Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

São Paulo não terá como evitar o lockdown, afirmam especialistas

Expectativa que a medida fosse anunciada pelo prefeito em coletiva foi frustrada. Bruno Covas afirma que isolamento está sendo debatido com o governo do Estado

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 18h24

A coletiva do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), realizada na manhã deste domingo, 17, foi cercada pela expectativa de um possível anúncio de lockdown na cidade de São Paulo para conter o avanço do novo coronavírus. Não foi o que aconteceu. O prefeito deixou claro que a decisão pelo fechamento total deve partir do governo do Estado, referindo-se, em diversos momentos, à falta de condições para que a cidade, sozinha, venha adotar essa medida.

“É uma questão que está sendo debatida dentro do comitê de Saúde criado por ele (o governador João Doria), do qual inclusive o secretário (municipal de Saúde) Edson Aparecido faz parte. É um tema que estamos debatendo com o governo do estado”, disse Covas.

O prefeito declarou que o sistema de saúde da cidade está chegando ao seu limite e que o isolamento não está sendo suficiente, mas disse também que é impossível a cidade, sozinha, adotar o lockdown. Covas afirmou que  "não tem poder de polícia" e que "vivemos em uma região metropolitana", com "mais de 1.700 ruas que começam em uma cidade e terminam em outra".

Interlocutores próximos ao prefeito e ao governador João Doria (PSDB) enxergaram na fala de Covas uma forma de pressionar o governador para que ele adote o quanto antes essa medida, que está sendo analisada pelo comitê de saúde criado pelo governo do Estado para o combate do coronavírus.

Para o cientista político Humberto Dantas, doutor pela USP, pesquisador da FGV e head de educação do Centro de Liderança Pública (CLP), também é possível incluir um cálculo político nesse "não lockdown" da cidade de São Paulo.

"Do ponto de vista político e econômico deve estar existindo uma pressão muito grande para não fazer o lockdown na cidade de São Paulo. Não podemos esquecer que esse é um ano eleitoral. Isso pode fazer parte de uma estratégia partidária. Ao declarar o lockdown, Covas pode ter prejuízos eleitorais no curto prazo. Já o governador não tem nenhuma eleição no seu horizonte", diz.

Para além dos aspectos políticos, a não decretação de fechamento total pela prefeitura também divide especialistas. "O prefeito está certo no sentido de que nenhuma cidade é uma ilha, mas, por outro lado, acredito que São Paulo seria uma cidade mais influenciadora do que influenciada. Ou seja, o lockdown em São Paulo traria mais efeitos positivos para toda a região do que problemas para a cidade de São Paulo. A cidade seria menos afetada pelas demais", afirma Carlos Magno Castelo Branco, infectologista e epidemiologista da Unesp e membro do Comitê de Contingenciamento do Estado.

Já para o médico sanitarista e professor de administração hospitalar e sistemas de saúde da FGV, Walter Cintra Ferreira, o prefeito está correto no que diz respeito a necessidade de envolver outras cidades em um lockdown. "Ele tem razão quando diz que não tem como falar em lockdown sem a participação de outras cidades, principalmente da região metropolitana. Em São Paulo, passamos de uma cidade para outra sem perceber. Essa não pode ser uma decisão solitária do prefeito. Isso tem que ser discutido em nível regional entre as secretarias de saúde. Mas, quando olhamos para a nossa taxa de ocupação de leitos, fica claro que é preciso pensar em lockdown."

O professor de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP Eliseu Alves Waldman, considera que decretar o lockdown será inevitável em breve. "Basta acompanhar a situação da ocupação dos leitos em hospitais". "O problema é que estamos vivendo essa pandemia com um ruído muito forte. Acho que a demora de assumir um lockdown está ligada a esse ruído. Se a sociedade está com problema para obedecer algo mais suave como a quarentena, como teremos sucesso em um lockdown?", questiona.

Segundo Waldman, o lockdown precisaria implicar em uma série de políticas especiais voltadas às populações mais vulneráveis. "É preciso atividades educativas e impositivas. Do contrário, será um lockdown apenas obedecido pela classe média", opina.

O epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Lotufo defende o fechamento da região metropolitana e concorda com as dificuldades mencionadas pelo prefeito, mas acredita que a cidade de São Paulo e o governo do Estado deveriam adotar medidas adicionais para conter o avanço da pandemia do coronavírus.

"Os grandes centros comerciais deveriam ser totalmente bloqueados, poderiam pensar em uma restrição aos ônibus intermunicipais, no uso de centros esportivos e escolas como local de confinamento para quem não consegue fazer o isolamento na própria casa, uma limitação da quantidade de passageiros no Metrô e na CPTM", enumera.

 

Pesquisa.

Projeções feitas por pesquisadores da Unicamp indicam que a adoção do lockdown será inevitável se o isolamento não subir nas próximas semanas. Segundo as projeções, até o fim abril, a taxa de contágio estava em 1,49 para o Estado e de 1,44 para a capital. Ou seja, cada 100 paulistas infectados transmitiam o novo coronavírus para quase 150 pessoas, em média.

De acordo com o estudo, é preciso atenuar a taxa de contágio livre em 84%, o que seria possível com pelo menos 60% de isolamento social combinado ao uso obrigatório de máscaras de boa qualidade.

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