Rio interna à força 29 usuários de crack

Operação começou ontem de madrugada na região da Avenida Brasil e será por tempo indeterminado; via foi fechada por 1 hora para evitar acidentes

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2013 | 02h04

A prefeitura do Rio começou ontem a internar à força adultos viciados em crack. A operação ocorreu durante a madrugada, às margens da Avenida Brasil, perto da entrada das Favelas Nova Holanda e Parque União, no Complexo da Maré, zona norte. A ação mobilizou mais de 300 profissionais do município e do governo estadual e resultou no recolhimento de 91 adultos e 8 crianças e adolescentes. Desse total, 29 adultos foram internados involuntariamente e outros 30 aceitaram o tratamento.

O local se tornou a maior cracolândia da cidade após a pacificação da Favela do Jacarezinho, também na zona norte, ocorrida há cerca de quatro meses. "Esta é uma decisão que nós tomamos para salvar vidas e vamos permanecer naquela área por tempo indeterminado", disse o secretário municipal de Governo, Rodrigo Bethlem. Uma base para atendimento aos usuários está sendo instalada na área e terá equipes das Secretarias de Desenvolvimento Social e da Saúde.

Os adultos foram encaminhados para uma central de triagem montada em um abrigo no bairro de Paciência. Após passarem por avaliação de uma junta médica, os 29 internados à força - dentre eles uma grávida com diagnóstico de aids e tuberculose - foram levados a cinco hospitais.

De acordo com o subsecretário da Saúde, João Luiz Ferreira Costa, o Rio tem 40 leitos em hospitais gerais de emergência destinados à internação dos usuários com quadro grave de intoxicação aguda e abstinência. O paciente será posteriormente encaminhado para residências terapêuticas e centros de atendimento psicossocial.

Tráfego parado. Para evitar acidentes durante a operação, as quatro pistas da Avenida Brasil chegaram a ser fechadas por aproximadamente uma hora - há um mês, um garoto de 10 anos viciado em crack morreu atropelado ao fugir de agentes.

Houve correria com a chegada dos agentes e policiais ao local. Um grupo de dependentes ateou fogo em colchões e madeira. A Polícia Militar usou uma bomba de efeito moral.

Antes da operação, policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entraram nas favelas da região para inibir a ação de traficantes. Houve intensa troca de tiros e dois policiais ficaram feridos por estilhaços.

Críticas. A abordagem de usuários de crack, com a presença de PMs, foi criticada pela coordenadora do secretariado da Comissão Global sobre Política de Drogas, Ilona Szabo. "Abordagens desastradas têm destruído um trabalho mais amplo, que é com os usuários que não precisam de internação", afirmou.

O vereador Renato Cinco (PSOL) começou a recolher assinaturas para a abertura de CPI para investigar denúncias de irregularidades na internação compulsória. "A política pública para tratar dependentes químicos não pode ser internação compulsória. Essa é uma medida extrema, que tem que ser determinada por médico e autorizada pela Justiça. A prefeitura tem feito operação de higienização social disfarçada de tratamento", disse. / COLABOROU CLARISSA THOMÉ

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