ED FERREIRA/ESTADAO
ED FERREIRA/ESTADAO

‘Rodízio se faz quando tem água. Não dá para esperar o esgotamento’

Presidente da ANA critica gestão da crise hídrica pelo Estado de SP e alerta que é preciso discutir retirada do Cantareira

Entrevista com

Vicente Andreu

Fabio Leite, ENVIADO ESPECIAL

11 Fevereiro 2015 | 03h00

BRASÍLIA - Um ano após o início da crise no Sistema Cantareira, o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, afirmou que “há um problema de gestão terrível” por parte do governo de São Paulo, uma vez que 22% da população ainda continua consumindo mais água hoje. Em entrevista exclusiva ao Estado, Andreu diz que os novos gestores paulistas da crise repetem o discurso do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao dizer que “é preciso atravessar o deserto de 2015”. E acha que o gatilho para o rodízio já passou.

As críticas não foram bem recebidas pelo governo do Estado. “O senhor Vicente Andreu é, no mínimo, desrespeitoso com o governo que trabalha há um ano de forma ininterrupta para garantir o abastecimento de água para a população de São Paulo”, afirmou o subsecretário de Comunicação do Estado, Marcio Aith. A Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos optou por não comentar as declarações. 


Quando o senhor tomou conhecimento da crise do Cantareira?

A crise se evidencia no começo de janeiro (de 2014) ainda durante o período chuvoso. Mas toma dimensão realmente no mês de fevereiro, quando a vazão afluente é extremamente baixa. A dimensão real da crise aparece em fevereiro. Em novembro e dezembro, havia expectativa de que houvesse reversão (do quadro). 

Mas desde agosto de 2012 as vazões estavam abaixo da média e desde maio de 2013 o sistema perde mais água do que ganha...

Em uma série de longo prazo, o comportamento de 2012 até 2014 é recorrente. Não é absolutamente inédito.

Há um ano, a Sabesp chegou a planejar rodízio de 48 horas com água e 24 horas sem, restrito ao Cantareira, mas o governo Alckmin vetou a medida. Se adotada, o cenário agora seria outro?

Não opino sobre as questões de operação da Sabesp. Desde aquela época, já se manifestavam duas visões opostas em termos de gestão da crise. A nossa, já naquela época, estabelecia uma metodologia com vistas de garantir a segurança hídrica, definir uma meta e operar o reservatório a partir dessa meta. E do outro lado havia a gestão feita pela Sabesp, que tem a lógica da menor demanda possível, mas sem olhar para suas consequências para o reservatório. E naquela época a Sabesp dizia que qualquer gota abaixo dos 27 m³/s implicaria racionamento na cidade de São Paulo. O que demonstra que: ou eles mentiram ou não conheciam exatamente o que podiam fazer, porque passado um ano eles conseguiram reduzir significativamente, sem racionamento, a retirada. Sem discutir racionamento, se as medidas que estão sendo hoje adotadas tivessem sido há um ano, a situação já seria outra.

Qual a sua definição sobre racionamento? E qual sua avaliação da sobretaxa para quem consome mais?

A Lei de Saneamento é particularmente confusa. Na minha opinião, no caso de São Paulo, e esse precedente não deve prosperar, há interpretação errada. Para mim, é absolutamente clara: o aumento de tarifa obriga a adoção de racionamento (o que o Estado nega). 

O Estado diz que a declaração de racionamento já foi feita e cita as resoluções de ANA e DAEE, restringindo o Cantareira...

O problema passa a ser de forma. Do ponto de vista da forma, não houve. Do ponto de visto do conteúdo, houve restrição. Mas se essa restrição levaria à escassez da disponibilidade, isso nunca foi assumido pelo governador, que vivia dizendo que não faltava água. Tem uma contradição também entre a declaração e o discurso do governo. Se o governador diz que não falta água, como você vai dar uma declaração de escassez. Esse problema foi mal administrado, seja pela incoerência do discurso e da situação, seja pela interpretação equivocada daquilo que está na Lei de Saneamento.

O senhor criticou muito em 2014 a falta de transparência de São Paulo na crise e foi acusado de disseminar o pânico (por falar da necessidade de um dilúvio)...

No meu caso, usei hipérboles. Tudo que foi afirmado, independentemente do tom, infelizmente, está acontecendo.

O senhor rompeu com o governo paulista durante as eleições, acusou o ex-secretário (de Recursos Hídricos) Mauro Arce de romper acordo. Mudou algo com os novos gestores paulistas?

Em relação aos atores, mudou significativamente. Institucionalmente, é a mesma relação. Do ponto de vista das pessoas que estão atuando melhorou porque até agora ninguém mentiu para ninguém. Naquele período, o problema todo foi o secretário assumir um compromisso e não cumprir (O secretário Mauro Arce sempre negou qualquer acordo).

Não há perspectiva de normalização do Cantareira?

Até a ocorrência dos eventos atuais, a série de 84 anos explicava bem os fenômenos. A série de 2014 não guarda nenhuma correlação anterior. Que o fenômeno vai acabar, não resta dúvida. Um dia acaba. Agora, quando acaba? Em 2014, o governador apostou todas as fichas de que o fenômeno acabaria no período chuvoso de 2015. Infelizmente, até agora não acabou. Qual a segurança que você tem de que ele vai acabar em 2016? Do ponto de vista do gestor, temos de trabalhar com medidas restritivas.

É possível atravessar o deserto de 2015, como disse o presidente da Sabesp (Jerson Kelman)?

Se eu souber onde é o fim do deserto, sim. A frase do Kelman leva a uma perspectiva de que basta passar por 2015. Você não sabe o que vai acontecer em 2016. Se todo mundo soubesse que ela (a crise) acaba em 2016, ficaria fácil tomar as medidas hoje. Você não sabe o fim desse deserto. Isso só reforça a visão do governador de que tem água. Acho errado passar uma medida de acomodação que não permite que a população participe desse processo. Você ter 22% das pessoas aumentando o consumo é um absurdo, um problema de gestão terrível. Atravessar o deserto de 2015 é o mesmo discursinho de 2014. 

A Sabesp planeja um gatilho para o racionamento oficial. O que você acha dessa medida?

Rodízio se faz quando você tem água. Não dá para esperar o esgotamento. Eu acredito que o índice do reservatório que vai disparar o gatilho nós já passamos por ele. Como medida de transparência acho positivo. Tecnicamente, acho insuficiente. O problema não é o nível do reservatório, mas a quantidade de água que você vai tirar dele.

O gatilho deveria vir acompanhado do quê?

De uma medida que já defendíamos em 2014, de uma retirada em função de uma meta definida de como você deseja que os reservatórios fiquem. 

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