Rio terá Boni, fé e ecologia na 1ª noite

Gigantes do carnaval, como Mangueira e Beija-Flor, desfilam hoje na sequência de escolas que nunca foram campeãs, como São Clemente e Grande Rio

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

02 Março 2014 | 02h05

Os desfiles das grandes escolas de samba do Rio começam hoje numa noite heterogênea: as três primeiras agremiações, Império da Tijuca, Grande Rio e São Clemente, nunca foram campeãs no Grupo Especial e não têm grande torcida. As três que se seguem são gigantes do carnaval, e levam consigo boa parte das arquibancadas: Mangueira, com 17 campeonatos, Salgueiro, com nove, e Beija-Flor, atual líder do ranking da Liga das Escolas, com 12 - metade disso no século 21.

A Beija-Flor tenta mais um campeonato com um enredo-tributo ao diretor de televisão José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e, a partir dele, conta a história da comunicação humana. A linha do tempo vai dos primórdios da escrita à internet rápida. "Pouco luxo e muita tecnologia", nas palavras de Boni, ativo no barracão, será a marca da escola da Baixada Fluminense. Alegorias enormes - o abre-alas, que representa o desenvolvimento da escrita cuneiforme, tem 60 metros de comprimento - e muitos recursos tecnológicos prometem impressionar a plateia.

A interatividade será uma marca: a reação do público será filmada e transmitida em telões no último carro. "Acho que isso nunca foi feito antes na Sapucaí", arrisca Fran-Sérgio Oliveira, da comissão organizadora. Em se tratando de um personagem sem apelo popular, a escola quis fugir do enredo puramente biográfico. Artistas amigos do diretor, como Tarcísio Meira, Regina Duarte e Faustão, foram convidados para homenageá-lo.

Crença. Fé e ecologia vão se misturar no enredo do Salgueiro: Gaia - A vida em nossas mãos. A criação do mundo é contada pela agremiação a partir dos quatro clássicos elementos naturais: terra, fogo, água e ar. Os orixás associados a eles terão destaque no desfile. Tudo começa na África, para passear pelos outros continentes, seus signos, fauna e flora, e terminar numa convocação pela preservação do meio ambiente.

As festas mais populares do País foram escolhidas para colorir a Mangueira. Os integrantes vão acrescentar ao samba os passos das quadrilhas de São João. Boi-bumbá, parada gay, festa de Iemanjá, festa da uva, festejos religiosos e o réveillon carioca compõem a "festança brasileira" idealizada pela carnavalesca Rosa Magalhães. Há 43 anos no carnaval, Rosa não teme se repetir. "Cada ano tem um enfoque, nem lembro o que fiz antes."

Sonho. A noite será aberta por uma sobrevivente. Por causa de dívidas pesadas, a Império da Tijuca quase se extinguiu. Em 2013, no entanto, com um enredo de temática negra, a agremiação, fundada em 1940, conseguiu realizar o sonho de voltar ao Grupo Especial, passados 17 anos na segunda divisão. A escola agora retorna a este universo. Batuk fala da religiosidade e dos ritmos da África trazidos pelos escravos ao Brasil no século 16, e aqui tornados bem brasileiros.

Em busca da felicidade, a São Clemente mostrará a formação da primeira favela, onde hoje é o Morro da Providência, no centro da capital fluminense, que foi ocupada por soldados da Guerra de Canudos ao fim do conflito, em 1897.

Com o único patrocínio declarado deste ano, a Grande Rio recebeu R$ 4,5 milhões da prefeitura de Maricá, a cidade-tema. A cantora Maysa (1936-1977), que antes de morrer declarou só ter sido feliz em Maricá, será reverenciada.

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