Rio derruba primeira prisão do País

Complexo Penitenciário da Frei Caneca, erguido entre 1834 e 1850, já teve detentos ilustres, como o escritor Graciliano Ramos

Alfredo Junqueira / RIO, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

A demolição do Complexo Penitenciário da Frei Caneca, no início da tarde de ontem, levou muito mais do que a primeira unidade prisional brasileira. Os 800 quilos de explosivos usados na operação também botaram abaixo o palco de alguns momentos marcantes da história política do País.

No terreno de 65 mil metros quadrados, localizado no bairro do Estácio, no centro do Rio, os governos federal e estadual prometem agora erguer 2.500 unidades habitacionais. Os últimos 70 detentos do Presídio Hélio Gomes foram transferidos anteontem para o Complexo de Gericinó. Também saíram do local alguns pacientes do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho, mas eles devem voltar após a explosão.

História. Erguida entre 1834 e 1850 por centenas de presos, a Casa de Correção da Corte ficava no que era a periferia do centro da antiga capital federal. Ao longo do Segundo Reinado (até 1889) e da 1.ª República (1889-1930), os detentos eram principalmente ex-escravos, representantes de religiões afro. "A detenção servia como uma espécie de controle disciplinar da ordem pública urbana", explicou Gizlene Neder, professora de História Política da Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A partir do primeiro governo do presidente Getúlio Vargas, o Frei Caneca passou a receber um novo perfil de detentos. Foi nesse local em que o escritor Graciliano Ramos passou parte do período em que ficou preso depois da Intentona Comunista de 1935. Os líderes do movimento, Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, também passaram por lá. Graciliano eternizou os horrores do local em seu livro Memórias do Cárcere.

Nas décadas de 1960 e 1970, os presídios que formavam o Complexo Penitenciário da Frei Caneca voltaram a ser usados para receber presos políticos que resistiam ao regime militar (1964-1985). Ex-militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), o jornalista Nelson Rodrigues Filho passou quase quatro anos no Frei Caneca. Foi no complexo que ele e seus companheiros iniciaram, em 1979, uma greve de fome que exigia anistia irrestrita para os presos políticos. O movimento durou 32 dias e saiu vitorioso. "Todos os presídios do País aderiram à greve iniciada no Frei Caneca", lembrou o jornalista.

A implosão, ontem, não alcançou os resultados esperados. Uma parte do presídio ainda ficou de pé e seria derrubada ainda ontem com máquinas.

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