Sacilotto

Diante da galeria que dá para a Rua Monte Casseros, em Santo André, Concreção 005, de Luiz Sacilotto, uma escultura em aço carbono pintado, de 4 metros, desdobra-se com a leveza de um origami. Pichações intimidadas pelo diferente da obra, panfletos de anúncios reticentes em face da mensagem muda das cores e formas, bundas de transeuntes que acomodam seu cansaço entre vãos incômodos da escultura não tiram da obra maltratada a beleza de sua incógnita. Desencontros de esquina que nos falam de ocultos encontros, do operário que arrancou do produto industrial conformado a forma leve da obra artística inconformada.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2011 | 00h00

Sacilotto nasceu na Santo André operária em 1924 e morreu na São Bernardo operária em 2003. Fez do seu concretismo um meio de desconstrução da opressão que há no produto que se desumaniza no repetitivo dos atos mecânicos da linha de produção industrial. E também da alienação do trabalhador que se entrega ao seu produto e que nessa entrega não se vê como autor e ator, como rebelde desfazedor de coisas e, nesse movimento, escultor do humano na forma artística insubmissa. Sacilotto arrancou o belo de dentro do funcional e inexpressivo, o inconformismo da forma artística de dentro dos gabaritos e conformações do mero produto. A obra criativa da culta e sensível inteligência saindo de dentro do que é a prisão mercantil para o produto do trabalho. A humanidade do homem que trabalha está na arte de que suas mãos são capazes.

Sacilotto é a melhor expressão da revolta suburbana. A revolta da lucidez dos que podem ver e plasmar a sobrecoisa que há na coisa, como nessa escultura de esquina, que espera os passantes que não a esperam, mas com ela se incomodam. Os que tentam transformá-la em banco de jardim que não é, em parede que tampouco há de ser. Seu ruidoso silêncio convida o homem comum à dúvida.

Como todo adolescente de seu tempo, no subúrbio operário, Sacilotto foi estudar na Escola Profissional do Brás, que logo seria a Escola Técnica Getúlio Vargas, na Rua Piratininga, cujo centenário neste ano se celebra. A escola formava operários qualificados. Era o tempo em que ainda não se diferençava no trabalhador industrial o operário do artista. Artista porque artesão que a indústria ainda não transformara em passivo repetidor de gestos. Uma coisa se via que a todos admirava: um operário fazia e outro operário criava. Na tensão de uma pessoa só, a do operário que ainda não sucumbira ao imaginário da linha reta. O artista-operário que havia em Sacilotto se expressava na imaginação criativa das desocultações e desvendamentos que há na beleza de sua obra. Nas Concreções de Sacilotto, a linha reta se move, ondula, vive, é polissêmica, em rebeldia contra a unicidade da retidão linear. E desdiz o aparente, ao desvelar a poesia que há no trabalho.

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