Sábado é o mais violento e tem 20% dos acidentes com morte

Enquanto nas segundas de 2007 a média de acidentes com vítimas foi de 69, aos sábados o número pulou para 88

Naiana Oscar, do Jornal da Tarde,

18 de setembro de 2008 | 00h05

Nas madrugadas dos fins de semana, bombeiros, médicos e PMs costumam se despedir, depois de uma ocorrência, com um "até daqui a pouco". Eles têm a certeza de que se encontrarão em breve num outro acidente de trânsito. As estatísticas da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostram que isso vai além de mera intuição. Nos fins de semana, são registrados, em média, 11,3 acidentes com mortes na capital paulista. Sábado é o dia mais violento: concentra 20% desse tipo de ocorrência e quase metade é registrada na madrugada.  No início da noite de sexta-feira, os acidentes começam a aparecer no sistema que registra os chamados do resgate: atropelamento no Itaim Paulista, colisão entre autos em Perus, queda de moto, queda de moto, queda de moto... "Os motoqueiros quase monopolizam nossos serviços", diz o sargento Celso Oliveira, de 42 anos, com os olhos fixos na tela do computador, instalado numa guarita do quartel da Casa Verde, na zona norte. Mas não foi dali que veio o chamado do primeiro acidente que a reportagem acompanharia naquela noite da semana passada. Eram 22h50 quando um motorista avisou: "Tem um motoqueiro caído na frente da Federação Paulista de Futebol." Toca a sirene e em 3 minutos a viatura está na Avenida Marquês de São Vicente, apesar do congestionamento. No chão, a estudante Tatiana, de 20 anos, carona do namorado, Willian, de mesma idade. Eles tinham saído da faculdade e pretendiam ir para casa, mas um carro teria fechado a moto e os dois caíram. Tatiana gritava desesperadamente cada vez que era examinada pela equipe. Sentia dores no joelho e na mão esquerda. Enquanto Willian caminhava de um lado para outro, perdido. "O que é que eu faço?", chegou a perguntar mais de uma vez aos bombeiros. Como não foi nada grave, às 23h15 o trânsito já estava liberado e Tatiana seguia de ambulância para o hospital.  Embora no início da noite fosse unanimidade entre a equipe da Casa Verde que a madrugada de sábado seria de muito trabalho (como sempre), esse acidente foi o único que eles atenderam até o fim do turno. O sargento justificou: "Está frio e não é semana de pagamento." Já na zona sul, esses fatores não foram tão decisivos. Entre 3h20 e 4 horas, a equipe do Corpo de Bombeiros do Capão Redondo atuou em dois acidentes graves. Na Estrada do Campo Limpo, um automóvel, em alta velocidade, bateu num poste e dois homens ficaram presos nas ferragens. O motorista chegou a ficar inconsciente e o passageiro teve fratura exposta. Perto dali, o motociclista Marcos Barros Vilar, de 33 anos, atropelou um cachorro e caiu na calçada. Foi levado para o Hospital das Clínicas com traumatismo craniano - "provavelmente porque levava o capacete no braço", disse um dos bombeiros. "Sexta, sábado e domingo são os dias em que o pessoal sai de casa para se matar."  Enquanto nas segundas-feiras de 2007 a média de acidentes com vítimas foi de 69, aos sábados o número pulou para 88 e aos domingos, para 74. Segundo o diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), José Montal, a incidência maior de acidentes resulta de uma soma perigosa: pouca visibilidade associada à privação do sono e ao consumo de álcool. Além disso, por serem noites de balada, grande parte dos condutores é jovem (e inexperiente). Outro detalhe apontado por Montal é que jovens juntos no mesmo veículo tiram a atenção do motorista e estimulam a transgressão das regras de trânsito. "O jovem ao volante é um risco para os outros e para si. O grande desafio é tornar o discurso de conscientização eficiente para que ele mude seu comportamento."  Dos acidentes com mortes registrados entre sábado e domingo, 40% são atropelamentos. Nos dias de semana, 7 em cada 10 mortes de pedestres ocorrem entre 7 e 20 horas. Nos fins de semana, essa mesma proporção vale para o período das 17 às 5 horas. Os carros em alta velocidade e a falta de visibilidade aumentam os riscos para o pedestre. "Ele vê o farol e tem a falsa impressão de que também está sendo visto", diz o presidente da Associação Brasileira de Pedestres, Eduardo Daros. "De certa forma, o congestionamento dá segurança para quem anda a pé."  Os especialistas em segurança de tráfego acreditam que as estatísticas de 2008, porém, trarão uma redução no número de mortes e de acidentes, por conta da lei seca, em vigor desde julho. "A estimativa é de que os índices caíam em torno de 30%", disse Montal. Em São Paulo, a fiscalização da Polícia Militar é intensificada entre quinta-feira e domingo. No último fim de semana, das 368 pessoas submetidas ao teste do bafômetro, 17 foram autuadas por dirigir sob efeito de álcool.

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