Roubos de celular atingem metade das ruas de São Paulo

O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 19h31
Atualizado 23 Outubro 2018 | 01h49

SÃO PAULO - Metade das ruas da cidade de São Paulo teve ao menos um roubo de celular registrado do início de 2016 até agosto deste ano. São cerca de 32 mil ruas afetadas por mais de 208 mil ocorrências de um dos crimes que atingem o morador da capital com mais frequência. Ainda que a região central tenha a maior incidência, o roubo do aparelho passou a ser considerado “democrático” por especialistas: deixou de ser característico de uma zona e hoje é notado em vias de todas as partes da cidade. 

Para pesquisar no mapa abaixo, clique na lupa, insira o endereço (com número), digite ", São Paulo" e em seguida tecle enter. Por exemplo: "Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55, São Paulo".

A disseminação desse delito ocorre em paralelo a uma estabilização do número de linhas de celular ativas no Estado, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Os locais que concentram a maioria dos crimes variam de acordo com o horário do dia, seguindo a dinâmica da cidade. Com o dia claro, as vias que aparecem no topo dos registros são as grandes avenidas que ligam os bairros à zona central. À noite, as vítimas são pedestres que circulam nos bares do centro.

 

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São números em alta. Enquanto o Estado de São Paulo registrou, no acumulado dos primeiros oito meses do ano, uma queda de 1,5% nas ocorrências, na comparação com os mesmos meses do ano passado, os registros que incluem celulares tiveram alta de 4,6% - de 154 mil ocorrências no ano passado, entre janeiro e agosto, para 161 mil neste ano. Levando em conta apenas a capital, a alta é de 6,9%.

O Estado mapeou as ocorrências registradas em 2016 e em 2017, até agosto. O dado só considera crimes com emprego de violência ou grave ameaça - furtos ficam de fora. O levantamento, inédito, foi feito com base em uma ferramenta de divulgação de boletins de ocorrência criada pela Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) ano passado. Resposta do governo a questionamentos sobre a transparência nos índices de criminalidade, ela foi lançada depois de o Estado mostrar, em março daquele ano, que o número de assassinatos na cidade era maior do que se divulgava.

Os dados levam em consideração informações concedidas pelas vítimas, que podem identificar exatamente o local do roubo quando preenchem boletim de ocorrência eletrônico ou com base em pontos de referência predeterminados pelos sistemas das polícias nas delegacias. A queixa gera um documento com dados de latitude e longitude, o que permite indicar o ponto em que o crime aconteceu. 

“Atuamos para desestimular esse tipo de crime e o nosso trabalho resulta em muitas prisões e recuperações do objeto”, diz o delegado Marco Antônio Paula Santos, seccional do centro. A secretaria usa os dados para planejar ações de policiamento.

Comportamento. Para além do que mostram os mapas com a pulverização dos crimes, há padrões em comum: da vulnerabilidade das paradas de ônibus vazias, de dia e de noite, como reclamam os moradores da região da Avenida Sapopemba, na zona leste (via de 20 km que, por seu tamanho, é a líder em registros), às recorrentes gangues que atuam de bicicleta no centro. A falta de iluminação do sol se mostra um fator a favor do crime: 6 em cada 10 roubos são à noite ou durante a madrugada. 

O publicitário Iago Damasceno, de 25 anos, já foi alvo dessa onda de crimes. A primeira vez que foi assaltado foi em uma rua da Vila Carrão, na zona leste. “Voltava do curso, no fim da tarde”, lembra. Um homem armado o dominou e pediu o aparelho. Na segunda vez, o ladrão também estava armado. “Só viu o volume do celular no bolso e me mandou entregá-lo”, conta. O rapaz estava saindo de um bar na Rua Augusta - via que, com apenas 3 km de extensão, é o segundo lugar onde mais há crimes do tipo. “Não cheguei a ver a arma, mas não quis arriscar.”

O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, diz que o Estado está diante de um tipo de crime “quase sem controle”. “O número é surpreendente porque extrapola o que a análise criminal chama de zonas quentes, as áreas de concentração da criminalidade, para se distribuir pela cidade toda. Isso aumenta o desafio de prevenção do delito.” 

Lima diz que não há como fazer ação de prevenção pontual. “Exige-se todo um planejamento que vai desde as redes de receptação, a cadeia de distribuição do material roubado, até quem compra esse produto. Ações pontuais não vão dar conta e é preciso que as polícias troquem informações para que se chegue à prisão de receptadores, o fechamento de comércios ilegais e a inibição do comércio ambulante.”

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Preste atenção

Anote o imei do seu aparelho

O imei (identidade internacional de equipamentos móveis, na sigla em inglês) é o número de identidade do seu aparelho celular. O número geralmente pode ser encontrado na caixa, mas você pode acessá-lo a qualquer momento ao digitar *#06# no teclado, pressionando o botão para fazer a ligação. Recomenda-se que o número seja anotado e guardado. 

Registre a ocorrência

As polícias destacam a importância de que todo caso de roubo de celular seja registrado em uma delegacia, gerando um boletim de ocorrência. Não é comum que o aparelho seja encontrado e devolvido ao dono, mas o registro também serve para as polícias orientarem o trabalho de prevenção e investigação em áreas da cidade com foco desses crimes. oOregistro também pode ser feito pela internet: ssp.sp.gov.br/nbo.

Antes de comprar um usado, confira a procedência

Comprar aparelho sabendo que ele é fruto de crime também configura prática criminosa de receptação, com pena de reclusão de 1 a 4 anos. Para ter certeza da procedência do produto, consulte o site da secretaria da segurança (ssp.sp.gov.br) e confira se o celular está impedido após denúncia de roubo. A consulta é feita pelo número do imei. /BRUNO RIBEIRO, MARCO ANTÔNIO CARVALHO, CECÍLIA DO LAGO, VINICIUS SUEIRO, CARLOS MARIN, DANIEL BRAMATTI, GLAUCO LARA e STEFANO WROBLESKI, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Análise: Crime democrático pede melhoria policial e colaboração popular

Diretor do Sou da Paz comenta dados de roubo de celular, pedindo melhor trabalho preventivo da PM e investigação eficaz da Polícia Civil. Ele destaca ainda a importância de a população não fomentar o crime

Ivan Marques*, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 19h31

SÃO PAULO - Os dados comprovam que o roubo se tornou um crime geograficamente democrático, deixando de ser cometido nos centros e bairros mais ricos e se espalhando por todo o território. Isso demonstra a dificuldade clara da Polícia Militar em realizar o trabalho preventivo e da Polícia Civil em conduzir investigações que levem à diminuição desse crime. Pesquisa do Sou da Paz de 2016 mostra que poucos boletins de ocorrência viram inquérito, principalmente quando são de roubo, representando cerca de 1%. 

Nesse sentido, não dá para as polícias se aterem a combater o crime somente no flagrante, nas pessoas que roubam. Os receptadores e comerciantes de material de celulares roubados devem ser alvos preferenciais se o objetivo de fato é reduzir os casos. Nessa cadeia, é importante ainda que operadoras e fabricantes participem com tecnologias efetivas de bloqueio.

Na outra ponta, há parcela de culpa da população que fomenta o crime ao comprar esses objetos sem conhecer a procedência. Há de se estranhar quando o preço do camelô é dez vezes mais barato do que na loja. Se a sociedade achar que tudo bem comprar mercadoria de origem ilegal, nunca conseguiremos reduzir as taxas. 

Por fim, num contexto de criminalidade exacerbada, cuidados são necessários para não perder o aparelho, mas é estarrecedor ter de sugerir que não se utilize o celular na rua. Se as pessoas não puderem usar o aparelho no que ele tem de melhor – a mobilidade –, voltaremos 20 anos no tempo e poderemos sugerir que usem telefone de linha.

*É DIRETOR EXECUTIVO DO INSTITUTO SOU DA PAZ

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Bruno Ribeiro, Marco Antônio Carvalho e Cecília do Lago, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 19h32

SÃO PAULO - O analista Victor de Carvalho Lourenço, de 24 anos, trabalha na Alameda Eduardo Prado, nos Campos Elísios, e cansou de testemunhar casos de roubo de celular de forma quase idêntica nas ruas cheias do centro da capital paulista: de bicicleta, ladrões escolhem a vítima e, com tapas, arrancam o aparelho da mão delas, que geralmente andavam distraídas – justamente olhando para a tela do aparelho. Mas a recorrência não evitou que o próprio Lourenço virasse parte da estatística. Aliás, não virou: resolveu não registrar o caso na polícia: “Não fiz porque não serve para nada”, argumenta.

Há três meses, ele chegava ao trabalho quando o iPhone 6S foi tomado da sua mão por uma dupla que não conseguiu identificar. “Sempre via muitos casos acontecendo e pensava que nunca ia me afetar.” O aparelho custa mais de R$ 2 mil, mas o prejuízo não fez com que ele mudasse seu hábito de falar e mandar mensagens enquanto anda. “Continuo falando da mesma maneira, mas agora estou mais atento e seguro o celular com força e com a mão toda. Mas não vou ficar me policiando. Tenho o direito de usar.”

O padrão das bicicletas, no entanto, não é uma regra. Em plena Avenida Paulista, próximo da esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o estudante Azaf Valadeiros, de 25 anos, foi surpreendido, há dois meses, por um homem que, de moto e arma em punho, lhe exigiu o aparelho. “Já tinha seguro. Agora, fiz outro”, conta. O crime aconteceu pela manhã. O seguro para telefone de R$ 4 mil saiu por R$ 1,5 mil. E ele registrou o caso. A incidência dos casos no centro se destaca ao se comparar o tamanho da Rua Augusta e da Avenida Paulista – respectivamente segundo e terceiro lugar no ranking das vias com mais registro. Juntas, elas têm 15 km de extensão. Todas as demais ruas com mais registro são grandes avenidas que ligam o centro à periferia.

Para pesquisar no mapa abaixo, clique na lupa, insira o endereço (com número), digite ", São Paulo" e em seguida tecle enter. Por exemplo: "Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55, São Paulo".

Periferia. Na zona leste, o comerciante Nelson Araújo de Lima, de 57 anos, destaca a falta de atenção da população com o aparelho. Na Avenida Sapopemba, ele vende espetinhos ao lado de uma das paradas de ônibus mais visadas da região, segundo o levantamento do Estado. O carrinho, com cinco lâmpadas incandescentes, ajuda a iluminar o ponto. Ele diz saber de seu poder de proteção. “A gente ajuda o pessoal, né? Fica até mais tarde e sempre está atento. Mas tem gente que fica com o celularzão na mão e aí não tem jeito”, diz, antecedendo a ponderação. “Só que também é chato, né? Você tem um negócio que é seu e não pode usar.”

Na periferia, segundo os relatos ouvidos pela reportagem, as pessoas que ou acordam cedo ou voltam muito tarde, e esperam pelo transporte no escuro, são os maiores alvos. “O problema aqui eu vou dizer qual é: as meninas vacilam muito, ficam no ‘zap’ e daí os caras só dão o bote”, diz o segurança José Wellington Araújo de Lima, de 47 anos, que trabalha como segurança para comércios da Sapopemba há 15 anos. Numa noite quente de terça-feira no fim de agosto, também teve o aparelho roubado.

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Bruno Ribeiro, Marco Antônio Carvalho e Cecília do Lago, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 19h32

SÃO PAULO - As Polícias Civil e Militar destacam mudanças no patrulhamento das regiões mais visadas pelos criminosos e ações de inteligência para frear os índices de roubo de telefones celulares – em especial, a ferramenta que permite bloquear telefones roubados, inutilizando aparelhos que poderiam ser revendidos.

A ferramenta exige que a vítima forneça o código Imei do telefone – uma numeração única de cada aparelho. Segundo o delegado Luiz Fernando Ortiz, da Divisão de Tecnologia da Polícia Civil, todos os códigos colhidos pela secretaria são enviados para uma “blacklist” mantida pelas operadoras de telefonia. “Informamos o código e as operadoras fazem o bloqueio”, explica. Em 2017, 229,1 mil códigos foram enviados. No ano passado haviam sido 296,1 mil.

O capitão da Polícia Militar Rodrigo Cabral, da Comunicação Social da corporação, afirma que, mais do que bloquear o aparelho, esses códigos permitem que, nas ruas, os policiais identifiquem se um aparelho é roubado. “Nas viaturas, é possível consultar se o Imei está bloqueado. Se estiver, significa que o aparelho foi roubado e a pessoa que está com ele é levada à delegacia, e pode responder pelo crime de receptação”, diz.

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Cabral destaca o aumento de 14% nos flagrantes de receptação de celulares – foram 2.520 entre janeiro e agosto de 2016, ante 2.864 neste ano –, mas reforça que a polícia precisa da ajuda da população. “No celular, o cidadão fica alheio ao ambiente que o cerca”, o que facilitaria a ação dos criminosos.

Patrulhamento. Cabral afirma ainda que a PM vem adotando estratégias diferenciadas para o patrulhamento, de acordo com cada região. “No centro, com muita gente, calçadão, temos buscado aumentar o patrulhamento com bicicletas”, afirma. “Nos bairros em que há problemas nos pontos de ônibus, há equipes da Rocam (com motos) que passaram a iniciar o patrulhamento às 4 horas, ainda no fim da madrugada”, diz. 

O delegado seccional do centro da capital, Marco Antônio Paula Santos, ressalta que o combate passa pela atuação contra os receptadores. “É uma investigação simples, mas não existe organização criminosa por trás, é um crime plenamente desorganizado.” 

Santos afirma atuar em feiras do centro, tradicionais pontos de revenda ilegal, mas reclama da legislação. “A receptação é entendida pelo Judiciário como um crime menos danoso e tem o apenamento menor. Ninguém vai para a cadeia por isso. E adivinha para onde eles voltam?”

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