São Paulo perde 63,3% de seus estrangeiros em duas décadas

Destino de mais de 6 milhões de imigrantes nos séculos 19 e 20, cidade tem visto tendência se inverter nas últimas décadas; colônias, como as de italianos e libaneses, já procuram adaptar-se à diminuição

NATALY COSTA , RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2011 | 03h02

Foi graças aos imigrantes que São Paulo se tornou o maior Estado do Brasil, em termos populacionais e econômicos. O território paulista representou o principal destino dos mais de 6 milhões de estrangeiros que chegaram ao País nos séculos 19 e 20. Mas, nas últimas duas décadas, essa tendência se inverteu. Desde 1991, o número de estrangeiros que residem em São Paulo caiu de 337,4 mil para 206,6 mil - uma queda de 63,3%.

Os dados são do Censo Demográfico de 2010, coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo especialistas, eles refletem uma grande mudança no perfil da atração internacional exercida pelo Brasil.

"Os locais hoje procurados para a imigração mudaram, há uma distribuição espacial maior dos estrangeiros pelo País. Não são mais só Rio e São Paulo que oferecem as melhores oportunidades", diz o professor Duval Magalhães, doutor em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Além disso, tem o fato de que o estoque de imigrantes de lugares como São Paulo está acabando. Os italianos, japoneses e outros povos que vieram no outro século ou são idosos ou já morreram", explica.

Diversidade. Em São Paulo, a cidade tradicionalmente com mais mistura de raças e etnias do Brasil, isso se reflete em um esvaziamento das antigas colônias.

A presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano, Lody Brais, conta que a enorme colônia de libaneses no País, concentrada especialmente em São Paulo, sente cada vez mais a queda de imigrantes recentes.

"A quantidade de gente vindo para cá diminuiu muito. Hoje os jovens libaneses migram principalmente para o Oriente Médio e para a Austrália, para onde já vão com emprego garantido. Não vêm mais para tentar a vida", afirma.

Terra mãe. A colônia italiana também sente a diminuição no número de pessoas que nasceram e passaram a infância ou a juventude no país europeu. "Nossos filhos aprenderam a falar a língua e herdaram alguns dos nossos hábitos, como o almoço de domingo que minha mulher sempre faz. Mas temos costumes próprios, desde a época em que morava na Itália", afirma o aposentado Paolo Bernardini, de 81 anos.

Nascido em uma pequena vila na Toscana chamada Buti, ele chegou no Brasil logo após casar com Pierina, hoje com 74 anos. Após a Itália mudar de lado na Segunda Guerra Mundial, Paolo chegou a ser preso pelos alemães em 1944, quando tinha apenas 14 anos. Ele fugiu no mesmo dia, mas a situação não melhorou nos anos seguintes, até que, em 1959, decidiu mudar-se com a mulher para o Brasil.

"Era muito difícil sobreviver na Itália no pós-guerra", conta Pierina, que ainda mantém intacto o sotaque natal. "No início, a vida aqui também não foi fácil, mas a convivência com nossos vizinhos italianos ajudava muito. Morávamos no Brás e quase todo mundo ali era italiano", lembra a dona de casa.

Hoje, a maioria no grupo de amigos são os descendentes daqueles europeus, os filhos e netos que nasceram no Brasil. "Alguns falam italiano, mas vários não aprenderam", acrescenta Paolo.

Para o presidente da Associação de Entidades Nikkeis, Akio Ogawa, a forma de a cultura japonesa - também forte em São Paulo - se perpetuar é o fato de ainda despertar interesse nos não descendentes.

"Vejo muita gente que não tem nenhum parentesco aprendendo o japonês, gostando da gastronomia. É nessa mistura cultural com o Brasil que a gente permanece forte."

Ilegalidade. Essa diminuição não se limita a São Paulo. No total, o número de estrangeiros vivendo no Brasil caiu 40% desde 1991, passando de 606,6 mil para 433,4 mil.

O número só contabiliza aqueles que vivem no País e responderam aos questionários e, por isso, deixa de fora imigrantes ilegais.

Dados do Ministério da Justiça mostram ainda que a permanência temporária, para trabalho, turismo ou estudos, aumentou 52% só no último ano no País.

A regularização de ilegais residentes também cresceu, mas permanece baixa: apenas 1.861 se legalizaram no primeiro semestre de 2011.

"O Censo só pega o imigrante que não teme responder aos questionários por problemas na imigração", diz Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE.

 

Novos moradores têm preferido o litoral do Nordeste

Baixo custo de vida, vocação para o turismo e muita sombra e água fresca atraem os novos estrangeiros que escolhem o Brasil para morar.

Segundo os registros do Censo 2010, houve aumento no número de imigrantes principalmente em regiões brasileiras com pouca tradição em imigração recente. A maior parte delas está no litoral nordestino: o líder é o Ceará, com aumento de 70,5% na quantidade de estrangeiros.

Em segundo lugar está o Rio Grande do Norte (66,1%). A principal razão, segundo especialistas, é a chegada de europeus que decidem viver no litoral brasileiro e abrir hotéis, pousadas e restaurantes - não é raro ver placas de imóveis à venda ou anúncios em inglês em áreas como Cumbuco, a 30 quilômetros de Fortaleza, ou Tibau do Sul (RN), na famosa Praia da Pipa. / N.C. e R.B.

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