Infográfico Estadão
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Sambas pouco escorregam no português. Mas na coerência...

Professores apontam deslizes como imprecisões históricas. Temática afro ainda é campeã no Anhembi

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 03h00

No carnaval da redação do jornal, o refrão está na mão: “Vai carnaval, é emoção / Vem amor, meu coração / Quero vida, inspiração / Acreditar, ser campeão”. Mas fique tranquilo que no Anhembi essa pérola de má qualidade não será ouvida. Ou melhor: as palavras, sim; mas não nesta ordem. Os versos acima foram escritos com as palavras que mais aparecem nas letras das 14 escolas do Grupo Especial de São Paulo.

Apesar da exaustiva repetição das palavras, de português os sambistas andam bambas. Quem avalia é o professor de Língua Portuguesa Cláudio Caus, do Cursinho da Poli. “Erros graves de transgressão da norma culta eu não encontrei”, diz. “Talvez pelo fato de a maior parte dos sambas ter vários autores. Fiquei com a impressão de que foram cuidadosos.”

O que não significa que os escritores da passarela tirariam um dez em um vestibular. “Observamos que o uso da norma culta não é tão rigoroso. Mas isso é esperado, já que o carnaval é algo que faz parte da cultura popular.” Exemplo disso é a contração do “para” em “pra” no samba da X-9 Paulistana, que desfila na madrugada deste domingo, 15: “Em alertar pra não faltar”. Há também o “para o” convertido em “pro”, como aparece nos enredos da Nenê de Vila Matilde e da Rosas de Ouro. “Apesar de ser um desvio ainda não consagrado pela norma culta, trata-se de algo muito comum em textos escritos hoje”, diz Caus.

São perceptíveis ainda erros de coerência. Principalmente a confusão entre a segunda pessoa (tu) e a terceira (no caso, o você) na hora de conjugar os verbos. “Em um mesmo discurso, a pessoa usa o você e o pronome te, por exemplo. É uma questão de concordância nominal”, explica Caus. No samba da Tom Maior há as expressões “quero você” e “me abraça”, esta última, a flexão de tu, no imperativo. “Deveria ser ‘abrace’. Mas é desvio comum.”

História. Segundo levantamento do Censo Samba Paulistano, trabalho do Observatório de Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo, a temática afro é a que predomina nos sambas-enredo ao longo da história. Desde 1991, quando o sambódromo foi inaugurado, foram 259 vezes que as escolas falaram sobre o assunto; destas, em 38 Palmares ou Zumbi foram citados. 

Na sequência do ranking, aparecem os enredos que tratam do folclore nacional (167), temáticas críticas (164), biográficas (143) e homenagens variadas (123). A cidade de São Paulo rendeu samba 99 vezes e o próprio carnaval, em um exercício metalinguístico, em 93 ocasiões. Outras cidades foram celebradas no Anhembi 88 vezes. Empatados aparecem os temas nacionalista e infantil, ambos com 86 desfiles - no caso do último, o circo foi protagonista em 31 ocasiões. Por fim, episódios históricos foram levados ao Anhembi 71 vezes. O levantamento ainda traz 742 sambas-enredo na categoria “livre criação”, ou seja, um balaio para agrupar enredos que não se encaixam em nenhum dos itens anteriores.

Mesmo que os temas históricos não sejam mais a maioria, esses enredos não escapam do olhar mais atento dos historiadores. “Não são erros históricos, mas algumas imprecisões ou a falta de um contexto”, diz Elias Feitosa de Amorim Júnior, professor de História do Cursinho da Poli. Ele cita o caso da Águia de Ouro, cujo enredo fala dos 120 anos do Tratado de Amizade firmado entre Brasil e Japão. “Na letra, falam do Brasil e do Japão, mas o tratado fica fora de contexto, não aparece na letra. É muito genérico.”

Amorim cita o enredo da Acadêmicos do Tatuapé, que fala sobre o ouro. “Citam o Egito, a mitologia... Mas é difícil cravar um primeiro lugar onde o ouro despertou o interesse da humanidade”, afirma. “Aí fazem um salto já para o Brasil. Tudo bem que, se fosse para contar a história do ouro, imagine quantos carnavais precisariam.”

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