Sambódromo verá 'São Lula' do cordel

Enredo da Gaviões da Fiel exclui contradições e defeitos de ex-presidente que brigou por estádio corintiano

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h02

Na madrugada de amanhã, a escola de samba Gaviões da Fiel apresenta a saga do menino pobre que veio em um pau de arara para São Paulo, onde trilhou o caminho rumo ao Palácio do Planalto. A imagem carnavalesca do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa para trás seus defeitos e contradições para ressurgir na figura do mito popular, com base nas narrativas de cordel. É um dos destaques em uma noite de desfiles que ainda terá de Jorge Amado a Tropicália.

O homem que ajudou na articulação para construir o estádio corintiano em Itaquera surge no sambódromo como um São Jorge do Agreste, que derrota a ditadura (apesar de seu aparecimento político ter ocorrido em 1978, mais de 14 anos depois do golpe militar), estabiliza a moeda (apesar de o real ter sido criado no governo de Itamar Franco e se consolidado no de FHC), consolida a liberdade de imprensa (apesar de seu governo ter proposto uma polêmica regulamentação da mídia), acaba com a fome e leva educação ao povo.

Para tentar contar com a presença do ex-presidente no quinto carro alegórico da escola, que representa a festeira nação corintiana, foi criada uma estrutura de acrílico para evitar que ele pegue chuva. Mas a ida de Lula ao sambódromo foi completamente desautorizada pelos médicos - ontem, ele deixou o Hospital Sírio-Libanês dez quilos mais magro.

Mesmo assim, dez entre dez gaviões acreditam que Lula desobedecerá aos doutores. O título do enredo, afinal, é Verás que o filho fiel não foge à luta - Lula, o retrato de uma nação. "Pode apostar que ele não perde essa homenagem. O carinho do povo no carnaval vai ser um remédio muito mais potente do que qualquer outro que a medicina já inventou", diz o vereador Antonio Goulart (PSD), participante de todos os desfiles da Gaviões.

Getúlio. Ser homenageado no carnaval não é exclusividade de Lula. No fim dos anos 1930, com a instalação do Estado Novo, Getúlio Vargas copiou ideias fascistas de Mussolini para obrigar sambas-enredo a contar a história do Brasil. Em 1956, depois do suicídio, foi homenageado pela Mangueira com o enredo O Grande Presidente. Em 1981, novamente a Mangueira faria um enredo sobre outro presidente - Juscelino Kubitschek, chamado De Nonô a JK. Mas nenhum dos sambas garantiu o título do carnaval. Com o público e os jurados, aliás, homenagens a políticos normalmente não dão vitória - terminam desbancadas por figuras do Império, orixás ou reis populares, como o cantor Roberto Carlos.

A presidente Dilma Rousseff também não vai ficar de fora do carnaval neste ano - ela seria uma das mulheres homenageadas ontem no primeiro dia de desfiles, pela Vai-Vai.

Retirante. No samba da Gaviões, o carnavalesco Igor Carneiro procurou aproximar a trajetória de Lula à de um retirante. "É a história do nordestino que chega sem nada a São Paulo e vence na vida. É para que qualquer gavião possa se identificar."

"O principal desafio é falar sobre Lula e o Brasil sem poder usar um pingo de verde", diz Carneiro. O verde é proibido por ser a cor do uniforme do Palmeiras.

Para elaborar o enredo, Carneiro leu a biografia de Lula escrita por Denise Paraná que inspirou o filme Lula, o Filho do Brasil. Como a história acaba na posse, porém, não serviu como referência. As principais ideias vieram do livro Lula na Literatura de Cordel, organizado por Crispiniano Neto, amigo de Lula desde os anos 1980, quando tocava viola na porta das fábricas para chamar operários para se filiarem ao PT. Segundo integrantes da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Lula já é um dos seis personagens mais retratados no País, atrás de Lampião, Padre Cícero, Frei Damião, Antônio Conselheiro e Getúlio Vargas.

É preciso criatividade para pensar nas imagens. O escorpião, signo de Lula no zodíaco, e o carcará, ave nordestina que simboliza resistência, servem de referência. O fundo musical é um samba-enredo acompanhado por sanfonas. Já a comissão de frente será representada por uma trupe mambembe, que sai de dentro de um cordel. E a ditadura aparecerá como um dragão em um carro alegórico. Fábio Assunção fará o papel do motorista do Rolls-Royce da posse, que ainda terá um sósia do presidente.

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