Rodízio de caminhões prejudica reciclagem de lixo em SP

Veículos precisam de autorização especial para circular; cooperativas atrasam e perdem trabalho

Carolina Spillari, do estadao.com.br,

25 de agosto de 2008 | 16h42

Desde 1º de agosto os caminhões que fazem a coleta de lixo reciclável estão trabalhando menos. Para permanecer mais tempo nas ruas e dar conta do serviço é preciso conseguir uma autorização especial da Secretaria de Transportes. Após o requerimento a ser feito pelo site, os casos são analisados por uma junta da Companhia de Engenharia de Tráfego - CET. Enquanto a licença não sai, caminhões de pequeno porte, os Veículos Urbanos de Carga (VUCs) de lixo reciclável devem respeitar a restrição de placas do dia e o horário especial para circulação entre 10h às 16h dentro da Zona de Máxima Restrição de Circulação (ZMRC), que compreende o centro expandido da cidade. (veja mapa).     Os caminhões de lixo estão autorizados pelo decreto 49.675 de 27 de junho de 2008 a circular na região do rodízio entre 5h e 16h. Mas, para evitar multas é preciso se adequar. "Como qualquer outro veículo que é considerado exceção, é necessário se cadastrar", avisa a Secretaria Municipal de Transportes (SMT), que informou que os caminhões de coleta seletiva já estão recebendo autorizações com base no decreto. O rodízio de caminhões é mais um agravante para a atividade já restrita em São Paulo. Apenas 1% do total de resíduos recicláveis está sob a responsabilidade da rede oficial de coleta. Para a cidade mais rica do País o índice deixa a desejar, já que a média nacional é de 5%.   Apesar de procurar recolher o lixo nos intervalos do rodízio, o Núcleo Vira Lata, uma cooperativa há mais de quatro anos em atividade, já tem 22 multas a pagar. Agora os pedidos são atendidos à noite e nos finais de semana, mas em nem todos os locais isso é possível. "Nos condomínios, o material reciclável está indo para o lixo comum", lamenta o responsável pelo Núcleo, Wilson Santos. Ele alega já ter pedido a autorização especial à SMT, mas disse não ter conseguido. "Representantes da prefeitura assumiram um compromisso conosco e a CET não reconhece o cadastro", contesta. A cooperativa aguarda aprovação do Departamento de Limpeza Urbana - Limpurb para ingressar no programa de cooperativas da prefeitura desde fevereiro. O convênio dá direito a utilização de área pública ou da prefeitura destinada à triagem, além de empréstimo de caminhões e maquinário necessário.   De acordo com o Limpurb não deve haver diferenciação entre as cooperativas do programa da prefeitura e as não pertencentes, e o lixo pode ser recolhido fora do horário de rodízio, mediante autorização especial da CET. As cooperativas de lixo reciclável, que trabalham no centro expandido, podem fazer o recolhimento no mesmo horário dos caminhões que recolhem o lixo comum entre 21h e 16h, de acordo com o Limpurb.   Sem ser prioridade para a administração municipal, o lixo que poderia ser reaproveitado se acumula ainda mais nos lixões saturados. Conforme o Limpurb não há espaços disponíveis no momento para a inclusão de mais cooperativas no programa de incentivo à coleta seletiva oficial, embora o contrato permita mais 15 centrais. Hoje 15 cooperativas fazem parte do programa. Na cidade de São Paulo são mais de 150 cooperativas, a maioria delas não é oficial.   A maioria do lixo reciclado na cidade está nas mãos de iniciativa de cooperativas não regularizadas e da iniciativa privada. São 4 mil postos de entrega de lixo reciclável de empresas, entidades de bairros, organizações não-governamentais que contam o trabalho de 45 mil catadores.   Desde que começaram a vigorar as novas regras, as cooperativas alegam estar em atraso com os clientes e têm perdas com menos horas de trabalho. É o caso da Cooperação, conveniada com a prefeitura. "A população liga muito brava, desconta em cima da cooperativa, fala que não temos responsabilidade", afirma a presidente, Jacy Cardoso. Com quatro horas a menos de trabalho os prejuízos são visíveis. "Tem muita coleta, ficou bagunçado, não conseguimos fazer o serviço do dia", reclama Jacy, com trabalho atrasado de uma semana e meia.   Conscientização passou a ser a palavra de ordem na Granja Julieta. Agora a cooperativa passou a conversar sobre os doadores sobre a importância da coleta ser feita em horários alternativos, fora do rodízio. "Grandes fornecedores possibilitam que a coleta seja feita a noite", afirma a tesoureira Marcia Abadia Martins. Mas em nem todos os casos isso é possível. "Alertamos que pode haver atrasos", diz.   Em média, cada pessoa produz de lixo cerca de dez vezes o peso de seu corpo a cada ano. São Paulo produz 16 mil toneladas de lixo diárias. A iniciativa da população que separa lixo em 10% dos condomínios residenciais e comerciais torna menos pior a situação precária instalada, com pouca participação efetiva do poder público.

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