ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Roubos e furtos de bicicletas aumentam 76% em Pinheiros e no Itaim Bibi

Com aumento da circulação de bicicletas nos dois bairros, ladrões passaram a atuar mais na região, principalmente na Faria Lima

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 03h00

A grande concentração de bicicletas e patinetes na ciclovia da Avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo, tem chamado atenção de criminosos para a área. As regiões de Itaim Bibi e Pinheiros registraram aumento de 76% no número de furtos e roubos de bicicletas no ano passado em relação a 2017. As abordagens de grupos com 3 a 9 pessoas costumam ocorrer quando os ciclistas estão pedalando na ciclovia da Avenida Faria Lima. 

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), considerando o 14° e o 15° Distritos Policiais, que atendem a área, foram registrados 401 boletins de ocorrência no ano passado. Em 2017, foram 228 casos relatados à polícia. Para coibir a alta na criminalidade, ontem a Guarda Civil Metropolitana (GCM) começou a utilizar 12 patinetes para o patrulhamento nas Avenidas Brigadeiro Faria Lima e Paulista, além do Elevado João Goulart (Minhocão)

No caso de roubo na ciclovia da Faria Lima, o modus operandi é semelhante: em alguns trechos da avenida, ladrões surgem na frente do ciclista e, em conjunto, puxam a bicicleta, podendo chegar a derrubar o usuário. 

Na mesma ciclovia, também há relatos de pessoas em deslocamento nos patinetes vítimas de ladrões, que empurram o usuário, puxam o patinete e utilizam o veículo para outros roubos e furtos. Ainda não há dados oficiais de roubos de patinetes na SSP, mas usuários dizem que tem se tornado frequentes. 

O trecho próximo ao Instituto Tomie Ohtake é um dos mais visados. Segundo relatos de ciclistas e trabalhadores da região, isso se deve à iluminação deficitária e ao grande volume de arbustos, que impedem a visibilidade. As abordagens ocorrem principalmente no fim da tarde, após 17h30. 

O Estado conversou com vítimas de tentativas de roubo que foram atacadas às 7 horas. Foi o que aconteceu com o advogado Roberto Kanitz, de 36 anos, vítima de duas tentativas de roubo na ciclovia da Faria Lima no ano passado, ambas no trecho próximo ao Instituto Tomie Ohtake por volta das 7h30. Ele percorre a ciclovia todos os dias da Praça Panamericana até a Avenida Rebouças, onde trabalha.

"Vi quatro meninos, com idades entre 10 e 15 anos, andando na minha direção. Eles fecharam meu caminho, tentando me cercar na frente da bicicleta, e pensei: 'Não deve ser coisa boa'. Então fugi para a rua. Um deles ainda veio correndo atrás de mim, mas consegui fugir", diz. 

Segundo ele, muitas tentativas de roubo - e roubos em si -ocorrem dessa forma, de acordo com relatos coletados de outras vítimas. Em fevereiro, "cansado de só reclamar", Kanitz criou um grupo no Whatsapp com representantes da sociedade civil, empresas de compartilhamento de bicicleta e patinetes, e associações de moradores com foco na segurança da ciclovia da Faria Lima.

Ali, relatos começaram a pipocar. E uma reunião ocorreu na semana passada com o prefeito regional de Pinheiros para a cobrança de iniciativas de melhoria da segurança na via segregada para ciclistas. 

Bikes elétricas são alvos preferenciais

O medo é tão grande que a psicóloga Lúcia Toledo, de 50 anos, deixou de usar a bicicleta elétrica na ciclovia da Faria Lima após sofrer três tentativas de roubo no local, todas no fim da tarde. "As três foram bem parecidas. Eles aparecem do nada bem na pista e tentam te derrubar da bicicleta", conta. Lúcia foi abordada por duplas e trios nas duas ocasiões. 

Desde setembro de 2015 ela utiliza a bike no lugar do carro. Agora, para percorrer diariamente o trecho entre a Praça Panamericana e a Vila Olímpia, a ciclista utiliza bicicletas do sistema de compartilhamento.

"Como hoje a bicicleta elétrica virou um bem desejado, fico receosa. É violento, no sentido de cair e se machucar. Tomei uma atitude preventiva de deixar de usar a minha bicicleta para o dano ser menor", afirma. "É uma pena. Vendi meu carro pra poder circular de bike, convivo com a cidade de outro jeito e tem essa coisa chata", diz. 

Lucia também se queixa do trecho próximo ao Instituto Tomie Ohtake, próximo de onde sofreu as tentativas de roubo. "O mato é alto e a iluminação é fraca. As soluções para resolver o problema são simples", diz.

Gerente de uma loja e oficina de bicicletas na Avenida Faria Lima, Tomás Gumiel conta que no verão, com o bairro cheio de frequentadores nos bares de Pinheiros, os casos se multiplicaram e chamaram atenção. "Mulher e senhor acabam sendo as vítimas mais buscadas. Esses grupos de ladrões procuram primeiro as bicicletas elétricas. É o foco deles. Depois roubam as bicicletas tradicionais e tiram os usuários de cima dos patinetes", conta.

Além das abordagens na própria ciclovia da Faria Lima, o Largo da Batata também tem registrado casos de furtos de bicicletas estacionadas, quando os ladrões quebram os cadeados e levam os veículos. Procedimento semelhante ocorre com as bikes da Yellow, em que os ladrões usam pedras para quebrar as travas e destravar a bicicleta para utilizá-la. 

Há casos ainda de invasão de casas na região de Pinheiros, onde furtos têm sido registrados. Gumiel conta que a loja-oficina recebeu muitos clientes em busca de novas bicicletas com relatos de invasão a ruas tranquilas com vilas na área. 

Prefeitura promete melhorias; Secretaria diz que casos são investigados

A Prefeitura Regional de Pinheiros informou que tem trabalhado com o apoio da Polícia Militar para identificar os pontos com registros de casos de furtos e roubos na região para aumentar o efetivo policial pela Operação Delegada, sem informar números. “Mais câmeras serão instaladas, nos próximos dias, em locais avaliados como mais críticos”, informou a Prefeitura, sem detalhes sobre os pontos.

“Quanto aos arbustos e árvores que impedem a iluminação dos postes, a subprefeitura vai enviar uma equipe ao local para averiguar a situação e tomará as devidas providências. O Departamento de Iluminação (ILUME) vai acionar uma equipe para identificar a necessidade de troca de lâmpadas apagadas e outros serviços de manutenção”, disse a Prefeitura. Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, há 130 câmeras do programa City Câmeras instaladas na região de Pinheiros. A pasta não informou o número de equipamentos na ciclovia da Faria Lima.

Em nota, a SSP informou que o 14º DP (Pinheiros) investiga duas ocorrências de furtos a patinetes pertencentes a uma das empresas citadas pela reportagem. Em fevereiro, um infrator de 16 anos foi apreendido tentando furtar um patinete na avenida.

Em março, a Polícia Civil apreendeu um jovem de 15 anos por roubo a uma ciclista na Faria Lima. "Na ocasião, ele utilizou um patinete para bloquear a passagem da vítima", informou a pasta. 

No primeiro bimestre do ano, 190 suspeitos de crimes foram detidos pela Polícia Miliar na área e conduzidos à delegacia - desses, 179 foram presos ou apreendidos. "Nos casos envolvendo menores, a Vara da Infância e Juventude é devidamente acionada e comunicada sobre os fatos", disse a SSP.

Associação pede mais policiais ciclistas e que vítimas realizem cadastro para recuperação

Em nota, a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) diz que tem recebido muitos relatos de roubos e furtos de bicicleta na região da Faria Lima. "O crescimento do uso da bicicleta, além de aumentar a visibilidade, também aumenta a demanda por peças e equipamentos no mercado paralelo de peças roubadas, o que faz com que os roubos também aumentem", diz a associação.

Para a Ciclocidade, a solução passa pela amplia da política pública cicloviária e pelo aumento no uso das bicicletas na cidade. "Trabalhar e incentivar a política pública cicloviária de forma cada vez mais conectada, iluminada, bem cuidada, tende a reduzir o problema da segurança viária e urbana", defende.

A Aliança Bike, associação do setor, desde 2015 atua junto a SSP na frente da segurança pública. Para a questão específica da ciclovia da Avenida Faria Lima, a entidade defende que seja intensificada a ronda por policiais ciclistas, "assim como a investigação relativa à interceptação para desmantelar grupos e pessoas que recebem e revendem bicicletas originárias de crimes". 

"Por se tratar do eixo cicloviário de maior uso em São Paulo, é importante também algumas melhorias urbanísticas nos locais de maior concentração destes crimes, com foco na iluminação pública, no desenho viário e no uso do solo do entorno da ciclovia", defende a instituição. 

A Aliança orienta ainda que os ciclistas anotem o número de série de suas bicicletas, "que é hoje a maneira mais eficaz de recuperação de uma bicicleta roubada ou furtada por meio do cadastro público criado no site da SSP-SP", além de registrar um boletim de ocorrência. "A associação oficializou, ainda, pedido para inclusão de bicicletas elétricas no formulário dos boletins de ocorrência, permitindo maior desagregação de dados para planejamento e análise das ocorrências", afirmou a associação.

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