Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Sabesp decreta sigilo de 15 anos sobre dados da rede de água e esgoto

Companhia controlada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) alega que divulgação de informações pode "pôr em risco a vida, a segurança ou a saúde da população"

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 18h28

Atualizado às 22h45

SÃO PAULO - Em meio à crise hídrica, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) decretou sigilo de 15 anos sobre dados da rede de água e esgoto, incluindo informações de projetos e localização de equipamentos, instalações e sistemas. A estatal alega que a divulgação pode “implicar em possíveis usos inadequados, manipulação e danos nos sistemas de abastecimento de água ou esgotamento sanitário”.

O comunicado que decretou o sigilo foi publicado no Diário Oficial no dia 30 de maio pela diretoria da Sabesp, presidida pelo engenheiro Jerson Kelman. A empresa afirma no documento ter respaldo em um trecho de um decreto de 2012, do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que permite tornar secretos dados públicos que possam “pôr em risco a vida, a segurança ou a saúde da população”.

O caso foi revelado nesta terça-feira, 13, pelo portal iG, que descobriu o fato após ter um pedido de acesso à informação negado em todas as instâncias do governo Alckmin. Segundo a reportagem, o sigilo foi usado pela Sabesp para não divulgar a lista dos 626 “pontos prioritários” da Grande São Paulo, como hospitais, presídios e clínicas de hemodiálise, onde a companhia anunciou obras para evitar que eles fiquem sem água, caso haja um “rodízio drástico”.

Para a Ouvidoria-Geral do Estado, que recebe o último recurso sobre os pedidos de acesso à informação negados por órgãos públicos, a Sabesp informou que “o dano ou a sua ameaça ao sistema de abastecimento público de água traria enorme prejuízo à sociedade, podendo ensejar, inclusive, depredações e violência contra os órgãos do Estado”. Na resposta, a Sabesp afirma ainda que “o uso de tais informações para planejamento de ações terroristas é uma hipótese remota, porém não pode ser descartada”. Por causa do sigilo, a Ouvidoria indeferiu o acesso à informação.

Mestre em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fabiano Angélico afirma que o sigilo deve ser exceção e que a classificação do que é secreto não pode ser abrangente. “É evidente que o Estado tem o dever de proteger informações que podem colocar a população em risco. Mas a decisão de tornar um dado secreto deve ser a exceção da exceção e também deve ser feita de forma clara e transparente.”

Em nota, a Sabesp informou que as informações sobre instalações subterrâneas “são sigilosas para evitar eventuais atos de sabotagem ou vandalismo que colocariam em risco a vida, segurança ou saúde da população”. A companhia informou que vai divulgar nesta semana a lista das entidades beneficiadas com conexões de água.

Metrô. Na semana passada, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) determinou que a Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos revogasse uma decisão semelhante, que havia decretado sigilo de 25 anos sobre 175 documentos do Metrô, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU).

O sigilo de dados do Metrô havia sido decretado em julho de 2014 e só foi revogado por Alckmin após o caso ter sido divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo na semana passada. 

Mais conteúdo sobre:
Sabesp Jerson Kelman

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.