Santa Maria faz 'barulho' pelas vítimas

Para lembrar um mês da tragédia, moradores bateram palmas por 15 minutos, acompanhados por sinos das igrejas e buzinas de carros

ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2013 | 02h04

Os 239 mortos no incêndio da boate Kiss foram homenageados em manifestações e cultos religiosos ontem, quando a tragédia completou um mês, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A pedido da Associação dos Pais e Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia em Santa Maria (AVTSM), o tradicional minuto de silêncio foi substituído por um "minuto do barulho", que serviu tanto para lembrar que os mortos viviam uma fase muito alegre de suas vidas quanto para advertir as autoridades que a sucessão de falhas que provocaram o incêndio não pode mais ocorrer.

As primeiras homenagens foram feitas ainda na madrugada, diante dos escombros da casa noturna, por familiares e amigos que deixaram flores, cartazes e fotos no local. Mas foi às 8 horas que quase toda Santa Maria se mobilizou. Na Praça Saldanha Marinho, no centro, cerca de 600 pessoas vestidas de branco, com fotos de filhos, irmãos e amigos perdidos na tragédia estampadas nas camisetas, puxaram uma salva de palmas que durou 15 minutos, e não apenas um, como estava programado, e foi acompanhada por pessoas nas sacadas, janelas e calçadas de diversos bairros da cidade.

O barulho das palmas foi acompanhado, ao mesmo tempo, pelo som dos sinos de todas as igrejas e pelas buzinas acionadas pelos motoristas ininterruptamente. A concentração na praça terminou com todos rezando o Pai Nosso. Diante dos hospitais, também houve concentrações de pessoas e aplausos. Um grupo de jovens confeccionou adesivos com o desenho de um coração em vermelho e colou 239 deles - um para cada vítima - em espaços próximos à boate.

Pai de Jennefer Ferreira, 22 anos, uma das vítimas da tragédia, e presidente da AVTSM, Adherbal Alves Ferreira, de 48 anos, repetiu diversas vezes que as mobilizações comandadas pela entidade tentam incentivar as famílias a retomar suas vidas. "Com esse barulho, fizemos uma homenagem à alegria com que eles viviam." Estavam programadas para a noite passeata denominada "Sair do Luto e Ir à Luta" e missa. Três parentes de vítimas do incêndio que matou 194 pessoas na boate República Cromagnon, em Buenos Aires, em 1994, chegaram a Santa Maria para prestar solidariedade às famílias.

Inquérito. A Polícia Civil tem até domingo para concluir o inquérito. Os laudos do Instituto-Geral de Perícias (IGP), porém, serão entregues aos policiais em dez dias. O inquérito poderá ser prorrogado ou receber informações complementares depois. A decisão será anunciada amanhã.

Os delegados já sabem que grande parte das mortes foi provocada pelo cianeto, gás produzido no incêndio de espuma. O pedido de prisão preventiva dos sócios da Kiss e dos dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, responsáveis por acender um artefato pirotécnico no palco, também não foi decidido.

A apuração sobre emissão dos alvarás e da fiscalização, que requer cruzamento de depoimentos e leis federais, estaduais e municipais, será o processo mais complicado, diz a polícia.

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