Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Rio descobre no Porto obra do Brasil imperial

O Cais da Imperatriz, de 1843, apareceu depois de reforma na área; especialistas acreditam que há outra estrutura ali, mais antiga

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

02 Março 2011 | 00h00

Estruturas do antigo Cais da Imperatriz, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny em 1843, foram reveladas durante escavações feitas pela prefeitura do Rio para a instalação de novas galerias pluviais na Avenida Barão de Tefé. Construído para receber a imperatriz Teresa Cristina, o atracadouro sucumbiu às reformas urbanas que mudaram - e mais uma vez prometem mudar - a feição da zona portuária do Rio.

Por recomendação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), arqueólogos do Museu Nacional foram chamados para supervisionar as obras. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) disse que vai preservar as estruturas e integrá-las ao novo desenho urbano, criando um centro de visitação.

"Achei absolutamente fantástico. A ideia é fazer daquilo nossas ruínas romanas." O superintendente do Iphan, Carlos Fernando Andrade, solicitou ao consórcio responsável pelo projeto Porto Maravilha naquele trecho que aumente a área de escavação. "Provavelmente, há um cais mais antigo abaixo", disse ele, que foi convocado pelo prefeito para uma reunião na sexta-feira.

A arqueóloga responsável pelo trabalho no local, Tânia Andrade Lima, não quis dar entrevista, mas especialistas ouvidos pela reportagem atestaram a autenticidade e a importância histórica da construção encontrada na Barão de Tefé. A historiadora, arquiteta e urbanista Margareth da Silva Pereira, professora do programa de pós-graduação em Urbanismo da Federal do Rio (UFRJ), iniciou no sábado uma campanha, por e-mail, pedindo a ajuda de amigos e colegas na "luta pela valorização e preservação da história do Rio".

Ela citava o que chamou de "redescoberta" do Cais da Imperatriz, aterrado no início do século 20. "Até a semana passada, pensávamos que essas estruturas tivessem sido destruídas. Mas não estão!"

Escravos. Margareth defendeu uma prospecção "mais ampla" na área. O interesse maior, segundo o Iphan, é achar o Cais do Valongo, "de densidade histórica inconteste, particularmente para a trajetória da comunidade afrodescendente". Ali, desembarcavam os escravos. Para Margareth, trata-se de uma "oportunidade magnífica". "A arqueologia urbana ainda está pouco integrada aos processos de renovação da cidade, muitas vezes feitos sem atenção aos vestígios da história", disse a professora.

 

Agora, as manilhas de águas pluviais terão de ser desviadas. "Já solicitamos a alteração do desenho geométrico da pista próxima do Hospital dos Servidores para que o sítio socializado tenha maior significância. Evidentemente não podemos fazer isso com o cais inteiro, pois teríamos de inviabilizar a cidade que temos. Quanto às novas galerias, ficarão assentes sobre um trecho mínimo da estrutura do cais e, em seguida, recobertas", informou o Iphan.

A historiadora cita o projeto do arquiteto espanhol Santiago Calatrava para o Museu do Amanhã, no Píer Mauá, considerado um dos principais na reforma da zona portuária, ao defender a preservação do antigo cais, "uma relíquia". "Devemos ter ali várias camadas de história. Temos de valorizar isso."

No projeto de Montigny, o Cais da Imperatriz era precedido de uma Praça Municipal que, segundo Margareth, representa "um emblema das lutas municipalistas do século 19". "Por outro lado, é obra de grande erudição e domínio de escalas", disse ela, torcendo para que, no Rio de 2011, haja diálogo entre patrimônio e inovação.

PARA LEMBRAR

No ano passado, as obras de expansão da Linha 5-Lilás, do Metrô de São Paulo, levaram à descoberta de trilhos de bonde na área onde ficará a futura Estação Adolfo Pinheiro. Eles estavam a apenas 20 centímetros de profundidade do asfalto, ao lado do antigo pavimento de paralelepípedo. A linha de bondes, que ligava Santo Amaro à Sé, funcionou entre 1913 e 1968 e foi a última a deixar de operar na cidade. Na mesma região, foram achados frascos de remédio, peças de louça e vários outros utensílios domésticos dos séculos 18 e 19.

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