Ruínas comovem até socorristas

Anos de experiência de PMs e médicos paulistas não diminuem o choque de ver a serra destruída

Marcelo Auler, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

Mesmo com a experiência de 20 anos pilotando os helicópteros da Polícia Militar de São Paulo, o major Carlos Eduardo Falconi, de 44 anos, não passou incólume pelo sobrevoo pelo cemitério de Teresópolis, no domingo passado.

Ao avistar duas centenas de covas recém abertas, à espera das vítimas da chuva, ficou arrepiado. Logo depois, chocou-se ao avistar o que sobrou do bairro Campo Grande, onde pedras enormes, maiores do que automóveis, tinham rolado para dentro das casas. Nas árvores, corpos pendurados.

"Eu me impressionei com o tamanho da força da natureza. Quando vi do alto o estrago, me pareceu o apocalipse. Parecia que jogaram uma bomba", lembra Falconi, após cerca de 200 pousos e decolagens em cinco dias, nos quais conduziu pelo menos 28 corpos e algumas dezenas de sobreviventes.

O major comandou os dez PMs em duas aeronaves - Águias 7 e 10 - que prestaram socorro às vítimas até sexta-feira, quando as equipes foram substituídas. Com eles atuaram dois médicos e duas enfermeiras do Grupo de Resgate e Atendimento às Urgência (Grau) da Secretaria de Saúde de São Paulo.

Para o médico Jorge Michel Ribeira, de 47 anos, 22 na medicina e 13 em resgates, chocante foi o isolamento das pessoas: "Quem tem uma infecção na cidade pode ir ao hospital que quiser. Mas quem está ilhado não tem como sair", explica.

Já a enfermeira Gislene, apesar dos 18 anos de profissão e 10 resgatando vítimas de acidentes, espantou-se com os relatos dos moradores, como a história de um casal, em Barra do Mendes, em Sumidouro, levado pelas águas em cima de um colchão depois que a casa desabou. No choque com uma pedra, a mulher caiu e sobreviveu até ser resgatada por helicóptero. Levada para o hospital com fratura exposta do fêmur, morreu 24 horas depois por conta de uma infecção. Seu marido foi achado dois quilômetros depois. Além da mulher, perdeu dois filhos e uma sobrinha, dados como desaparecidos.

Luiz Gustavo Curry Cardozo, de 37 anos, é médico há 13 e passou a última década no Grau. Mesmo assim, não tem nenhuma dúvida: "Foi a maior tragédia na história da minha profissão."

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