Rio será 1ª cidade a adotar plano federal contra o crack

Delegada de Combate às Drogas recém-nomeada já participa de reuniões e diz que 'usuário não é problema de polícia'

FELIPE WERNECK / RIO, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2012 | 03h02

"Usuário de crack não é problema de polícia. É um problema de saúde e assistência", diz a delegada Valeria de Aragão Sádio, de 35 anos, a nova titular da Delegacia de Combate às Drogas do Rio.

Valeria participou de todas as 63 operações realizadas em cracolândias do Rio desde março de 2011, quando assumiu a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. As ações, em conjunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Polícia Militar, resultaram no recolhimento de 3.195 pessoas. Desse total, 475 eram crianças ou adolescentes e 104 foram internadas de maneira involuntária.

"Eles não são retirados de suas casas. São retirados das ruas, quando não há parentes por perto e depois que uma equipe médica avalia o grau de dependência química. Não é uma decisão da delegada ou do secretário", diz Valeria. Ela afirma que em nenhuma das operações houve tiro. "Nem de borracha."

No dia 10 de agosto, em uma operação, a delegada se feriu com a agulha de um usuário e precisou tomar coquetel antiaids. "No dia seguinte, estava em outra operação - mesmo vomitando, porque esse coquetel é barra-pesada. Só vou ter alta em fevereiro. Quem trabalha com usuário de crack está sujeito a isso. Ser xingado, agredido, se ferir. Tem de ser vocacionado. É um tema pelo qual me apaixonei."

Antes mesmo de assumir o novo gabinete, ela participou de duas reuniões com representantes do governo federal para dar início no Estado ao Plano de Enfrentamento ao Uso do Crack, anunciado em dezembro pela presidente Dilma Rousseff.

Para a delegada, o Rio foi escolhido como piloto do programa "não só pela ambiência política favorável". "Há a afinidade entre os governos, mas também por estarmos combatendo seriamente o crack, já fazendo coisas que o plano prevê, como a integração entre órgãos de esferas distintas e a questão do abrigamento involuntário para tratamento."

No dia 28 de dezembro, equipes do governo federal acompanharam uma operação. "Ninguém gostaria que fosse involuntária (a internação), mas em alguns casos não tem jeito."

Questionada sobre a atuação da PM em São Paulo, a delegada desconversa. Segundo ela, já estão em curso no Rio ações de inteligência e articulações entre as Polícias Civil e Federal. Também teve início a seleção de profissionais de saúde e o levantamento das estruturas disponíveis para abrigar usuários e cursos de capacitação.

O plano nacional prevê três eixos: prevenção, cuidado e autoridade. "A polícia vai atuar no eixo da autoridade, sempre com ações articuladas. É bom não ir sozinho, porque um órgão cuida do outro para que não haja nenhum prejuízo aos direitos humanos", diz a policial.

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