora do projeto

Alexandre Hisayasu, O Estado de S. Paulo

19 Março 2017 | 05h00

SÃO  PAULO - Em novembro do ano passado, o gerente de vendas Abel (nome fictício), hoje com 43 anos, recebeu um certificado de conclusão de um curso que trouxe mudanças significativas na vida dele. “Aprendi de maneira concreta e prática que a violência não serve para ninguém. Nem para a vítima nem para quem agrediu”, conta. Dez meses antes, ele foi parar em uma Delegacia da Mulher por bater em uma jovem de 25 anos na zona oeste de São Paulo. A vítima era filha da então namorada.

O caso de Abel foi parar na polícia e também em uma lista de homens que praticaram o mesmo crime e respondiam processo criminal na Vara de Violência Doméstica do Fórum Criminal do Butantã. A juíza Tatiane Moreira Lima e mais três psicólogos montaram um grupo de trabalho para dar assistência não apenas para as vítimas de agressões, mas também para os agressores.

“Sentimos que, no nosso trabalho de romper o ciclo de violência contra a mulher, o agressor não era assistido. E há necessidade de acolher as duas pontas: de quem agride e de quem é agredido”, explica a juíza. Para ela, violência doméstica está ligada à cultura de preconceito de gênero na sociedade.

Aprendizado. Abel foi selecionado com outros 49 homens. Destes, só oito concluíram o curso, que durou 13 semanas. “Foi uma oportunidade para refletir sobre o que aconteceu comigo. Eu namorava havia um ano e meio e tinha encontrado a mulher da minha vida. Eu a perdi depois disso”, disse.

Segundo Abel, ele estava com a namorada, de 46 anos, e a filha dela em uma festa. Depois de beber demais, começou uma discussão com a companheira.

“Decidi ir embora, mas a filha veio atrás de mim. Depois de outra discussão, perdi o controle e a agredi. Naquele momento, perdi a mulher que amava.”

Abel aprendeu a “estabelecer limites” nas reuniões do curso, com os psicólogos. “Não importa quem começou a briga. Eu ultrapassei o limite do respeito físico e verbal com uma pessoa fisicamente muito mais frágil do que eu. Esse limite ninguém tem o direito de ultrapassar”, afirmou. A filha da ex-namorada não quis processá-lo.

O metroviário Sérgio (nome fictício), de 50 anos, também frequentou o curso no Fórum do Butantã. “Eu recebi o convite da assistente social e fiquei um pouco perdido, sem saber direito o que encontraria. Com o tempo, fui criando uma confiança de que tinha condições de também ajudar os meus colegas que estavam lá pelo mesmo motivo que eu”.

Em maio de 2016, ele discutiu e agrediu a esposa de 51 anos dentro de casa. A Polícia Militar foi chamada e todos foram parar na delegacia. “Eu estava sob efeito de remédios muito fortes e perdi o controle, mas nada justifica”, conta. Sérgio foi condenado a um ano e 15 dias em regime aberto.

Casado há 35 anos, ele afirma que passou por um grande aprendizado. “Foi um trabalho de conscientização importante para prevenção.” O casamento, abalado com a agressão, foi salvo e o respeito, recuperado. Sérgio fala com orgulho do certificado que recebeu pela conclusão do curso. “Muitos foram chamados, mas nem todos conseguiram concluir esse processo”, comenta.

Estigma. Era numa sala do Fórum Criminal do Butantã, na zona oeste, que os alunos se reuniam para reuniões semanais. Sempre ministrados por psicólogos, os encontros eram encarados como “missões” pelos participantes.

“Há o estigma social de que a mulher é a vítima e o homem é sempre o monstro. Mas a questão da violência doméstica é mais complexa do que isso”, afirma a psicóloga Michelle Fonseca Lingiardi, uma das coordenadoras do projeto.

Em cada encontro, um tema relacionado à violência contra a mulher era lançado para o grupo discutir. “Dentro de cada tema houve discussões para se descobrir o que levou à agressão contra a companheira. Percebemos a existência de uma base machista dentro das relações, em que o homem não pode demonstrar sentimentos, deve ser o mais forte, o ‘monstro’. E o resultado disso aparece na violência doméstica”, avaliou Michelle.

A juíza Tatiane Moreira Lima disse que não conseguiu apoio do poder público para a iniciativa. Então, decidiu, com os psicólogos, começar por contra própria, com a estrutura disponível do fórum criminal.

“Todas as terças-feiras, das 18 horas às 20 horas, havia os encontros. E o resultado foi muito positivo. Imaginávamos um número bem menor de formandos nesta primeira turma”, comentou a magistrada.

Segundo ela, foi importante para o homem encontrar um espaço para falar sobre suas dúvidas, medos. Além disso, havia o esforço de entender o motivo e as consequências da violência doméstica. “Via de regra, o homem só é ouvido na delegacia e no fórum. E justamente essa ‘falta de voz’ reforça o preconceito de que eles não podem demonstrar sentimentos ou fraquezas. Numa relação em crise, é preciso reforçar as duas pontas”, diz.

Novas turmas. Os primeiros formandos foram selecionados com base em alguns critérios: haviam praticado crimes de lesão corporal leve, tinham idade média de 40 anos e eram agressores primários. Dos oito, apenas um não havia sido condenado pela Justiça.

"Não existe perfil básico de agressor. A violência é democraticamente perversa”, diz Tatiane. Uma nova turma, de acordo com ela, será iniciada no segundo semestre. “A nossa intenção é ampliar a ideia para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Prefeitura.” 

 

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