Marcos de Paula/AE
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Rio: Prefeitura quer desapropriar imóveis do Largo do Boticário

Disputa com a dona de quatro casas degradadas é antiga; ela alega que não teve ajuda para [br]manter o patrimônio

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2011 | 00h00

A antiga placa de bronze no centro do bucólico e mal conservado Largo do Boticário, no Cosme Velho, zona sul do Rio, traz um alerta: "Vós que morais neste recanto, sob a bênção da água e do silêncio, lembrai-vos que de vós depende o encanto daqui". Dona de quatro casas tombadas e deterioradas no local, a filha de um dos donos do extinto jornal Correio da Manhã, Sybil Bittencourt, disputa com a prefeitura da cidade a posse dos imóveis.

A intenção da Secretaria Municipal de Cultura é desapropriar. Em 2006, o então prefeito Cesar Maia (DEM) já havia assinado um decreto com esse objetivo, mas, como nada foi feito, o documento perdeu validade.

Agora, questões jurídicas e administrativas estão sendo analisadas para a edição de um novo decreto com o mesmo fim, diz o coordenador de Conservação da Subsecretaria de Patrimônio Cultural, Paulo Vidal. "Em paralelo, vamos tentar negociar com a proprietária. Seria mais rápido", acrescenta. Segundo Vidal, já existe um projeto para o local e a prefeitura tem "todo o interesse de recuperar os espaços, sejam eles públicos ou privados".

Reclusa, Sybil não quis receber a reportagem. Um advogado informou apenas que ela não se manifestaria, sob alegação de ter o direito de apresentar seus argumentos por escrito em caso de eventual processo.

O argumento da proprietária é que se trata de uma tentativa de expropriação indevida. No passado, ela já reclamou de não ter recebido apoio da prefeitura para manter os imóveis. Ela teve seu pedido de isenção de IPTU negado - o benefício é concedido a proprietários de imóveis tombados, mas há uma série de exigências a serem cumpridas. Resultado: ela não paga o imposto.

Sybil mora na casa número 28. Faltam pedaços de reboco na fachada. O telhado está tomado por mato. Janelas de madeira parecem podres. Duas casas integradas - 20 e 22 - ficaram ocupadas por famílias sem-teto por quase dois anos. Hoje estão vazias. O grupo alegava preservar o imóvel melhor do que a dona.

Luiz Felipe Pedro, de 41 anos, mora "de favor" há 25 anos no sobrado 26, de três andares, no meio do Largo. Ele migrou de João Pessoa com os pais e começou a trabalhar para Sybil aos 16 anos. Vive no sobrado com a mulher, três filhos, o irmão, a irmã e duas sobrinhas. "Tomo conta das casas. Não deixo ter invasão e faço minha renda fora", diz Luiz Felipe, que é motorista.

Um vizinho disse que ela já tentou vender os imóveis por R$ 15 milhões e recusou uma proposta de R$ 7 milhões. "Não é a primeira vez que falam que vão desapropriar", diz Luiz Felipe. Enquanto conversa com a reportagem, três grupos de turistas tiram fotos das fachadas. "É gente de todo o planeta o tempo todo. Eles ficam encantados." Luiz Felipe reconhece que os imóveis precisam de uma reforma. "Sou um privilegiado. Vai ser triste sair daqui."

PARA LEMBRAR

O Largo do Boticário tem esse nome porque em 1831 foi morar ali o boticário Joaquim Luiz da Silva Souto. As primeiras casas, em estilo colonial, foram substituídas por residências ecléticas no fim do século 19. Desde o início do século 20, ocorreram várias mudanças. O arquiteto Lúcio Costa projetou a unificação das casas 20 e 22, transformadas em uma mansão da família Bittencourt.

Não são apenas os imóveis da família que estão mal conservados. Enferrujada, uma placa com informações turísticas está sustentada por um cabo de vassoura apoiado em uma árvore. É o aviso que a região é parte da Área de Proteção do Ambiente Cultural do Cosme Velho.

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