Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Rio: chefe de polícia ataca aliado da PF

Após operação de agentes federais com apoio de seus subordinados, Allan Turnowski vasculha DP responsável pelas investigações

Pedro Dantas, Bruno Boghossian e Marcelo Auler, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2011 | 00h00

Três dias após a Polícia Federal prender 35 policiais no Rio, o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, contra-atacou e vasculhou a Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas (Draco), comandada por Claudio Ferraz - colaborador da PF nas investigações da Operação Guilhotina e recém-escolhido para conduzir futuras investigações contra policiais na Superintendência de Contrainteligência da Secretaria de Segurança Pública.

Após fechar o acesso à Draco com uma equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Turnowski anunciou uma "devassa". Segundo o chefe da Polícia Civil, uma carta com denúncias de "diversas irregularidades" envolvendo Ferraz havia sido deixada na portaria de sua residência no domingo.

Uma das alegações aponta que policiais da Draco teriam cobrado propina de funcionários da prefeitura de Rio das Ostras, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, para suspender a apuração de fraudes em licitações no município. Os supostos indícios do crime apresentados por Turnowski são registros duplicados da investigação: um documento de 16 de agosto de 2008 instaurava um inquérito na Draco e outro, dois dias depois, arquivava o caso.

Documentos. "A denúncia dizia que, apesar da determinação de instauração de inquérito policial no dia 16, (o procedimento) havia sido arquivado no dia 18, em razão de recebimento de valores indevidos", disse o chefe da Polícia Civil, enquanto apontava, com o indicador trêmulo, as cópias dos documentos.

Ainda de acordo com as investigações iniciais de Turnowski, apenas o documento que determina a suspensão da investigação consta no procedimento encontrado na Draco. O registro que supostamente determinaria a instauração de um inquérito teria sido confeccionado para extorquir funcionários da prefeitura. O documento que estava na delegacia está assinado por Ferraz, ao lado do carimbo com sua matrícula, e pelo inspetor Luiz Henrique Placidino.

O registro clandestino, apresentado por Turnowski, apresenta uma assinatura semelhante à de Ferraz, sem carimbo, e uma assinatura diferente de Placidino. Apesar do anúncio do chefe de polícia, ainda não foi feita uma perícia nos documentos.

A denúncia apresentada por Turnowski também cita casos de cobrança de propina por agentes da Draco durante uma operação da PF e a suspensão indevida de investigações de formação de quadrilha em Japeri, na Região Metropolitana do Rio. Ainda foram encontradas na delegacia seis armas sem registro formal de apreensão. A equipe do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, informou que ele estava analisando o caso e não se pronunciaria.

O corregedor da Polícia Civil, Gilson Emiliano Soares, confirmou que as denúncias serão investigadas, mas adotou uma postura de cautela."A circunstância do aparecimento desse registro (instaurando o inquérito), discrepando do que consta no procedimento (arquivado na delegacia), é passível de apuração", disse. "Dizer, neste momento, que houve ou não exigência de dinheiro, pode ser leviano."

Pela imprensa. O delegado titular da Draco, Claudio Ferraz, classificou como "constrangedora" a ação da Corregedoria, mas disse que não estava surpreso. "Sabia dessa investigação há alguns meses. A surpresa foi a forma como ocorreu. Fique sabendo pela imprensa", declarou.

Ferraz negou que a delegacia tenha sido fechada e disse que os acessos estavam "franqueados" à corregedoria. Ao saber das denúncias de Turnowski, ele reagiu com tranquilidade. "As pessoas que afirmaram isso (que há irregularidades) vão se apresentar e tudo será apurado." Ferraz negou qualquer rivalidade com o chefe de Polícia Civil. "Se há rivalidade, eu desconheço", afirmou.

QUEM SÃO

JOSÉ MARIANO BELTRAME

SECRETÁRIO DE SEGURANÇA

Delegado da PF, assumiu a Segurança Pública em 2007. Os primeiros meses foram marcados pela "política de enfrentamento" das facções. Após o êxito da 1ª Unidade de Polícia Pacificadora, na Favela Santa Marta, as UPPs se tornaram o carro-chefe da atual gestão.

ALLAN TURNOWSKI

CHEFE DA POLÍCIA CIVIL

Após passar por várias delegacias, foi nomeado diretor do Departamento de Polícia Especializada. Comandou operações polêmicas como a do Complexo do Alemão, em 2007, que deixou 19 mortos e suspeitas de execução. Assumiu a chefia da Polícia Civil em abril de 2009.

CLÁUDIO FERRAZ

DELEGADO TITULAR DA DRACO

Chefiou a Divisão Antissequestro e delegacias distritais até assumir a Draco e o combate às milícias, em 2007. Aos 48 anos, prendeu 676 milicianos, entre eles um deputado estadual e vereadores. Foi consultor do filme Tropa de Elite 2 e coautor do livro homônimo.

CARLOS OLIVEIRA

EX-SUBCHEFE DA POLÍCIA CIVIL

Ex-PM, ingressou na Polícia Civil como inspetor e tornou-se delegado. Dirigiu a Delegacia de Repressão às Armas e Explosivos (DRAE) desde a fundação. Acusado de vender armas a traficantes, teve a prisão preventiva decretada. Entregou-se na sexta-feira.

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