Risco é ficar dependente da tecnologia

Especialistas alertam que usuários de GPS podem achar que viver é perigoso, mas ressaltam que aparelho é útil em caso de Alzheimer

O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2013 | 02h01

As últimas gerações cresceram acostumadas a avisar os pais de onde estavam, mas esse hábito pode entrar em desuso nos próximos anos. Essa é só uma das mudanças previstas por especialistas caso o "GPS de gente" se popularize. "A pessoa acaba perdendo mecanismos mais humanizados de interação, como a simples conversa", diz a psicóloga Junia Cicivizzo. "Por que perguntar: 'Onde você foi?' O filho pode simplesmente responder: 'Ué, você já não viu?'"

Junia avalia que, em um cenário em que uma criança praticamente ganha um GPS com a primeira mamadeira, torna-se natural ter alguém vigiando os passos alheios. "Gera dependência do aparelho." Ela reconhece, no entanto, que um uso positivo do equipamento pode ser feito em idosos que sofrem de Alzheimer.

A psicanalista Márcia Ferreira chama a atenção para o impacto na sociedade. "Alimenta-se a ideia de que viver é extremamente perigoso. No extremo, a noção de limite deixa de vir da avaliação da pessoa e é dada pelo aparelho." Para ela, o uso pessoal do GPS vem da sensação de insegurança nas metrópoles.

Prevenção. Foi justamente por ter de se mudar com a família de Porto Alegre para a capital paulista que um engenheiro de 40 anos resolveu comprar dois rastreadores portáteis - um para o filho de 3 anos e outro para a filha de 8.

"São Paulo é mil vezes maior que Porto Alegre, há muitas notícias de sequestro relâmpago e uma criança pode ser facilmente persuadida", justifica ele, que pediu para não ser identificado. "Não uso o aparelho para saber o que eles estão fazendo, mas para, caso saiam do que é esperado, eu poder agir, ajudar a polícia."

O presidente da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Ricardo Cabezón, explica que os pais respondem pelos filhos e o uso do GPS não configura violação do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Cabezón defende, porém, que o aparelho seja usado com sabedoria, já que os filhos, com o passar do tempo, têm de ter seu próprio espaço. "É importante manter o diálogo e não monitorar sem que o filho saiba. Por mais que a intenção seja boa, a quebra de confiança é crítica, mais ainda na adolescência."

Sediada em Taubaté, no interior paulista, a Tecnologia GPS é uma das empresas que diz já estar vendendo mais o seu PP 35 para uso em gente. "O uso por órgãos de investigação e de segurança pública responde por 55% do mercado, empresas de logística de cargas valiosas por 30% e, agora, o uso pessoal por 15%", conta Pedro Luiz Pereira da Silva, diretor da empresa. "Lançamos nosso produto (GTU 10) em dezembro e a procura tem sido boa tanto para uso em pessoas quanto em animais", diz Cesar Arriaga, dono da GPS Brasil, autorizada da gigante americana Garmin.

Na coleira. Nem os bichos escapam dos GPSs. Muitos agora também já andam com o penduricalho na coleira, além da identificação. A ideia é ter à mão um mecanismo eficiente em caso de fuga, perda ou roubo.

O vira-lata Güido é cuidado a distância pelo dono, Rodrigo Volponi, de 34 anos, fundador do site Club do Dog, sempre que está na creche, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. "Fico super contente de ver que ele está dando o 'rolê' dele na (Avenida) Sumaré, enquanto eu estou trabalhando."

O empresário Marcelo Barros, de 38 anos, tem um rastreador para o golden retriever Billy e planeja comprar outro para a vira-lata Pretinha. "Em uma fuga do Billy, foi possível encontrá-lo em dez minutos. Em uma da Pretinha, foram 5 horas de puro desespero." O preço do aparelho para animais é o mesmo de um dos usados em humanos. O Sys Pet GPS, de fabricação nacional, sai por R$ 499, mais anuidade de R$ 238. / DENIZE GUEDES

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