Rio: 10 escolas ligadas ao bicho ou crime

Segundo MP, pelo menos 7 agremiações são controladas por bicheiros, duas têm suspeita de ligação com milicianos e uma com traficantes

ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h02

Neste ano, escolas de samba do Grupo Especial do Rio vão receber R$ 29,8 milhões, entre patrocínios e convênios com Petrobrás, governo do Estado e prefeitura. Entre as beneficiadas, pelo menos sete são controladas pelo jogo do bicho, duas têm suspeita de ligação com milicianos e uma mantém relação com traficantes.

É o que mostra inquérito civil do Ministério Público do Rio, que investiga repasses de recursos públicos para as 13 agremiações.

A investigação da 5.ª Promotoria de Defesa da Cidadania foi motivada pela falta de fiscalização adequada na aplicação dos valores e prestações de conta consideradas insuficientes.

Quatro processos já tramitam nas Varas de Fazenda Pública da Justiça do Rio questionando os repasses feitos pela Prefeitura do Rio às escolas de samba nos desfiles entre 1998 e 2009. Novas ações podem ser propostas pelo Ministério Público caso sejam constatadas irregularidades nas atuais subvenções.

Os patrocínios e convênios com dinheiro público representarão cerca de R$ 2,3 milhões para cada uma das escolas da primeira divisão do carnaval carioca. No caso da Petrobrás, com contrato de patrocínio de R$ 12 milhões, e do governo do Estado, de R$ 4,8 milhões, os recursos são repassados à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que os entrega às agremiações. As transferências de recursos pela Prefeitura do Rio representam a maior parte do montante - R$ 13 milhões.

Apesar de já ter firmado um termo de ajustamento de conduta com o MP fluminense se comprometendo a não bancar mais os desfiles, a administração municipal criou no ano passado um evento chamado "Viradão do Momo", que, na avaliação da promotoria, é uma maneira disfarçada de continuar transferindo recursos às escolas.

Cada uma delas recebe R$ 1 milhão da Prefeitura, para, oficialmente, promover shows, eventos e oficinas em suas quadras. A Liesa confirmou que vai repassar R$ 5 milhões para cada agremiação.

Além dos valores do patrocínio da Petrobrás e do convênio com o governo do Estado, o montante entregue pela Liga inclui R$ 1,3 milhão pagos para cada escola pelos direitos de transmissão da televisão, além de valores variáveis de direitos autorais, publicidade e participações proporcionais nas vendas de ingresso - que arrecadaram R$ 44 milhões em 2011.

Patrocínio. Outra fonte de renda das escolas é a eventual negociação do enredo com empresas privadas ou entes públicos interessados em patrocinar o desfile. Neste ano, por exemplo, o governo do Estado do Maranhão pagou R$ 1,5 milhão à Beija-Flor, que tem como enredo os 400 anos de São Luiz.

Os R$ 6 milhões que as escolas dispõem para os desfiles não as livram da influência do jogo do bicho. Pelo menos sete têm contraventores participando de sua administração. E problemas legais de bicheiros não são empecilho ao repasse de recursos públicos. É o caso da Beija-Flor de Nilópolis, cujo "patrono" e presidente de honra, Aniz Abraão David, o Anísio, está em prisão hospitalar, decretada a partir da Operação Dedo de Deus, da Polícia Civil do Rio, em dezembro.

O mesmo inquérito resultou no pedido de prisão dos presidentes da Imperatriz Leopoldinense, Luizinho Drummond, que está foragido, e da Grande Rio, Hélio Ribeiro, que conseguiu um habeas corpus na quinta-feira.

Prisão. Preso pela Polícia Federal em 2010, o ex-presidente da Vila Isabel e pai do atual, Wilson Vieira Alves, cumpre pena de 23 anos por contrabando, corrupção e formação de quadrilha. Rogério Andrade, que foi patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, também está foragido.

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