Santa 'Dona de Fazenda' é furtada

Moradores de São Roque vão até rezar novena

JOSÉ MARIA TOMAZELA, SOROCABA, O Estado de S.Paulo

15 Março 2012 | 03h09

Uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, esculpida há mais de 200 anos, foi furtada na noite de anteontem da Capela do Quilombo do Carmo, na zona rural de São Roque, a 62 quilômetros da cidade de São Paulo. A santa tem valor histórico e cultural e seu desaparecimento tem causado comoção entre os moradores da região.

Além de ser a padroeira da igreja construída em sua homenagem, Nossa Senhora do Carmo era "dona" das terras da vila. De acordo com os registros da Mitra Diocesana de São Paulo, uma fazenda de 2.175 hectares foi doada à Nossa Senhora do Carmo, representada pela Província Carmelita Fluminense, em meados do século 18. A imagem de estilo barroco, provavelmente trazida de Portugal nos tempos do Brasil Colônia, é anterior à instalação da capela, ocorrida no fim daquele século.

A igreja não tinha nenhum vigia durante noite. O furto foi constatado apenas na manhã de ontem, quando uma religiosa percebeu que uma janela estava aberta. Para entrar, o autor do furto arrombou a fechadura da porta dos fundos da capela. A vila onde ocorreu o crime fica a 22 quilômetros da área urbana e, até ontem à tarde, a polícia não tinha pistas do ladrão.

O furto abalou a comunidade. Os fiéis vão iniciar nesta semana uma novena para que a imagem seja recuperada. De acordo com o antiquário e pesquisador Marcelo Coimbra, a imagem furtada não aparece na relação das peças sacras mais conhecidas do Estado, o que pode dificultar a sua localização. "Não há registro de imagens de Nossa Senhora do Carmo do século 17. Por isso, acho que ela era mais recente, do século 18 ou 19."

A santa, que se caracteriza por trazer nas mãos um escapulário, pode ter sido trazida do Rio de Janeiro pelos carmelitas, daí a possibilidade de sua origem europeia. Para Coimbra, não é possível estimar o valor sem uma análise da peça. "Mais do que o valor comercial, tem de ser levado em conta o valor histórico e religioso", afirmou o especialista em arte.

Fé. Conta a história que 87 famílias negras que trabalhavam na fazenda doada à imagem de Nossa Senhora do Carmo eram consideradas "escravas da santa". Quando foram libertos, no fim do século 19, os negros continuaram na vila, mas eles próprios se consideravam moradores do "terreno da santa". A partir de 1930, a vila sofreu forte pressão imobiliária e a área ocupada pelos negros ficou reduzida à proporção de 5% da fazenda. A Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, reconhece a imagem de Nossa Senhora do Carmo como remanescente de quilombo.

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