Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Rocinha faz sua 1ª parada gay

Evento virou programa de domingo para famílias da favela; rua principal foi decorada com balões para receber trios elétricos, drags e transformistas

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Em clima de festa, a favela da Rocinha, em São Conrado, na zona sul do Rio, promoveu sua primeira parada gay na tarde de ontem. O ato foi promovido pelas duas associações de moradores da comunidade para "combater a discriminação" e virou o programa de domingo das famílias, que ocuparam as estreitas calçadas para ver os trios elétricos e acompanhar os desfiles de drag queens e transformistas.

A Estrada da Gávea, principal via da Rocinha, foi decorada com balões coloridos e a cerveja era grátis para todo mundo. No lugar de ativistas gays, os líderes comunitários chamaram "celebridades" como a Mulher Maçã, escolhida rainha do evento.

"A festa foi um pedido da comunidade. Aqui moram muitos gays e eles mereciam um evento como esse", disse Telmo Oliveira, diretor da Associação de Moradores do Bairro Barcelos, uma das localidades da Rocinha. O presidente da entidade, Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão, reponde em liberdade a inquérito por associação para o tráfico, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Ele nega todas as acusações. Em agosto, durante o arrastão no Hotel Continental, um dos mais caros da cidade, Feijão negociou a rendição dos traficantes que invadiram o lugar.

Ele não era o único "patrocinador" da festança, que durou até a noite. "Acho maravilhoso que o Nem tenha feito isto pela gente", disse o adolescente J., de 15 anos, referindo-se a Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, um dos chefes do tráfico na Rocinha. Ao ser questionado sobre o evento, J. elogiou a diversidade. "Não me sinto nem um pouco discriminado aqui."

"Acho que aqui é meio escrachado. É mais festa que conscientização", resumiu a moradora da Gávea Renata Weber, de 29 anos. Ela subiu o morro para conferir o evento. Sua amiga Odete Fernandes, de 36 anos, que mora na Rocinha, não sentiu falta dos discursos em defesa dos direitos civis. "Estou achando tudo o máximo. Eu já fui na parada gay de Copacabana, que é mais rica. Aqui é pobre, mas está mais animado", disse.

Uma imensa bandeira com as cores do arco-íris, símbolo do movimento gay, cobria os participantes. Na concentração, cerca de 10 mil pessoas partiram para a caminhada. Os organizadores esperava reunir cerca de 30 mil na Via Ápia, parte baixa da favela, onde um palco foi montado. Veio gente até de outras cidades para prestigiar o evento.

"Mostra que a comunidade não é só violência. Alguns exageram, mas não vejo depreciação da imagem dos gays. Acho que eles reivindicam igualdade de forma legítima", opinou Luciano Neri, de 35 anos, morador de Niterói, na Região Metropolitana, que estava lá com a mulher.

Os gays da Rocinha aprovaram o evento. "Há dois anos, o preconceito era grande, mas acho que, por algum motivo, isso vem melhorando", avaliou o cabeleireiro Dhamian Alves, de 20 anos, nascido e criado na favela. O número de adolescentes gays na comunidade impressionava. Maquiados e com roupas colantes, um grupo de dez meninos faziam coreografias eróticas ao som da trilha sonora da parada gay, que ia de músicas da Xuxa até hits recentes ouvidos nas rádio.

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