Rock de vitrine

Até a chuva parecia ter sido planejada: 5 exatos minutos de água controlada sobre as cabeças da multidão em Jacarepaguá, das 5h33 às 5h38. Mas depois ela voltaria mais forte. Parece irônico que a convidada mais ilustre de uma reunião musical no Rock in Rio tenha sido, na tarde de ontem, a contrabaixista norte-americana Esperanza Spalding, jazzista por definição, assimétrica, indomável. Irônico porque Esperanza foi achincalhada na internet há alguns meses por ter derrotado, na disputa de um Grammy, a megaestrela infanto-juvenil Justin Bieber, astro de proveta.

JOTABÊ MEDEIROS, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h00

Num mundo equilibrado numa gangorra esquizofrênica entre a devoção absoluta a um astro e a hostilidade espumante a outro, o público do Rock in Rio 2011 parece viver a vocação intermediária. Abraça a tudo e a todos com a mesma atitude com que armazena fotos no iPhone ou entra na fila para a roda-gigante ou a Tirolesa. Sem distinção. O axé maratônico se junta ao metal sinfônico, o rock de auditório do NX Zero anda de mãos dadas com o velho ídolo hippie que ia mudar o mundo. Dá até saudade do tempo das garrafadas, das reações instantâneas e balizadas pela espontaneidade.

A montanha humana que se equilibra nas costas dos amigos para aparecer num passagem de TV da Erika Mader, do Multishow, logo adiante faz fila para fazer fotos na frente do banner gigante do festival. Mais adiante, puxa pelo braço o integrante da Nação Zumbi para uma foto com o cara, e mais outra, e mais outra. É uma balada, a música geralmente é só mais um lance da mitomania social que marca a nossa época - o sorocabano que virou ídolo porque beijou Katy Perry, o sósia de Elton John contratado pela produção que subiu ao palco para 'homenagear' o ídolo.

A "shoppingcenterização" dos festivais de rock atingiram seu ápice com o Rock in Rio, curiosamente nascido no Brasil, Eldorado de contrastes que supostamente protegeria o mundo da shoppingcenterização. "Por que vocês não sabem do lixo ocidental. Não precisa medo não", dizia a canção Para Lennon e McCartney, que Milton Nascimento tentava ontem, acossado por um microfone de som muito baixo, espalhar pela Cidade do Rock, auxiliado pelo baixo elegante de Esperanza.

Se há boa música? Claro. O problema é que é preciso passar por milhares de corpos deitados na grama sintética para alcançá-la. Derrotar com os ombros os golpes de UFC dos pitboys soltos pelo parque, animados com suas camisas de times, com seus bíceps químicos.

As primeiras vaias do Rock in Rio chegaram para o grupo paulistano de pop rock NX Zero, que enfrentou momentos de tensão diante de pedidos para que o show da banda terminasse mais cedo, além de desentendimentos entre seus integrantes no Palco Mundo. Para "iluminar os caminhos", o vocalista, Di Ferrero, pediu para todo mundo acender qualquer instrumento reluzente, isqueiro ou um celular, mas mesmo isso funcionou médio. As vaias vieram, embora de uma minoria, mas bastante convicta e muitos apontavam o dedo médio para o palco.

A banda Stone Sour, novo grupo de Corey Taylor, ex-Slipknot, é um amontoado de clichês do death metal. Paradoxalmente ao som pesado (e sem novidades), a cara de redneck de Taylor, e seu cabelinho repartido ao meio, pareciam anunciar um desenho de animação dos anos 1970.

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