Epitácio Pessoa/Estadão
Sem solução. Victor se mudou para o interior para fugir da violência, mas não escapou de um assalto ao visitar os parentes: ‘No susto, fiquei sem ação’ Epitácio Pessoa/Estadão

Risco de ser assaltado é 4 vezes maior na capital paulista que no interior

Estudo do Instituto Sou da Paz comparou índice de exposição a crimes em diferentes regiões do Estado; indicador de roubos é de 23,4 na cidade de São Paulo, ante 5,3 no interior. Taxa geral de violência recuou este ano, na comparação com 2017

O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 03h00

Na capital, o risco de ser assaltado é quatro vezes maior que no interior paulista. Essa conclusão faz parte de um relatório do Instituto Sou da Paz, divulgado em parceria com o Estado, que aponta a cidade de São Paulo no topo do ranking de exposição a crimes patrimoniais violentos, como roubos, bem acima das outras regiões.

Elaborado pelo Sou da Paz, o Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV) mede o risco nas cidades e permite comparações. Para o índice geral, é feita uma média ponderada, com base em taxas de homicídios e latrocínios (IECV Vida), estupros (IECV Dignidade Sexual) e roubos, roubos de veículo e de carga (IECV Patrimônio).

Embora em tendência de queda, o IECV Patrimônio da capital ficou em 23,4 neste primeiro semestre - mais do que o quádruplo do registrado no interior (5,3). O resultado da cidade melhora em relação à Grande São Paulo, mas ainda assim representa o dobro de risco. 

Se o IECV de uma cidade for zero, não significa que não houve ocorrência de crime no período, e sim que ela obteve a menor taxa entre as regiões. “Quanto maior o índice, maior a exposição à violência”, explica Stephanie Morin, gerente de pesquisas do Sou da Paz.

A razão para essa disparidade entre capital e interior, diz ela, pode estar ligada à densidade populacional e à concentração de renda na cidade de São Paulo. Por serem mais comuns, os crimes contra o patrimônio tendem a ter mais impacto na sensação de segurança.

O professor universitário Emerson Boscariol Victor, de 45 anos, mudou-se de São Paulo para Sorocaba, no interior, em busca de uma vida com menos riscos, mas não escapou da violência. Seus pais continuam morando em São Paulo e, em uma das viagens à capital, no ano passado, Victor sofreu um assalto na Vila Mariana, zona sul. 

“Estava parado no semáforo e um rapaz chegou do nada, anunciando o assalto. Estava com a mão embaixo da camisa, como se tivesse uma arma. Pediu o celular e a carteira. Eu estava com o celular entre as pernas e entreguei para ele, mas, como demorava para achar a carteira, ele ameaçou atirar.” Em Sorocaba, nunca foi assaltado. “Não digo que não tem violência, mas nem se compara.”

Trauma parecido passou Adriana Costa, moradora do Jabaquara, na zona sul. O último assalto que sofreu foi em abril. Assaltantes armados fecharam o carro em que ela estava com o marido e a irmã e levaram todos os pertences. "Um vizinho da nossa rua ainda tentou ajudar e bateu no carro deles, os assaltantes atiraram, não acertaram em ninguém e saíram correndo. Foi horrível e violento", conta. 

A partir desse dia, a gerente de projetos afirma conviver com o medo de novos assaltos: "Ao entrar no veículo, eu e meu marido tiramos aliança, relógio e escondemos celulares e carteira. Agora também temos dois celulares antigos de backup caso o ladrão leve."

Considerando a média do Estado, o IECV Patrimônio ficou em 7 - menos do que o registrado no primeiro semestre de 2017, quando estava em 8,6. O número total de roubos caiu 15% de janeiro a junho no Estado, mas o patamar é considerado alto. Foram 136.974 ocorrências - mais de 30 casos por hora.

Entre as regiões, o interior conseguiu o melhor resultado, reduzindo em 24% esse tipo de delito. Na capital, a queda foi de 12%, mas apenas dez delegacias concentram um quarto das ocorrências. Já o IECV geral, composto pelos três subíndices, recuou em todas as regiões (de 20 para 19,4) - redução puxada pela queda de 12% da letalidade violenta. Na prática, significa que os paulistas estão menos expostos a riscos gerais.

Vulnerabilidade

Pela primeira vez, o Sou da Paz analisou a relação entre a violência e o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), um indicador com base em rendimento médio domiciliar, nível de escolaridade e outros dados sociais. “Percebemos uma relação positiva entre os indicadores. Quanto maior a proporção de pessoas em baixa vulnerabilidade, maior a exposição à violência”, diz Stephanie. 

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que trabalha “incessantemente no combate aos crimes” e 113.871 pessoas foram presas no primeiro semestre. “Diversas políticas públicas de segurança vêm sendo implementadas para que São Paulo apresentasse a menor taxa de homicídios do País, 7,54 casos para cada 100 mil habitantes em 2017.” 

"O estudo do Instituto Sou da Paz mostra que entre os primeiros semestres de 2017 e 2018 o Índice de Exposições a Crimes Violentos (IECV) geral recuou em todas as regiões do Estado de São Paulo, como por exemplo, 10% nos casos de homicídios, 33,5% nos latrocínios, 15% nos roubos e 17,3% nos roubos de veículos", diz a SSP.  / FELIPE RESK, JOSÉ MARIA TOMAZELA, JÉSSICA PETROVNA e LARISSA ZAPATA, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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Perfil de estupro muda de acordo com região de SP, mostra estudo

Áreas com maior risco para esse tipo de crime no interior são Ibiúna e Itanhaém

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2018 | 03h00

Entre os indicadores, o IECV Dignidade Sexual é o único que piorou no Estado inteiro. Após analisar a dinâmica do crime nas áreas com pior resultado, o Sou da Paz concluiu que o perfil de estupros varia de acordo com a região e, por isso, cada uma demanda políticas de segurança específicas. 

Segundo o relatório, as áreas com maior risco de estupro no interior são Ibiúna e Itanhaém. Na capital, o destaque negativo é das regiões da Consolação (4.º Distrito Policial) e Pari (12.º DP), ambas no centro. 

Ao analisar os boletins de ocorrência registrados no primeiro semestre, o Sou da Paz constatou que 86% das vítimas em Ibiúna tinham até 15 anos. Em Itanhaém, o índice foi de 60%. Nesses casos, os crimes eram cometidos, na maioria das vezes, por pessoas próximas do círculo pessoal, como parentes, vizinhos ou amigos.

Já na capital o cenário se inverte: 25% das vítimas na Consolação e 27% no Pari faziam parte dessa faixa etária. Também era maior o porcentual de crimes cometidos fora do ambiente doméstico. “Os casos de violência sexual praticados por pessoas que as vítimas não conheciam previamente foram muito mais representativos, chegando a 50% no 4.º DP (Consolação)”, diz o relatório. Na Consolação, um quarto dos estupros aconteceu em vias públicas e outros 42% em espaços privados que não eram residências.

Em nota, a SSP reconhece não existir um padrão nesse tipo de crime, mas diz que “a análise do histórico acrescenta pouca possibilidade no tocante à prevenção pela presença”. Segundo a pasta, 85% dos estupros no Estado ocorrem em locais “fora da competência de atuação preventiva da polícia, sendo 65% no interior de residências”. “E São Paulo é pioneiro no combate à violência doméstica, contando com 133 Delegacias da Mulher.” 

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