Rosane Ghedin, a freira executiva

Diretora da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina, ela administra um orçamento de quase R$ 700 milhões

Valéria França, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Frágil. Essa é a primeira palavra que vem à mente quando a irmã Rosane Ghedin, de 41 anos, surge no corredor da Escola de Música Tom Jobim, no centro de São Paulo. Ela chega às 8h30,um pouco atrasada, acompanhada de um assessor engravatado. Está de hábito, meia calça transparente e mocassim preto. Como acessório, usa apenas um crucifixo no peito e um iPhone na mão - que não para de tocar e piscar mensagens. Exemplo de sucesso em gestão de recursos públicos, na direção há cinco anos da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina, ela administra quase R$ 700 milhões entre verbas de hospitais, contratos e projetos na área da saúde e da cultura.

Rosane não é nada frágil. Mora com 32 irmãs numa casa anexa ao hospital da irmandade em Itaquera, um dos quatro centros de saúde que administra na zona leste. "São freiras médicas e enfermeiras", conta a religiosa formada em Administração Hospitalar pela Fundação Getúlio Vargas em 1998. "As irmãs marcelinas acreditam que a formação superior é importante no aprimoramento dos serviços prestados."

No mês passado, ela foi homenageada pela GV. "Poucas pessoas conseguem em 12 anos fazer uma carreira como Rosane. Ela é um exemplo de sucesso", diz Marcus Vinicius Fittipaldi, na época professor de Finanças e hoje coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e Sistemas de Saúde. "Quando subiu ao palco para receber a homenagem, ela fez uma palestra. Foi imensamente aplaudida."

Rosane nasceu em Boa Vista, no interior do Paraná. Neta de italianos, cresceu no meio de sete irmãos e foi a única da família a optar pela vida religiosa. Entrou para o convento aos 15 anos. "No início, meus pais não aceitaram a escolha. Como sempre fizeram muitos trabalhos sociais na cidade, achavam que para isso não era preciso vestir um hábito." Além disso, a adolescente levava uma vida social normal. Tinha amigos, frequentava festas e jogava vôlei.

Rosane ainda joga vôlei, às vezes de hábito mesmo, "quando não dá muito tempo de trocar a roupa". "As vestes não são obrigatórias, mas acho bom usá-las. As roupas normais despertam a vaidade. O hábito é prático e não tenho de pensar em combinar peças."

A irmã não tem muito tempo de sobra. Ela acorda às 5h45 para rezar. Toma um rápido café e segue para a Escola Tom Jobim, um dos três projetos da Secretaria da Cultura que passou a administrar desde 2008. "Ainda estamos reestruturando muita coisa. Minha presença aqui é necessária", diz a irmã. Rosane também acumulou a gestão do Projeto Guri. Começou com 20 polos na capital e hoje coordena 32, ou seja, todos da cidade, com 12 mil alunos. O Festival de Campos de Jordão também está sob sua batuta. "Nunca entendi nada de música. Meu campo sempre foi a saúde", explica Rosane, que relutou em aceitar as novas funções. Mesmo assim, a congregação achou que ela era a mais indicada para a função. "Aceitei porque são projetos que vão ao encontro de meus princípios. Acredito que a música possa revolucionar a vida dos adolescentes e de suas famílias."

Trabalho duro. Olhos azuis, cabelos brancos e uma aparência envelhecida por tanto trabalho, ela é direta e até dura na forma de tratar. "Mas passa muita confiabilidade", explica Paulo Zuben , diretor do Santa Marcelina Cultura. "Ela foi a peça-chave nas negociações com a prefeitura de Campos de Jordão." A administração municipal estava insatisfeita com o modelo do festival. "O retorno era turístico, mas não trazia benefícios diretos aos habitantes", explica Zuben. A irmã prometeu uma nova ação, com oficinas de capacitação de professores, que poderão dar cursos para formar músicos. A prefeitura acreditou. A freira cumpriu. E o Festival de Campos de Jordão cresceu. Neste ano, houve até apresentações na capital.

É a zona leste, no entanto, que mora no coração de Rosane. "Na área da cultura não há urgência. Nos hospitais, se deixo de fazer algo, pessoas morrem", diz. "A periferia tem outro problema. Aqui tudo acontece na calçada, da conversa com o amigo ao contato com as drogas." A poucos metros de sua casa, a irmã fundou a Comunidade Anawim, que surgiu espontaneamente quando ela abriu um sobrado para que fosse um centro de encontro de adolescentes da região. Teatro, festas, oficinas, bate-papo, tudo acontece ali. "A ignorância mata. Lá eles convivem, trocam experiências e aprendem." No fim da jornada de trabalho, não raro, ela passa por ali e organiza passeios ao shopping. Todas as noites a comunidade tem uma atividade diferente. Para Rosane, eles, os adolescentes, fazem parte da família.

Quando a freira finalmente chega em casa, há ainda e-mails para ler e músicas para baixar na internet. Ela mergulha nos sites de composições eruditas e religiosas. "Não me atenho só às católicas. Há músicas evangélicas muito boas." E ela não pretende aprender música? "Se sobrar um tempinho, quem sabe violão..."

Gestão na saúde

R$ 400 mi

é a verba anual dos quatro hospitais administrados pelas marcelinas. Três ficam na zona leste (Itaquera, Itaim Paulista e Tiradentes) e um em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo

2 mil

é o total de leitos hospitalares

12 mil

é o número de funcionários, chamados de colaboradores

22

é o total de contratos e convênios

Opiniões

MARCOS FITTIPALDI

PROFESSOR DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

"Ela comanda um complexo hospitalar na zona leste tão grande como o Hospital das Clínicas. Em 12 anos, construiu uma carreira como poucos conseguem."

JOÃO SAYAD

EX-SECRETÁRIO ESTADUAL DA CULTURA

"As irmãs marcelinas são conhecidas por desenvolver um bom trabalho administrativo. Mas irmã Rosane surpreende. É uma executiva e vinha de Kombi às reuniões da secretaria."

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