Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Sabesp reduz pressão da rede além do permitido à noite e pode ser multada

Irregularidade foi constatada em investigação da Arsesp, após registrar 339 reclamações; segundo órgão, a prática caracteriza infração e pode provocar cortes no fornecimento. Companhia estadual diz que fez esclarecimentos após ‘casos pontuais’

Fabio Leite e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 03h00

Uma investigação sobre falta d’água na capital paulista feita pela agência estadual que fiscaliza o serviço prestado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) constatou que a empresa reduziu a pressão da água na rede de distribuição além do limite mínimo estabelecido pela norma técnica brasileira. Segundo o órgão, a prática caracteriza infração e pode provocar falhas de abastecimento nas regiões mais altas e afastadas da capital. A Sabesp foi notificada e pode ser multada.

De acordo com a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), a fiscalização feita nos Centros de Controles Operacionais da Sabesp na cidade detectou que a pressão da água na tubulação chegou a 8 metros de coluna de água (m.c.a.), abaixo dos 10 m.c.a. definidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) na regra que regula a distribuição de água para abastecimento público - que a Sabesp diz seguir. O m.c.a. é a unidade que mede a pressão da água na rede a partir dos reservatórios de distribuição. Quanto menor o índice, menor o alcance da água. O máximo recomendado é de 50 m.c.a. 

Segundo Jorge Giroldo, professor de Hidráulica do curso de Engenharia da Fundação Educacional Inaciana (FEI), a pressão de 10 metros por coluna de água é a medida mínima para que a água chegue nas regiões mais altas de São Paulo. Com 8 m.c.a., o recurso vai ter mais dificuldade para alcançar a torneira do consumidor. “Pode ser que em uma casa de dois andares a água tenha dificuldade para chegar na parte de cima, mas no piso térreo é possível.”

Realizada entre junho e setembro, após aumento das queixas de falta d’água, a fiscalização da Arsesp constatou ainda que as ocorrências de redução de pressão na rede da Sabesp são “geralmente no período noturno” e “com duração média entre 6 e 10 horas”. A agência informou ter recebido no período 339 reclamações por falta de água e pressão insuficiente de clientes da Sabesp. “Com base nas informações e manifestações apresentadas pela Sabesp avaliamos que ocorreram intermitências no abastecimento de água, caracterizando infração dos regulamentos estabelecidos”, afirma a Arsesp. Segundo o órgão, a Sabesp recebeu sete notificações para esclarecer casos de falta d’água.

Economia. A redução da pressão noturna na rede da Sabesp em até 75%, de 40 para 10 m.c.a., foi revelada pelo Estado em abril. Omitida pela empresa até então, a prática é a que mais economiza água, porque diminui as perdas por vazamentos na tubulação, que costumam crescer à noite, conforme a rede fica mais pressurizada por causa da queda no consumo. Em setembro, ela foi responsável por 54% de toda a economia registrada. O problema é que a prática provoca desabastecimento em imóveis espalhados pela cidade.

Nesta sexta-feira, 12, o Estado mostrou que a redução da pressão foi antecipada pela Sabesp há cerca de dois meses, segundo relatos de dez moradores de diferentes regiões, deixando as torneiras secas mais cedo. “Agora, 17h30 a água já não chega mais”, relata a empregada doméstica Neide Martins, de 54 anos, moradora de Itaquaquecetuba. 

Em nota, a Sabesp afirma que “cumpre rigorosamente as determinações dos órgãos reguladores, entregando na casa dos clientes água com pressão mínima de 10 m.c.a.” e que “todas as notificações da Arsesp sobre a falta d’água foram esclarecidas à agência e decorreram de casos pontuais já solucionados”. 

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