Riscos do cigarro eletrônico e das avós que fumam

Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde, divulgado na última semana, orienta os países a encarar o cigarro eletrônico, que tem se tornado cada vez mais popular na Europa e nos Estados Unidos, de maneira mais próxima ao cigarro convencional: sua venda deve ser proibida para menores, a publicidade limitada e seu uso vetado em ambientes fechados.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2014 | 04h24

Hoje mais de 7 milhões de europeus usam os cigarros eletrônicos e há quase 500 fabricantes do produto (até a tradicional indústria dos cigarros já entrou nesse novo mercado bilionário), informa o correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade.

A questão é que boa parte dos países ainda não regulamentou o uso dos cigarros eletrônicos. Trocando a combustão do cigarro convencional pela vaporização da nicotina, muita gente acredita que está isenta de riscos, mas a história não é bem assim.

Mesmo em quantidades menores, a nicotina e outras substâncias potencialmente tóxicas poderiam aumentar o risco de alguns tipos de câncer e de outros problemas de saúde, até mesmo de quem está por perto da pessoa que utiliza os dispositivos.

Embora seja menos tóxico que o cigarro comum, a OMS quer provas concretas de que há segurança no produto. Outro receio é que o apelo mais moderno dos cigarros eletrônicos possa levar os jovens a querer experimentar e a procurar fumar mais os cigarros tradicionais, por isso a preocupação com a propaganda e com a liberdade de utilização em locais públicos.

Segundo dados da OMS, o uso dos eletrônicos aumentou 100% entre 2008 e 2012 e deve crescer cerca de 17 vezes até 2030. Em 2012, 7% dos moradores maiores de 15 anos da União Europeia já tinham experimentado o produto e 1% o utilizava regularmente. Em 2013, nos Estados Unidos, 47% dos fumantes e ex-fumantes já tinham experimentado o cigarro eletrônico e 4% usavam regularmente, de acordo com a agência de notícias AFP.

Na mesma semana, a American Heart Association (AHA) divulgou uma recomendação em seu jornal Circulation em que pede que o cigarro eletrônico, o método mais popular para quem quer parar de fumar nos Estados Unidos, seja visto com mais cautela por parte dos médicos e da população.

Segundo a AHA, em matéria no site da revista Time, este deveria ser o último recurso e não a primeira escolha para quem quer parar de fumar. Mais estudos e maior controle sobre o produto são pedidos da associação.

Por falar em nicotina e cigarro, outra curiosa pesquisa, publicada no American Journal of Human Biology e divulgada há duas semanas pelo jornal inglês Daily Mail, mostra que o cigarro pode continuar a trazer efeitos nocivos mesmo para os netos de mulheres que fumaram na gravidez.

Na pesquisa, os netos homens de avós que fumaram durante a gestação tenderiam a ser mais obesos na adolescência e as netas seriam mais baixas e mais magras na vida adulta. É bem conhecido o efeito que o fumo tem quando a mãe fuma durante a gestação, aumentado o risco de a criança nascer de forma prematura e com baixo peso, mas a novidade desse trabalho está em ter identificado um efeito transgeracional (que seria transmitido entre diferentes gerações de uma mesma família).

De acordo com o estudo, que avaliou cerca de 15 mil pessoas no Reino Unido, seria possível que as células dos ovários de um feto feminino em desenvolvimento fossem alteradas pelo cigarro e, no futuro, quando essa mulher já adulta fosse dar à luz, ela transmitiria eventuais alterações para filhos e filhas, mesmo que nunca tivesse fumado na vida. Essas mudanças afetariam, por exemplo, o peso, a altura e a massa corporal dos seus filhos, ou seja, netos de uma avó que fumou na gravidez.

* É psiquiatra

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