Wilton Junior/AE
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Rocinha: ligações ao Disque-Denúncia crescem 38 vezes

Com ajuda de informações passadas por moradores, polícia havia achado até ontem 73 fuzis e metralhadora que derruba até avião

Roberta Pennafort, RIO DE JANEIRO,

16 Novembro 2011 | 03h02

Graças a denúncias de moradores, a polícia do Rio conseguiu apreender, em três dias de ocupação nos Morros da Rocinha, do Vidigal e Chácara do Céu, na zona sul, 129 armas que eram usadas por traficantes para enfrentá-la. Só de fuzis são 73. As informações chegam pelo Disque-Denúncia, que registrou 38 vezes mais chamadas do que o normal, por bilhetes ou indicações diretas aos policiais.

Essas denúncias levaram equipes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) ontem a duas casas da Rocinha que até domingo eram usadas pelos traficantes: em uma foram encontrados 16 fuzis e uma metralhadora .30, cujo disparo derruba até aeronave, além de espingardas, pistolas, granadas e carregadores para fuzil.

Eram armas novas, algumas com a inscrição ADA (Amigos dos Amigos) e o desenho de um coelho, sinal de que pertencia ao traficante Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, preso há uma semana.

Também foram apreendidos coletes à prova de balas de uso das Forças Armadas e caixas de fogos de artifício, usados pelos bandidos para alertar para a chegada da polícia. A cocaína, apreendida em sacos pretos, ainda não havia sido pesada.

Na localidade Roupa Suja, na parte alta da Rocinha, foram encontrados dez fuzis, escondidos na laje de uma casa.

Colaboração. Os números do Disque-Denúncia revelam o espírito colaborativo da população: foram 308 ligações só no domingo e na segunda, quando o usual nesses dias da semana são quatro informes diários.

Nem todo mundo tem coragem de denunciar. Após décadas dominados pelo tráfico, os mais céticos não descartam uma reviravolta. "Moro aqui há 67 anos. (Os traficantes) Dênis, Naldo, todos passaram, mas eu fiquei", dizia uma cozinheira que prefere "não se meter com polícia".

Abusos. Moradores também temem abusos por parte dos policiais, como ocorreram em ocupações semelhantes em outras favelas cariocas. Para evitá-los, representantes das associações de moradores acompanham as revistas nas casas.

De manhã, quando um carro do Bope passava com parte do material apreendido pela movimentada Rua 2, pedestres fotografavam. "É para guardar de recordação. Dá uma sensação boa se ver livre dessas armas", justificou um comerciante de 39 anos que passou o dia na rua com a câmera na mão.

Policiais também pediam a moradores para fotografá-los empunhando fuzis dos bandidos. Em outro ponto da favela, crianças observavam o vaivém de veículos do Bope cantando a música-tema do filme Tropa de Elite, que trata do combate ao tráfico pelo batalhão.

Para o comandante do Bope, coronel René Alonso, a credibilidade da UPP como principal projeto da Secretaria da Segurança Pública faz com que moradores não enxerguem a operação policial como "mais uma". "Em nenhuma favela tivemos tanta cooperação da população quanto aqui. Não existe receita, cada comunidade é diferente."

Mas há quem acredite que a conduta da PM "só está boa porque a imprensa ainda está na favela". Era, por exemplo, o que bradava uma vendedora ontem. No domingo da ocupação, ela havia se irritado com um policial que desconfiou que o skate da filha era uma arma.

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