Ruínas entre a preservação e a reconstrução

Ministério Público exige que casa bandeirista do Sítio Mirim seja refeita com materiais modernos

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

As ruínas do Sítio Mirim, em São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo, estão no centro de uma briga judicial. A Secretaria Municipal de Cultura tem projeto de instalar um centro cultural no espaço. O Ministério Público Estadual entende que, antes, é preciso reconstruir a casa bandeirista que ali havia.

"Nossa proposta resolveria dois problemas da região: a demanda por um equipamento cultural e de convívio e a preservação segundo parâmetros modernos da ruína do sítio, que já apresenta condições avançadas de deterioração", entende o secretário de Cultura, Carlos Augusto Calil.

O promotor José Eduardo Ismael Lutti, responsável pelo caso, discorda. "Acredito que a casa bandeirista precisa ser reconstruída, com a utilização de materiais modernos como concreto e ferro", defende.

Tal imbróglio levanta uma discussão. Ruínas devem ser preservadas como estão ou reconstruídas como réplicas do que foram?

"Não faz o menor sentido criarmos uma cenografia da História. Se fosse assim, a cidade antiga de Roma teria de ser totalmente refeita", comenta um especialista, que pediu anonimato.

"Não se pode falsificar uma obra. Se ela está em ruínas, ela é um documento", explica o historiador e arquiteto Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. "Cada pormenor dela - a textura das paredes, o sistema construtivo - tem muita informação que pode ser obtida em uma ruína. Na reconstrução, que é uma falsidade, você destrói informações preciosas."

Contexto. O imóvel de taipa de pilão foi provavelmente construído no século 17 e é um dos poucos casos de patrimônio paulistano tombado nas esferas federal, estadual e municipal. Os primeiros documentos atestando a existência do imóvel são de 1750, quando pertencia ao guarda-mor Francisco de Godoy Preto. Em 1971, a Prefeitura desapropriou a área.

Quem vive na região parece não ter noção da importância daquelas ruínas. "Tem umas paredes velhas todas estragadas naquele terrenão baldio ali na frente", diz um frentista do posto de combustível na frente do imóvel.

Desde 1998, o MP investiga o "abandono". O pedido para embargar judicialmente a obra do centro cultural, anunciada em 2008 ao custo de R$ 5,4 milhões, foi feito por Lutti no início deste ano. Derrubado em primeira instância, o promotor recorreu ao Tribunal de Justiça em busca de liminar para que as ruínas sejam cobertas com lona e protegidas por cerca. E a obra, embargada. O resultado da liminar deve sair em dois meses. A decisão final pode demorar até seis anos, avalia Lutti.

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