Santa Maria, mais que uma 'cidade média', o coração do Estado

Cenário: Rodrigo Cavalheiro

O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2013 | 02h02

Há cidades maiores, mais ricas e mais pitorescamente "gaúchas" que Santa Maria no Rio Grande do Sul. Mas talvez nenhuma, nem mesmo a capital Porto Alegre, seria capaz de colocar os 10 milhões de habitantes do Estado de luto com uma tragédia em que mais de 200 jovens desaparecem de suas ruas de uma só vez.

Santa Maria fica no centro geográfico do Estado, daí seu apelido: Coração do Rio Grande. A denominação se popularizou, entretanto, não só pela localização no mapa gaúcho, mas também pela capacidade de acolher estudantes. Para adolescentes que vivem na fronteira com o Uruguai e a Argentina - a parte menos povoada do Estado, onde entre uma urbanização e outra pode haver mais de 100 quilômetros de pastagem e lavoura -, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) é a principal alternativa para conseguir uma vaga gratuita no ensino superior. Centenas de estudantes também partem do sul e do norte do Estado para disputar suas vagas - UFSM tem quase 27 mil alunos graduação e pós-graduação.

A posição geográfica transformou o lugar também em polo rodoviário. Durante o verão, os turistas argentinos e uruguaios que vão para as praias gaúchas e catarinenses normalmente usam a cidade como dormitório. Por isso também a repercussão da tragédia na Kiss ontem em sites argentinos - o país sofreu com um episódio semelhante em 2004, com 194 mortes na boate República Cromañón, em Buenos Aires.

Quinta cidade do Estado em população, Santa Maria também é conhecida por ser o berço, natural ou político, de algumas personalidades nacionais. O ex-ministro e governador do Estado, Tarso Genro, começou sua carreira política no MDB em Santa Maria. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Grau, é de lá. O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Beltrame, também. De alguma forma, suas trajetórias estão ligadas ao perfil acadêmico do lugar.

Há outras cidades no interior gaúcho conhecidas por terem unidades federais de ensino. Pelotas, Rio Grande e Caxias do Sul igualmente atraem pela educação superior gratuita, mas são polos regionais também por terem fortes setores industriais. Ontem, quando surgiram as primeiras identificações dos mortos, havia vítimas de Santo Ângelo, Santana do Livramento, Passo Fundo, Três Passos, Ijuí, São Gabriel, Cruz Alta, entre outras. Cidades em diferentes pontos do Estado. Por isso, Santa Maria e seus 261 mil habitantes estão longe de ser "só uma cidade média". Ela representa várias.

Dificilmente há uma família gaúcha que não conheça alguém, ou pelo menos "alguém que conheça alguém" estudando em Santa Maria. Por isso, na manhã de ontem, os relatos de solidariedade congestionaram as redes sociais, em especial o Twitter e o Facebook. Vários posts começavam ou terminavam com "poderia ter acontecido com meus primos" (meu caso), "poderia ter acontecido com meu filho" ou "poderia ter acontecido comigo". Os que conseguiram não desabafar, possivelmente, ainda estão em choque. Possivelmente estão entre as vítimas.

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