Sabesp apela até a grande consumidor

Carteira de clientes especiais foi chamada a colaborar para evitar racionamento de água generalizado em meio à crise do Cantareira

FABIO LEITE, O Estado de S.Paulo

09 Março 2014 | 02h03

Além dos 8,8 milhões de moradores da Grande São Paulo que receberam estímulo com desconto na conta para economizar água, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) apelou para uma carteira especial de clientes. Comércio e indústria que consomem mais de 500 mil litros por mês foram chamados a ajudar na tentativa de evitar o racionamento generalizado na Região Metropolitana por causa da seca histórica do Sistema Cantareira.

São fábricas, shoppings, supermercados, hotéis e outros grandes estabelecimentos que mantêm contratos específicos com a Sabesp para consumir um volume mínimo de água por mês em troca de tarifas mais baixas. Na prática, quanto maior o consumo, menor o valor do metro cúbico cobrado. Mas, se a empresa não atinge o gasto mínimo dentro da faixa de consumo escolhido, ela é obrigada a pagar pelo volume total.

Por causa da seca no Cantareira, a Sabesp suspendeu a exigência de consumo mínimo para esse grupo, chamado de clientes de demanda firme. Com isso, as empresas e indústrias que mantêm esse tipo de contrato, que têm duração de um ano e são renováveis, podem diminuir o consumo de água para um volume abaixo do mínimo acordado sem ter prejuízo financeiro.

A medida foi adotada pela Sabesp no início do mês passado, juntamente com o plano de bônus para os moradores da Grande São Paulo, que dá até 30% de desconto na fatura para quem economizar ao menos 20% de água no mês. O prazo de duração também é o mesmo: até setembro ou até a normalização do Cantareira.

Com o bônus, a Sabesp disse que a população diminuiu a demanda de água em 2,4 mil litros por segundo, volume suficiente para atender mais de 800 mil pessoas - a população de São Bernardo do Campo. A companhia, contudo, não informou ao Estado nem o número de clientes de demanda firme nem o volume de água que teria sido economizado por eles.

Diferença. Ao contrário dos grandes consumidores, que pagam menos quanto mais consomem, residências, comércio e indústrias de pequeno porte têm o valor do metro cúbico aumentado à medida que o consumo de água também aumenta. Esse grupo responde por 83% do volume de água consumido pelo Sistema Cantareira. O restante é fornecido a indústrias e comércio de grande porte e órgãos públicos.

"É a mesma diferença de vender no varejo e no atacado. O contrato de demanda firme visa a atrair o grande consumidor de água, que faz um plano de consumo e paga uma tarifa menor. Isso fideliza o cliente e melhora a saúde financeira da empresa de saneamento", explicou a professora e especialista em recursos hídricos Nelia Callado, ex-diretora de Planejamento da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal).

Os contratos de demanda firme com preços diferenciados começaram a ser oferecidos pela Sabesp no fim da década de 1990 com o objetivo de recuperar clientes que são grandes consumidores de água e haviam trocado a companhia por caminhões-tanque que ofereciam tarifas mais baratas.

Para um cliente assinar esse tipo de contrato é preciso que o imóvel seja um comércio ou uma indústria, com volume médio de água nos últimos 12 meses igual ou superior a 500 mil litros e este consumo seja mantido durante a vigência do contrato. Ao todo, são sete faixas de consumo oferecidas. Para quem gasta mais de 40 milhões de litros por mês, por exemplo, a tarifa é 34% mais barata do que para quem consome 500 mil litros mensais.

Visitas. Segundo a Sabesp, todos os clientes de demanda firme "foram visitados pessoalmente e receberam orientações para evitar o desperdício e contribuir para a redução de consumo" desde fevereiro.

"Como qualquer empresa, a Sabesp tem de tirar seu lucro. E é melhor que ela não faça isso sobre o cidadão comum e, sim, sobre os grandes consumidores. Mas é necessário que ela estimule a economia de água de todos, não apenas nesse período crítico de estiagem no Sistema Cantareira", disse Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica.

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