Santa Maria: Crea fala em 'sucessão de erros' Parecer lista uso de revestimento acústico inflamável entre as 'causas fundamentais' da tragédia; já secretário sugere omissão da prefeitura

O incêndio na boate Kiss, que já deixa 237 mortos, ocorrido na madrugada do dia 27, em Santa Maria (RS), foi consequência de uma série de falhas. A avaliação é do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (Crea-RS), que divulgou ontem relatório técnico. Além de apontar causas, o parecer propõe medidas para evitar que fatos semelhantes se repitam, como a consolidação da legislação que trata do tema.

ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2013 | 02h03

O documento indica como "causas fundamentais" para o fogo o "uso de material de revestimento acústico inflamável" na área do palco e realização de "show com componentes pirotécnicos". A propagação das chamas, segundo o Crea-RS, foi influenciada pela falha dos extintores localizados perto do palco, "que poderiam ter extinguido o foco inicial do incêndio". Já "deficiências nas saídas de emergência" e o "excesso da lotação permitida" pesaram para o "grande número de vítimas", diz o documento. Como agravantes, são elencadas "características inadequadas do espaço, em termos de sinalização, tamanho e localização das saídas de emergência", assim como a "aparente falta de treinamento para situações de emergência e a ausência de equipamentos de comunicação".

Sobre o revestimento acústico - que, ao queimar e provocar fumaça tóxica, teria sido a principal causa das mortes -, o parecer sugere que a sociedade adote uma "forte estratégia" para banir o uso de materiais tóxicos e inflamáveis. Uma das medidas listadas é a criação de um Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico, estadual ou nacional. "Eu não diria que a legislação permitia aquele tipo de porta (da boate Kiss), mas não vedava expressamente", exemplificou Luiz Carlos Pinto da Silva Filho.

"Tudo leva a crer que foi um conjunto de circunstâncias que levaram à tragédia. Mas foi a espuma sem retardante (material que dificulta a queima) que gerou a fumaça", disse ontem o delegado Marcelo Arigony, responsável pela investigação, ao lado de outras autoridades do Estado. Para o secretário de Segurança Airton Michels, houve "um compartilhamento de responsabilidades", sugerindo omissão da prefeitura de Santa Maria. "Em qualquer lugar do mundo, quem controla o prazo dos alvarás?", indagou.

Homenagem. Na manhã de ontem, cerca de três mil alunos, funcionários da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e parentes de vítimas participaram de um ato ecumênico no câmpus, no dia que marcou a volta às aulas na universidade. Entre alunos e ex-alunos, a UFSM perdeu 116 pessoas - foram acesas 116 velas durante a cerimônia.

O reitor Felipe Martins Müller anunciou que um monumento em homenagem às vítimas será construído na universidade.

Quatro feridos no incêndio tiveram alta ontem. Entre os 93 que seguem hospitalizados, o número dos que dependem de ventilação mecânica caiu de 35 para 29. Uma nova perícia será realizada na manhã de hoje na Kiss. / COLABOROU LUCAS AZEVEDO, ESPECIAL PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.