Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

'Samba gringo' elege rainha do carnaval

Representante de bloco gay, a ganhadora do concurso da corte de 2011, Luana Campos, de 24 anos, usou referências que trouxe da Tailândia

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2011 | 00h00

Pouco antes do começo do concurso que elegeu a rainha do carnaval de São Paulo deste ano, sexta-feira, no Anhembi, cerca de dez candidatas vestem biquínis minúsculos em um camarim improvisado. "Gente, homem não pode entrar! Fecha a porta!", grita o maquiador Sandro Alexandre, de 24 anos.

Sandro é homem, como os outros quatro maquiadores que estão na sala, mas ele logo dá a entender que não se refere a sexo biológico e sim a preferências sexuais: "As "biba" pode (sic) ficar!"

As candidatas parecem muito ocupadas com os ajustes das indumentárias para prestar atenção no sexo de quem está em volta. "Puxa a calcinha para cima", orienta o maquiador Cláudio Fernandes, de 37, enquanto aplica uma base da cor da pele da virilha na espetacular Valéria D"Arc, de 24, da Banda do Candinho.

O concurso premiou com R$ 12 mil a rainha, R$ 7 mil a primeira princesa e R$ 6 mil a segunda. As 15 candidatas foram avaliadas por um júri que incluía figuras como a chef Bel Coelho e a ex-passista Pinah.

Roupões e palmeirinhas. Quem não é "biba" permanece de boca aberta à passagem de candidatas enroladas em roupões de seda ou vestindo microshorts com estampas de palmeirinhas. "Nunca vi nada igual, mano, só tem as "linda"", diz o faxineiro William Pereira, de 22 anos, que dá um tempo com a vassoura na mão.

Ao fundo do corredor, em outro camarim, quatro funcionários da manutenção procuram parecer ocupados, carregando caixas, enquanto observam com o canto dos olhos a preparação de Jaqueline Lima, de 21, representante da Barroca Zona Sul. Vestida com apenas um pedacinho de pano branco na parte de baixo e outro na de cima, Jaqueline empina o quadril para que o maquiador Lincoln Oliveira, de 30, possa borrifar todo o seu corpo com laquê. "É para dar brilho à pele", diz, candidamente, enquanto as caixas vão passando.

Instalados em um canto estratégico da coxia, perto da mesa de som, os auxiliares Silveira e Victor têm uma visão privilegiada do palco. "Não sei o nome dela", diz Silveira, quando perguntam quem é sua favorita. Mais tarde, ele aponta na direção de Mara Kelly da Silva, uma morena de27 anos e 69 cm de coxa malhada, 9 cm a mais que a do lateral Roberto Carlos, conhecido pelo diâmetro das pernas. O sonho de Mara é chegar nos 72 cm. "Vou na linha da Gracyanne (Barbosa, rainha da bateria da Vila Isabel)", diz a candidata da Flor de Liz.

Samba no pé. Avaliadas pelos quesitos elegância, simpatia, comunicação e samba no pé, as candidatas têm de desfilar de biquíni, de vestido, requebrar e ainda atestar "comunicabilidade". "Enfim, é carnaval e todos os povos se unem e alegram em torno de um só ideal", acha uma. "Pensei em falar sobre racismo, mas preferi meio ambiente. Só com educação a gente vai acabar com todo o lixo que emporcalha a nação", ensina a seguinte.

"Na corte do carnaval, representarei a corte do povo", promete a terceira, espécie de Havanir da avenida, levantando os braços cheios de pulseiras.

A vencedora não chamou atenção especial até a hora de mostrar samba no pé. Recém-chegada de uma temporada de três anos na China e na Tailândia, Luana Campos levou a plateia de carnavalescos ao delírio, harmonizando o vigor do samba com a graça das danças tailandesas. Princesa no carnaval de 2008, Luana agora representa o bloco gay pré-carnavalesco Arco-Íris, que há três anos desfila na Rua Vieira de Carvalho, na região central, e que, pela primeira vez, teve candidata no concurso.

Força Gay. O "samba tailandês" de Luana sacudiu não só a torcida do Arco-Íris, um dos blocos mais bem representados na plateia, mas todo o auditório do Anhembi. "Ela ganhou por que mostrou algo diferente", comemora o presidente do bloco, Eduardo Correa.

"Obrigado, gente", não para de repetir Luana, que tem 1,71m, 61 kg, é filha única e paulistana de Santa Cecília. Entre fantasia, traje de gala e acessórios, a escola e patrocinadores investiram cerca de R$ 80 mil na candidata.

Apesar da pouca idade, e da longa quilometragem pelo mundo, Luana diz que está sem namorado no momento. "Não sei ainda aonde vou comemorar", diz ela, aos soluços (de emoção).

 

Rei Momo quase magro. Se não conseguisse se eleger Rei Momo agora, em sua quinta tentativa, o motorista de Kombi Henrique de Moura Jr. provavelmente deixaria o sonho de lado. Em breve, Juninho Tonelada, como é conhecido, pretende se submeter a uma cirurgia de redução estômago e perder parte significativa dos 174 kg que o ajudaram a se eleger.

 

"A cirurgia já está marcada", diz ele, que deve adiá-la para depois do Carnaval. O peso mínimo exigido dos candidatos a Rei Momo é 90 kg. Tonelada, o mais pesado dos dez candidatos, mede 1,80 m. Representante da Rosas de Ouro, ele tem 29 anos, é filho de autônomo e dona de casa e tem um irmão "também gordo, mas não candidato a Momo".

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