SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Roubo a celular na Paulista dobra aos domingos

Multidão distraída na avenida fechada para carros atrai criminosos; Secretaria da Segurança Pública diz que reorientou patrulhamento

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2016 | 05h00

SÃO PAULO - O total de celulares roubados e furtados aos domingos no primeiro ano do programa Paulista Aberta praticamente dobrou. Desde que a via passou a ser fechada para carros e aberta para pedestres, em outubro de 2015, a cada domingo são registrados, em média, 17 boletins de ocorrência por furto ou roubo de celular. Antes do programa, entre outubro de 2014 e setembro de 2015, a média era de 9. 

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que intensificou o policiamento após a criação do programa, mas não informou o número de policiais a mais. Moradores e trabalhadores relatam sensação crescente de insegurança. 

Dados da SSP obtidos pelo Estado, via Lei de Acesso à Informação, mostram que entre outubro de 2015 – início oficial do programa – e setembro deste ano foram registrados 2.879 boletins de ocorrência por furtos e roubos a celular. Um terço dos casos foi aos domingos, quando a via passou a ser ocupada por maior número de pessoas a pé. Já no período anterior, de outubro de 2014 a setembro de 2015, houve 1.817 registros. 

Nos 52 domingos de Paulista aberta, ladrões levaram 884 telefones, avanço de 82% na comparação com 2015. Essa taxa é superior ao aumento total de furtos e roubos na capital (3,3%). 

Os protestos pró-impeachment dos dias 15 de março e 12 de abril, registraram, juntos, 255 furtos e roubos de celulares. O domingo da Parada do Orgulho LGBT (7 de junho) foi o líder de boletins de ocorrência (378) por telefones roubados ou furtados em 2016. O número é o triplo dos casos registrados no evento em 2014, com 103 boletins. 

Para a administradora de 13 prédios residenciais e comerciais na região, a advogada Raphaela Galletti, de 58 anos, a multidão distraída aos domingos na Paulista se tornou um “chamariz para os ladrões”. 

Moradora de um edifício na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio, Raphaela criou uma estratégia para não entrar nas estatísticas de criminalidade na Paulista. Se precisa sair de casa, não leva bolsa, celular ou carteira. Enfia cartões e dinheiro nos bolsos e atravessa atenta a avenida.

“A abertura aos domingos modificou todo o meio urbano. Tem aglomeração, gente passeando com vontade de lazer, sem estar prestando atenção”, diz Raphaela, que se queixa de falta de policiamento na via. 

Entorno. O presidente do Conselho de Segurança (Conseg) da Bela Vista, Luciano Martins, afirma que os ladrões assaltam pedestres na Paulista e fogem para vias transversais de bairros, como a Bela Vista. 

A proporção de aumento da criminalidade com foco no celular aos domingos supera o crescimento de segunda a sábado (50%). Mesmo assim, relatos de roubo e furto de celular por pessoas de bicicleta são comuns em dias de semana. 

O auditor Felipe Moreira, de 24 anos, mora a uma quadra da avenida e, por ter o celular furtado em uma quinta-feira do mês passado, redobrou o cuidado. “Aos domingos, fico especialmente alerta”, afirma. 

O empresário Henrique Coelho, de 25 anos, também evita o local no fim de semana após ter fugido de ao menos três tentativas de assalto durante a semana. “Não costumo ir aos domingos justamente pelo acúmulo de gente. O perigo aumenta”.

Poder público. O Estado apurou que a Prefeitura e a Polícia Militar não têm parceria de combate a crimes na via. Questionada sobre isso, a gestão municipal não respondeu. Disse ainda que as ações da GCM foram intensificadas “no limite de suas atribuições”, sem dizer o total de homens a mais.

A SSP disse que o policiamento feito pelo 11.º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano “foi reorientado, especialmente aos domingos” pelo aumento do fluxo, “o que causa mais demanda de patrulhamento”. O local conta com base 24 horas por dia na frente do Parque Trianon, “além de equipes em motocicletas e bicicletas, radiopatrulhamento, agentes destacados para a Atividade Delegada e policiais à paisana”. 

De janeiro a agosto, mais de 53 mil pessoas foram abordadas na via. Foram 503 ocorrências em flagrante, 15 armas apreendidas e 27 infratores recapturados, diz a SSP. Neste ano, a via ainda teve 104 manifestações, além de eventos como réveillon e Parada do Orgulho LGBT. 

Três perguntas para Guaracy Mingardi, cientista político e especialista em Segurança Pública

1. O que explica o boom de furtos e roubos a celulares aos domingos na Paulista?

Só tem roubo se existe mercado, o receptador. Um ladrão não rouba para ficar com o objeto. É a mesma coisa com roubo de veículos. Enquanto não for feito trabalho de investigação sobre receptação, não adianta. A avenida é local de passeio de classe média com celular bom. E ladrão quer o melhor. 

2. Como avalia o policiamento na Paulista aos domingos?

A PM não está fazendo tudo o que devia. Não tem número suficiente de policiais aos domingos. Parte desse policiamento a Prefeitura também poderia fazer. Se colocar guardas municipais caminhando pela avenida, já inibe.

3. A SSP tem um trailer 24 horas no Parque Trianon. É suficiente?

Não adianta. O policial que está lá dentro não pode sair porque tem instrução de não abandonar. Ter um trailer significa que foi tirado mais policiamento da rua. O ladrão não vai pular no colo da polícia. Precisa ficar um destacamento nas ruas transversais e outro na Paulista.

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