Rio: atos fecham via 32 vezes em 5 meses e comércio usa tapumes

Na Avenida Rio Branco, 29 agências bancárias e fachadas de prédios tinham proteção na última sexta-feira

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h02

Interditada 32 vezes desde junho, a Avenida Rio Branco, no centro do Rio, foi um dos principais focos de manifestações na capital fluminense. Jornaleiros, lojistas, donos de bares, bilheteiros de cinema e vendedores ambulantes da Cinelândia, epicentro dos confrontos entre manifestantes e policiais, relatam casos que ilustram mudanças na rotina da região.

Na sexta-feira, 25, vinte e nove agências bancárias e fachadas de prédios de escritórios como o Manhattan Tower estavam cobertas por tapumes de madeira ao longo da avenida centenária, símbolo da reforma urbana do prefeito Pereira Passos (1902-1906). Bancos foram o principal alvo. O presidente do Sindicato dos Lojistas do Rio, Aldo Gonçalves, reconhece que casos de lojas destruídas foram pontuais, mas avalia que o "clima de incerteza" causado pelo simples anúncio de mais uma manifestação reduz o movimento no centro e obriga comerciantes a fechar mais cedo.

O gerente da loja de calçados Di Santinni, Júlio Rodrigues, afirma que o faturamento cai cerca de 30% em dias de protesto. "Vendo R$ 5 mil a menos." Funcionários da loja já passaram mal por causa de bombas lançadas por policiais na avenida - mesmo com a porta fechada, o gás entra pelas frestas. "Como não dava para sair, mandei todo mundo para o terraço." Na Rio Branco, duas lojas foram completamente destruídas - uma da empresa Nextel e outra da companhia aérea TAP. A Nextel informou que o local está em reforma e será reaberto em 60 dias. A TAP afirma que antes da destruição já havia colocado o imóvel à venda e se mudado para outro endereço na mesma Rio Branco.

Nem na ditadura. O tradicional bar Amarelinho, fundado em 1921, que fica ao lado da Câmara, fechou três vezes durante protestos. Foi a primeira vez que isso ocorreu, diz José Soares, de 61 anos, um dos sócios. Mesas de madeira do bar foram usadas como escudo por manifestantes atacados por PMs. "Eu nunca tinha visto o Amarelinho fechar. Nem durante a ditadura isso aconteceu. Mas desta vez não teve jeito." Ele conta que precisou entrar no frigorífico do restaurante com oito funcionários para se refugiar da nuvem de gás. "Senão, a gente ia morrer aqui dentro."

Soares avalia que, se não tivesse fechado o bar, ele poderia ter sido destruído. "É triste o Amarelinho fechar, mas realmente não havia condições de trabalho. A coisa estava muito misturada. Seguramos a barra o máximo possível, mas não deu."

No concorrente Verdinho, que fica ao lado do Cine Odeon, mesas da varanda foram usadas como macas improvisadas para o atendimento de feridos por socorristas voluntários, comenta o gerente Francisco Pinto, de 50 anos. Nada foi quebrado, assim como no Amarelinho, mas ele reclama da queda das vendas em dias de manifestação. "Precisamos fechar mais cedo várias vezes porque ninguém vai ficar no meio de bombas."

Jornaleiro mais antigo da Cinelândia, há três décadas no mesmo ponto, Jorge dos Santos, de 53 anos, teve uma vitrine lateral quebrada em um dos primeiros protestos, em junho. Depois disso, fica lá tomando conta até o fim de cada manifestação. "A gente pede, explica, tem dado certo. Não sou a favor de quebrar, mas não dá mais para ficar essa sacanagem que está aí. O povo precisa mostrar a força que tem. Será que sem quebradeira iam acreditar?" Para ele, o grupo que permanece até o fim, quando geralmente começam os confrontos, é muito heterogêneo. "Não dá para botar tudo na conta desses black blocs. Tem certa rebeldia, mas tá misturado, tem muito bandidinho no meio também."

Outro jornaleiro da praça, Derisvaldo Pereira, de 54 anos, afirma ter sofrido prejuízo de R$ 1.600 com depredações. "Fico aqui pedindo para não quebrar, mas sempre tem um doido. Já tentaram botar fogo na banca e isso aqui virou uma câmara de gás com as bombas da PM. Manifestantes que me socorreram." Ele aponta usuários de crack como responsáveis por saques. "Quebrar é do protesto, mas quem rouba é cracudo." Bilheteira do Cine Odeon, Cíntia Marques, de 37 anos, já sofreu os efeitos de gases tóxicos, mas se diz assustada com a ação de um grupo de manifestantes. "O pessoal está muito exaltado." Já o camelô Bruno Ferreira, de 28 anos, afirma que nunca teve problema com manifestantes. "Não mexem com a gente." Ele reclama, porém, da queda das vendas em dias de protesto. "Normalmente tiro R$ 400 por dia. Nesses, uns R$ 200."

Manifestações não desvalorizaram pontos comerciais. O levantamento que aponta 32 fechamentos da Avenida Rio Branco desde junho foi feito pelo Centro de Operações da prefeitura. No mesmo período do ano passado foram 17. Inicialmente, a prefeitura apontava publicamente a causa das interdições, mas nos últimos meses parou de fazer isso. De acordo com o presidente do Sindicato dos Lojistas do Rio, não foi detectada desvalorização de pontos comerciais. Corretores ouvidos pela reportagem relatam que algumas empresas, principalmente estrangeiras, demonstram receio, mas avaliam que isso não teve efeito nos preços. O sindicato do mercado imobiliário (Secovi Rio) também afirma que não houve desvalorização de imóveis nos principais locais de manifestação: além do centro, principalmente Laranjeiras e Leblon, na zona sul. No centro, o metro quadrado para venda variou 1,25%.Segundo o Secovi, "ainda é cedo para avaliar o impacto no mercado".

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