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Revolução de 1932: derrota militar, vitória política

Rebeldes paulistas enfrentaram as tropas federais de Getúlio Vargas, de 9 de julho a 4 de outubro; perderam nas trincheiras, mas comemoraram o sucesso de seus ideais

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Derrota militar, vitória política. Os rebeldes paulistas que enfrentaram as tropas federais de Getúlio Vargas, de 9 de julho a 4 de outubro de 1932, perderam nas trincheiras, mas puderam comemorar o sucesso de seus ideais, na luta pela liberdade e pela democracia. Foram 84 dias de enfrentamento, período em que o governo central mobilizou mais de 300 mil homens contra um contingente bem menor - cerca de 200 mil voluntários, dos quais cerca de, no máximo, 40 mil em condições de combate.

Morreram mais de mil constitucionalistas, os paulistas revolucionários que exigiam de Getúlio uma nova Constituição, segundo o historiador Hernâni Donato, falecido em 2012. O historiador Marco Antônio Villa fala em 634 mortos constitucionalistas, em seu livro 1932 - Imagens de uma Revolução. O número de vítimas entre as forças federais foi, certamente, bem mais baixo. O adido militar da Embaixada dos Estados Unidos contabilizou um total de 1050 mortos. Não existe um balanço firme e confiável.

Os primeiros paulistas a morrer foram os jovens Euclides Miragaia, Antônio de Camargo Andrade, Mário Martins de Almeida e Dráusio Marcondes de Souza. Seus nomes inspiraram a sigla MMDC, originariamente uma sociedade secreta que se transformaria no movimento responsável pela convocação de voluntários. Os quatro foram metralhados em manifestações de rua, em frente à sede do Partido Popular Paulista, braço político das Legiões Revolucionárias de Miguel Costa, preposto da ditadura.

A partir desse incidente, São Paulo achou que a luta armada era a única saída para derrubar Getúlio Vargas. Os líderes civis da Revolução, entre os quais Armando de Salles Oliveira, Julio de Mesquita Filho e Paulo Nogueira Filho, passaram a conspirar contra o regime, com apoio de outros civis e militares. O general Isidoro Dias Lopes, comandante da Revolução de 1924, quando os paulistas enfrentaram o presidente Artur Bernardes, assumiu o Comando Geral. O general Bertoldo Klinger foi nomeado chefe das operações.

O movimento deveria ser iniciado no dia 14 de julho, mas foi antecipado para o dia, por causa do risco de traição entre os conspiradores. “Às 21 horas do dia 9, já me sentia dono da situação, São Paulo estava em minhas mãos”, relatou mais tarde o coronel Euclydes Figueiredo, designado pela manhã para chefiar a revolta na Capital. O interventor Pedro de Toledo, até aí fiel a Getúlio, renunciou ao cargo e tornou-se governador constitucionalista.

Milhares de voluntários apresentaram-se para o alistamento. Depois de uma semana de treinamento militar, partiam para o campo de batalha. Mulheres ocuparam o lugar dos homens no comércio e na indústria. Trabalhavam como costureiras e alistavam-se como enfermeiras. O esforço de guerra garantiu, em poucas semanas, o pleno emprego, atraindo também operários que, influenciados pelos comunistas, resistiam a se alistar.

Criou-se uma máquina de guerra. A indústria paulista adaptou equipamentos para a fabricação de armas e munições. Os resultados do que pela urgência exigia certa improvisação foram extraordinários. Aviões, carros de combate e trens blindado reforçaram infantaria e cavalaria das forças constitucionalistas, que lutavam com fuzis antiquados. 

A desproporção de armamentos era enorme. São Paulo tinha sete pequenos aviões civis adaptados para enfrentar 24 aparelhos militares do governo. Os inexperientes pilotos paulistas despejaram panfletos de propaganda sobre o Rio, logo nos primeiros dias do conflito. Envolveram-se em combate em Cruzeiro, enquanto os federais bombardeavam Santos e Campinas, a cidade mais castigada. Bombas lançadas sobre o Campo de Marte, na Capital, não chegaram a explodir.

Para movimentar a economia, prejudicada pelo boicote federal e pelo bloqueio dos Porto de Santos pela Marinha, o governo de São Paulo emitiu bônus e moedas do Tesouro Estadual. A Revolução também imprimiu cartões postais para incentivar a correspondência dos combatentes com suas famílias. Crianças se tornaram estafetas, substituindo carteiros nos Correios.

"O Exército da lei mantém valentemente as suas posições", dizia a manchete do Estado em 29 de setembro, quatro dias antes da rendição. A propaganda procurava manter o entusiasmo constitucionalista, apesar de sucessivas derrotas. O Jornal das Trincheiras, distribuído na linha de frente, refletia o otimismo da imprensa. Nas três emissoras rebeldes só se falava de vitória. 

A propaganda do governo assumia um tom otimista para anunciar avanços das tropas legalistas. A imprensa de Getúlio descrevia a Revolução Constitucionalista como uma revolta da elite paulista. Seu líder seria o “comunista” Francisco Matarazzo, que pretenderia separar São Paulo do Brasil. O separatismo foi uma das teclas das acusações da ditadura contra os revolucionários.

"Falar em separatismo foi enorme equívoco, assim como é preconceituoso dizer que a Revolução foi iniciativa da elite paulista", afirmou  o professor Marco Antônio Villa, lembrando que houve mobilização política, que se estendeu além das fronteiras paulistas. Houve manifestações de apoio em Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Manaus. Em Itacoatiara, no Rio Amazonas, a Marinha afundou dois barcos aliados de São Paulo.

Por que as tropas federais esmagaram a Revolução, se os constitucionalistas pareciam acreditar tanto na vitória? O primeiro erro dos paulistas foi o coronel Euclydes Figueiredo não ter avançado logo para o Rio, como pretendia, mas ter estacionado em Cruzeiro, à espera do apoio dos mineiros e gaúchos e, sobretudo, da chegada do general Klinger, que prometia trazer seis dez subordinados, enquanto Rio Grande do Sul e Minas aderiam a Getúlio.

Em seu livro, o historiador Hernâni Donato afirma que houve também atos de sabotagem. Um exemplo: “Miguel Reale, que era sargento e só tinha um fuzil velho para revezar com seis companheiros na trincheira, ficou surpreso ao descobrir seis fuzis novos escondidos sob a cama num alojamento em Avaré." O depois jurista Miguel Reale era estudante quando se alistou como voluntário.

Os líderes civis protestaram quando o comando militar assinou o armistício com as tropas de Getúlio. Eles acreditavam que São Paulo ainda tinha condições de lutar. Julio de Mesquita Filho, que serviu no Estado Maior do coronel Euclydes, enquanto seus irmãos Francisco e Alfredo lutavam na linha de frente, apostou na vitória até o fim.

Presos após a derrota, os principais líderes da Revolução foram deportados para Lisboa. Eram 48 oficiais do Exército, 3 da Força Pública e 53 civis, entre os quais Julio de Mesquita Filho, seu irmão Francisco Mesquita, Armando de Salles Oliveira, Paulo Nogueira Filho, Pedro de Toledo, Antônio Mendonça e Guilherme de Almeida. Voltaram em 1933, com a anistia decretada por Getúlio.

"Entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 1932", anunciou o presidente no dia 16 de agosto, ao nomear interventor o civil e paulista Armando de Salles Oliveira, depois eleito governador pela Assembleia. Ao aceitar o cargo, ele convidou Julio de Mesquita Filho para coordenar a criação da Universidade de São Paulo, em 1934.

A USP, em grande parte, não foi pensada como reação à ditadura, mas como superação do vazio cultural que a ditadura representava e a Revolução demonstrara, observou o sociólogo e professor emérito da universidade, José de Souza Martins. ”A USP seria a imensa ponte entre a barbárie e a civilização, como de fato foi”, disse o sociólogo em entrevista ao Estado, em julho de 2012.

 

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José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

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25 de janeiro - Aniversário da cidade de São Paulo

Comício na Praça da Sé, com cerca de 200 mil pessoas, debaixo de chuva. Constitucionalistas discursam a favor da democratização e da devolução do poder político estadual aos paulistas. Ato termina com uma passeata em direção à sede do jornal O Estado de S. Paulo, então na Rua Boa Vista. Da sacada, Julio de Mesquita Filho faz um pronunciamento. “...O império da lei e da justiça só poderá ser restabelecido no dia em que, tomado o fio de nossa evolução, São Paulo voltar ao seu lugar de líder insubstituível da Nação”, afirmou.

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23 de maio - MMDC

Os jovens Euclides Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio de Camargo Andrade, constitucionalistas, morrem em tiroteio em manifestação diante da sede do Partido Popular Paulista, na esquina da Rua Barão de Itapetininga. Outros manifestantes ficam feridos. No dia seguinte, membros da Frente Única, de oposição ao governo federal, formaram a sociedade secreta MMDC, iniciais dos nomes dos quatro mortos. O apoio popular à causa constitucionalista cresce a partir desse episódio.

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9 de julho - Início da Revolução

Reunião de líderes constitucionalistas decide, no dia 7 de julho, que a Revolução se iniciaria no dia 14, com a possibilidade de a data ser antecipada. Nova reunião, da qual participou o coronel Euclydes Figueiredo, resolveu marcar para a madrugada do dia 10 o início do confronto. Figueiredo foi nomeado comandante da revolta em São Paulo e executou imediatamente um detalhado plano de ocupação da cidade. “Às 21 horas, já me sentia dono da situação... São Paulo inteiro estava em minhas mãos”, relatou mais tarde.

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14 de julho - Primeiras escaramuças

Ligeiro confronto entre a infantaria constitucionalista e cavalaria leal ao governo provisório de Getúlio Vargas em São José do Barreiro, no Vale do Paraíba. Dois dias depois, tropas comandadas pelo coronel Eurico Gaspar Dutra, mais tarde ministro da Guerra e presidente da República, atacaram os paulistas que guardavam o túnel ferroviário da Mantiqueira, divisa de São Paulo com Minas Gerais. Os constitucionalistas lutavam em quatro frentes de batalha: Norte, Sul, Litoral e Mato Grosso. No dia 17, tropas federais vindas do Rio Grande do Sul atacaram posições paulistas em Itararé, na divisa com o Paraná

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27 de julho - Ofensiva das forças federais

Sem a esperada adesão de contingentes militares de Minas e do Rio Grande do Sul, cujos governos acabaram apoiando Getúlio Vargas, os constitucionalistas perdem terreno no Vale do Paraíba. A chegada do trem blindado, uma das principais armas de São Paulo, não altera o quadro de pessimismo na região de Salto. No início de agosto, os paulistas recuam diante dos ataques inimigos. Faltam armas e munições. As tropas federais contavam com batalhões do Exército e da Polícia Militar de diversos Estados. Na frente Sul, os paulistas dispunham apenas de um canhão e de 54 balas para se defender de 32 canhões e farta munição das forças de Getúlio.

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2 de outubro - Derrota militar

O comandante da Força Pública, coronel Herculano de Carvalho, assina no dia 2 de outubro acordo em separado com o Governo Provisório, levando à rendição forçada do general Bertholdo Klinger, comandante geral dos constitucionalistas. Herculano assumiu provisoriamente a interventoria de São Paulo. Com a saída pacífica de Pedro de Toledo do palácio, quatro dias depois o governo estadual passou às mãos do general Valdomiro Lobo, comandante das tropas vindas do Sul. Os líderes civis discordaram da rendição, pois acreditavam que São Paulo ainda tinha condições de lutar.

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Fonte:  1932, o Brasil se Revolta, de José Alfredo Vidigal Pontes

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Últimos ex-combatentes relembram a saga de 32

Memórias são os últimos registros vivos de um acontecimento épico que, em pouco tempo, não terá mais testemunhas presenciais

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Na pequena Vera Cruz, cidade de 10,7 mil habitantes na região de Marília, interior de São Paulo, 'seu Totó' é uma lenda viva. As pessoas que o veem caminhando a passos lentos em direção à padaria ou ao salão de barbeiro o tratam com reverência. É 'bom dia, seu Totó, boa tarde, seu Totó, como vai a saúde?', enquanto abrem caminho para o senhorzinho calvo, de pouca estatura, mas porte altivo que responde aos cumprimentos com simpatia. Com 103 anos completados no dia 15 de junho, Antonio Andrade Guimarães, o 'seu Totó', é um sobrevivente da Revolução Constitucionalista de 1932.

Dos 35 mil paulistas que pegaram em armas contra a ditadura de Getúlio Vargas há 84 anos, apenas nove ainda vivem, conforme cadastros da Sociedade Veteranos de 32 - MMDC e apuração da reportagem. Suas memórias são os últimos registros vivos de um acontecimento épico que, em pouco tempo, não terá mais testemunhas presenciais. O número de sobreviventes diminui ano a ano. Em 2012, restavam 26, segundo o MMDC. Levando em conta que os combatentes tinham 18 anos à época da revolução, os que ainda vivem são no mínimo centenários.

Poucos têm a vitalidade de 'seu Totó', embora ele reclame que a saúde está mais ou menos. “De vez em quando dá alguma tontura, por isso parei de dirigir e já não ando como antes, mas não sou de ficar parado.” Ele sente falta da esposa, falecida em 2003, e sempre que pode vai ao cemitério para “conversar” com ela. As duas irmãs Maria Aparecida, de 96 anos, e Nair, de 100, moram com ele numa casa típica do interior, sólida, arborizada e com jardim. “As duas estão doentes, com Alzheimer. Tenho um irmão em Marília, também doente. As cuidadoras me ajudam.”

Quando começa a relembrar a revolta dos paulistas, as cenas voltam nítidas à sua mente. “Eu era um moço, 18 ou 19 anos, entrei como voluntário e passei 78 dias no campo de batalha, mudando de uma trincheira para outra. Os soldados do Getúlio invadiram nossa trincheira, machucaram alguns dos nossos e fizeram prisões, quando não mataram. Eu escapei por pouco. Meus companheiros foram presos e levados para a Ilha das Flores, no Rio de Janeiro.”

As batalhas mais cruentas aconteceram na região de Eleutério, um vilarejo na divisa com Minas Gerais. Ele ainda lembra o estrondo dos canhões e dos rasantes dos aviões inimigos. “Eu era de Sertãozinho e nós fomos em vinte, mas não sei quantos voltaram. Alguns companheiros eu nunca mais vi. Os feridos eram levados para o hospital de Campinas e muitos morriam por lá.”

Nas trincheiras, o ex-combatente passou fome e sede, e reclama da falta de comando. “A revolução acabou num dia, mas só ficamos sabendo dois dias depois.” Para 'seu Totó', embora tenha perdido a guerra, o Estado de São Paulo saiu fortalecido. “Valeu a pena, porque o povo ficou mais unido. Muitas vidas tombaram para que São Paulo fosse essa grandeza que é hoje.”

Depois da revolução, Guimarães tornou-se professor, diretor de escola e ajudou a fundar o Rotary Club de Vera Cruz. Ele será homenageado no dia 9 pela Polícia Militar de Marília. “Vão me mandar um carro. No ano passado, veio uma capitã me buscar”, se orgulha.

O ex-combatente Arlindo Leonardo Ribeiro, que neste mês completa 104 anos, é o único constitucionalista ainda vivo em Barretos, mas luta contra o mal de Alzheimer, que vai aos poucos minando as lembranças do campo de batalha. “Lembro pouco, lembro pouco... quem é mesmo o senhor? Os tiros, muitos tiros, a gente se escondia, todos tinham de caminhar muito embaixo da chuva e dos tiros, falei dos ataques? Muita gente ferida.”

Arlindo volta ao presente, diz que não está bem, que pegou uma gripe feia recentemente. “Tem feito frio, nunca vi tanto frio...” De repente, um lampejo e surge outra lembrança do campo de luta. “Nosso exército que estava em Mogi Mirim se retirou, fomos andando umas vinte léguas até Campinas, pois não tinha condução. Morreram muitos nos combates, nos bombardeios, não gosto de lembrar.”

Ribeiro está há onze anos sob os cuidados de Maria Helena Bueno Ortega, sua cuidadora pessoal. Ela conta que o casal de filhos do ex-combatente mora na mesma rua e está sempre ali, atendendo o pai. “Agora, com a doença, ele fica mais em casa, mas gosta de conversar. Tem momentos de muita lucidez”, relata.

Maria de Lourdes Pinto Picarelli, que fez 103 anos no dia 21 de junho, atende pessoalmente o telefone e, informada de que a conversa será sobre a Revolução de 32, pergunta: “Quer que fale de mim ou do meu marido?” Maria de Lourdes explica que só se apresentou como voluntária em 32 depois que o então namorado, Laércio Picarelli, foi convocado para lutar com as tropas paulistas contra Getúlio.

Incorporado como cabo ao Batalhão 23 de Maio, Laércio seguiu para a frente de batalha na divisa com Minas. “Eu tinha 19 anos e, ao invés de ficar rezando por ele, pensei em ser mais útil e me apresentei como voluntária na Casa do Soldado. Ali a gente preparava lanches, servia café e cuidava das roupas. Era um ponto de apoio para os combatentes.” Ela se lembra da correria para encaminhar os feridos ao hospital, providenciar ataduras e remédios. “Houve luta bem perto, no caminho de Bragança. Os paulistas foram atacados por uma tropa da Bahia. Morreram três voluntários de Americana.”

No auge dos combates, o pai de Lourdes mandou a família para Campinas e ela foi obrigada a acompanhar. “Quando voltamos, a revolução tinha acabado. Os soldados começaram a chegar, mas meu namorado foi um dos últimos. Quase morri de aflição.” Ela se casou com Laércio, que se tornou farmacêutico. “Tenho até hoje o quepe dele com o nome e o número do fuzil usado em combate.” O neto Carlos Henrique Picarelli Marcolino produziu um filme sobre a participação de Maria de Lourdes como voluntária na revolução.

O cinema ainda deve seu tributo à história de vida de Zuleika Sucupira Kenworthy, de 103 anos completados em 24 de novembro de 2015. Quando a reportagem a procurou em sua casa, em Sorocaba, ela tinha viajado a São Paulo para cuidar de seus negócios que ainda acompanha pessoalmente. A memória, perfeita, tem detalhes de tudo. Ela só não ouve bem, por isso pede ao interlocutor que fale de frente para ler os lábios ou que escreva numa folha de papel.

Zuleika fala da revolução como se tivesse sido ontem. "Meu pai faleceu em 1923 e ele lia o Estadão desde o primeiro número. Eu leio primeiro o Estado de S.Paulo, depois leio os outros jornais porque as boas notícias estão primeiro no Estadão. Os Mesquita pode se dizer que eles fizeram a revolução”, vai contando. “O Getúlio estava armando para tomar conta de tudo e quando a revolução começou, no dia 9 de julho, o jornal publicou 'Estamos em Guerra'. O Estadão dizia que o Getúlio queria se instalar no Estado de São Paulo.”

Jovem de 19 anos e moradora de São Paulo, Zuleika lembra que seu ímpeto foi de ir para a frente de combate, com a primeira tropa que saísse, para ajudar a equipe de enfermagem. “Mas precisava ter 21 anos, então minha professora da época, dona Alice Teixeira, perguntou se a gente queria trabalhar na revolução. Claro que eu queria, e fui às 7 da manhã para o Cine República, como ela mandou. Quando cheguei, as cadeiras tinha sido afastadas e o cinema inteirinho estava cheio de mesas. 

Sentamos cinco em cada mesa e ficamos incumbidas de fazer os pacotinhos de primeiros socorros.”

Além de Zuleika, três irmãs também foram, ficando em casa só uma delas, porque era paraplégica. “ A inspetora dava as ordens, tinha de fazer o pacote com um vidrinho de iodo, uma atadura, dois pedaços de gaze, um rolinho de esparadrapo e um alfinete. Era bem pequeno para ir na mochila de cada soldado. Trabalhávamos ali 350 moças e na hora do almoço vinha um sanduíche de cada uma. Não tinha repetição, nem saída de almoço, quem quisesse levava um lanche extra. Era uma organização fenomenal.”

Ela se lembra que as famílias ofereciam seus bens para a revolução. “Minha mãe ligou e ofereceu uma bicicleta e um automóvel. Depois, quando acabou a revolução, levaram o carro em casa do mesmo jeito que foi, com o tanque com gasolina. A bicicleta foi devolvida em boas condições, não tinha nada estragado. Muitos anos mais tarde, eu já estava promotora, e um juiz me disse que tinha andado naquela bicicleta como estafeta na revolução, quando tinha 12 anos. Usaram muito, mas devolveram inteira.”

A voluntária conta que os primeiros socorros iam também para a Cruz Vermelha. “Fiquei sabendo que um parente nosso, José Pestana, levou um tiro e foi salvo pelo nosso pacotinho. São Paulo virou campo de guerra, todo mundo trabalhando para a revolução. Em uns 15 dias começou a faltar carne, arroz, não tinha mais açúcar, nem sabonete. Uma pessoa nossa ficava nas filas toda manhã para comprar o que fosse possível.”

Toda a família de Zuleika estava na revolução. “Foram formados vários grupos, de acordo com as necessidades da guerra. Minha mãe costurava manga de uniforme de soldado. Ela fazia parte das costureiras de Santa Rita de Cássia, recebia os pares de manga e pregava no uniforme. Minha irmã paraplégica ajudava. Tinha outro grupo que pregava botão em farda. Minhas tias também fizeram capuzes de tricô para os soldados, pois era inverno e fazia frio.”

Segundo ela, no meio do caos da revolução, havia união e ordem. “Não sei como era organizado, mas tudo funcionava. Meu irmão era estudante de engenharia, saía às 7 da manhã e voltava à noite porque ficava fazendo armas para a guerra. Tudo o que fosse de ferro era mandado para a faculdade de engenharia para transformar em material de guerra. A casa da minha mãe na Aclimação tinha uma grade de 35 metros e foi tirada e levada para lá. Eu conto o que acontecia com minha família, com meu grupo, mas isso você multiplica por toda a população de São Paulo.”

Para a jovem, o fim dos combates foi tão surpreendente quando o início da revolução. “Um dia chegamos para trabalhar e o salão estava vazio. Aí disseram que tinha acabado a revolução. Foi um abalo. Meu tio, Luiz Sucupira, tinha sido preso e foi parar na Ilha das Flores (no Rio). Não demorou, chegou outro tio preso. Era delegado de polícia em Amparo e foi detido pelas tropas do sul. Só que São Paulo não se entregou. A política, que era dividida em dois partidos, se uniu e os partidos se juntaram. Em questão de dez dias, a vida começou a ficar normal.”

Hoje, ela acha que São Paulo tinha de fazer a revolução. “Não tinha outro jeito, pois Getúlio estava indo indiscutivelmente para o lado da ditadura. São Paulo era contra e se opôs. A revolução não foi planejada, foi feita por necessidade. Se tivessem planejado, os paulistas teriam mais armas, mais estrutura, não tinha sido tudo improvisado. A revolução saiu porque Getúlio queria dominar São Paulo por birra. Mato Grosso ficou com os paulistas, mas Minas falhou, tinha dito que ficava com São Paulo e não ficou.”

Zuleika foi a primeira mulher na América Latina a ingressar no Ministério Público, numa época em que a carreira era exclusivamente masculina. Também foi a primeira procuradora do Estado de São Paulo e, em 1954, curadora de menores na capital. Os pioneirismos renderam medalhas e diplomas guardados com carinho. Ela também se dedicou à música e ao magistério. Da revolução, além das medalhas e do anel por sua família ter doado ouro para a causa paulista, ela guarda a carcaça uma granada que achou no quintal de casa.

O alagoano Agenor Silva Lima, também tem 103 anos e mora sozinho na região do Ipiranga, em São Paulo, desde que ficou viúvo, em 2008. O ex-combatente foi condecorado pelos atos de bravura durante as batalhas. Lima seguiu a carreira militar, servindo ao Exército brasileiro. Quando completou 100 anos, renovou sua carteira de habilitação no Detran da capital. O herói de 32 ainda é visto caminhando nos jardins do Museu de Ipiranga. Ele pediu desculpas por não poder conversar a reportagem. “Estou ouvindo muito mal, você teria que gritar.”

Capitão da reserva da Polícia Militar, o ex-combatente Benedito Monteiro, de 101 anos, conhecido como 'Capitão Benê', ainda vive em Tremembé, no Vale do Paraíba. O presidente da Câmara Adriano dos Santos (PDT) conta que ele será homenageado no dia 27 de agosto, três dias antes de completar o 102º aniversário. Outro ex-soldado constitucionalista ainda vivo também seguiu a carreira militar: Irany Paraná do Brasil tem 102 anos e mora em São Paulo. Ele chegou a coronel da PM e, após ir para a reserva, dedicou-se a escrever livros sobre a revolução.

O MMDC e a prefeitura de Santos não tinham informações sobre o ex-combatente João da Cruz Batista, de 104 anos, morador da cidade praiana . Em julho de 2015, ele foi homenageado e estava bem de saúde. A reportagem não conseguiu contato com o ex-combatente Luiz Ferreira Junior, de Bragança Paulista. No MMDC, seus dados não estavam atualizados.

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Para servir a tropa, 'calças curtas' arrecadavam até cigarros

Grupo de garotos e garotas com idades entre 10 e 17 anos que não podiam à frente de batalha dava apoio aos soldados

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

SOROCABA - Aos 94 anos, o barbeiro Francisco Rossi Filho, o 'Chiquinho', percorre a pé, quatro vezes ao dia, as quadras que separam sua casa da tradicional barbearia que possui em São Carlos, interior de São Paulo. As mãos que seguram com firmeza a tesoura estiveram a serviço dos paulistas na Revolução de 32. 'Chiquinho' fez parte do Batalhão de Escoteiros de São Carlos - um grupo de garotos e garotas com idades entre 10 e 17 anos que, sem poder ir à frente de batalha, dava apoio às tropas. “Éramos chamados de calças curtas por causa do nosso traje, mas a gente se sentia tão importante como os soldados”, relembra.

A pé ou de bicicleta, os escoteiros atuavam como estafetas e assumiam serviços de apoio a médicos e enfermeiros no atendimento aos feridos. Também supriam os soldados de alimentos, água, café e cigarros, como conta Francisco. “A gente entregava correspondência, levava comida, pegava roupa dos soldados para lavar, arrecadava dinheiro, cigarros, fazia um pouco de tudo, até catar ferro para fazer armas.”

Ele lembra que os colegas mais velhos queriam ir para a frente de batalha, mas o juiz da época baixou uma portaria proibindo que menores de 18 anos empunhassem armas. “Eu corria o dia todo, do quartel para o fórum, dali à estação de trem, ao hospital, onde fosse preciso. Saía de casa às 7 horas da manhã e voltava às dez da noite. Mas fazia com vontade, achando que São Paulo podia ganhar a guerra. Para nós, era uma guerra, com tiros, bombas aviões.”

Ele conta que, quando foi anunciado o fim da revolução, mesmo com a derrota de São Paulo, houve festa na cidade. “O ruim foi que três soldados nossos morreram, fui no enterro deles, no cemitério. Depois os corpos foram trasladados para a Praça dos Voluntários.” 'Chiquinho', que é pai de quatro filhos - dois casais - e mora com uma das filhas, guarda com orgulho o diploma de diploma de constitucionalista. Incansável, abre o salão de barbeiro às 7 da manhã e trabalha até 17 horas, tendo entre a clientela professores da USP e da UfsCar. Nas horas vagas, faz origami.

Filho de imigrantes italianos, o escoteiro Pedro Antonio Monteglione tinha 10 ou 11 anos quando estourou a revolução. Ele se lembra que sua principal missão era recolher buchas vegetais que seriam usadas pelos soldados para filtrar a água que iriam beber nas trincheiras. “Eles bebiam água de rio ou lagoa que nem sempre era limpa.”

Com 93 anos, Monteglione também se recorda de arrecadar cigarros para os combatentes. “Meu pai e minha mãe vieram da Itália para trabalhar nas lavouras de café, mas se afeiçoaram a esta terra e consideravam São Paulo um Estado abençoado. Quando perdemos a guerra, eles choraram, inclusive meu pai que, na Itália, era um marinheiro. Ele morreu cedo e minha mãe me criou lavando roupa para fora.”

O empresário Pedro Alfredo Maffei, diretor superintendente das indústrias Giometti, em São Carlos, era uma criança quando participou da revolução. Aos 92 anos, ele ainda dirige a empresa com os irmãos. No início do ano, teve uma fratura no fêmur e ficou adoentado. Quando foi procurado pela reportagem, ele não estava bem de saúde.

Outro escoteiro, Alfredo Pires Filho, tem 95 anos e até 2012 presidia o Exército Constitucionalista, força honorária, criada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Aos 11 anos, com a roupa tradicional na cor caqui, calça curta, meias três quartos e cinto de couro, o escoteiro levava as correspondências trocadas entre as unidades militares dos revolucionários na capital. Mais tarde ele se tornou piloto, instrutor de voos e executivo em multinacionais.

 

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Lista de sobreviventes sofre oito baixas em três anos

Foram registradas as mortes de 8 ex-combatentes de 32, todos com mais de um século de vida

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

SOROCABA - Nos últimos três anos, foram registradas as mortes de oito ex-combatentes de 32, no Estado de São Paulo, todos com mais de um século de vida. O ex-constitucionalista Romeu Gomes de Oliveira morreu no dia 7 de junho último, em Piracicaba, deixando filhos, netos e bisnetos. Aos 17 anos, ele fez parte do grupo de mais de 600 voluntários que deixaram a cidade para lutar contra as tropas de Getúlio Vargas. A filha Roselis Gomes da Silva conta que o pai era homenageado todo ano por sua luta em 32.

O ex-combatente José Sampaio Pereira Mendes, o 'Seu Zito' morreu no dia 31 de maio último, em Itu. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Municipal. “Quiseram levar o corpo para um mausoléu em São Paulo, mas ele tinha pedido para ser sepultado junto com a esposa”, conta Gilmara Rosa das Neves, que foi sua cuidadora durante 23 anos. Jacareí também perdeu seu último ex-combatente com a morte do major PM Sérgio Justino Ferreira, em 2013. Ele participou de algumas das mais sangrentas batalhas contra as forças getulistas no Vale do Paraíba.

José Thochi faleceu em 2013, com 101 anos e, embora fosse de José Bonifácio, no interior, pediu para ser sepultado em Vicente de Carvalho, no Guarujá, como contou a filha Eliete Thochi Rossi. “Quando chegava 9 de julho, nós o levávamos nas solenidades e ele, de terno, ficava todo garboso.” Há dois anos, Mirassol perdeu o ex-combatente Onofre Américo Gonçalves. “Com mais de 100 anos, ele estava lúcido, falava com bastante propriedade sobre os fatos acontecidos na Revolução, mas tinha ponte de safena e o coração falhou”, conta o professor e amigo Henrique Frota.

Ubaldino Pereira, outro constitucionalista, morreu no final de 2013, aos 103 anos, em São Paulo. Com a mesma idade faleceu em Oriente, no interior, o ex-combatente Domingos Simões Mathias, segundo informação da prefeitura. Outro herói de 32, Francisco Vieira Trindade, faleceu aos 102 e foi sepultado em Itapetininga.

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A memória da Revolução de 32 nas ruas de SP

Palco e testemunha do movimento constitucionalista, a capital paulista guarda lembranças da época em diversos endereços

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Edifício Ouro pra o Bem de São Paulo - Rua Álvares Penteado, 23

Inaugurado em 1939, este edifício foi erguido com o dinheiro das joias e alianças que paulistas doaram à causa constitucionalista. “Para sustentar a revolução constitucionalista foi criada pela Associação Comercial de São Paulo a campanha Ouro para o Bem de São Paulo. Por meio dessa campanha as pessoas doavam suas joias e principalmente suas alianças de casamento à causa constitucionalista”, explica o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti, da empresa Turismo na História - que oferece um tour temático da Revolução de 32 neste 9 de julho. “Com o fim da revolução, antes da entrada dos vitoriosos em São Paulo, a Associação Comercial, com receio de que o ouro fosse confiscado pelo governo Vargas, o doou para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Que construiu diversos edifícios, entre estes o prédio Ouro para o Bem de São Paulo.”

Em estilo art déco, sua fachada procura representar a bandeira paulista, em que cada um de seus andares corresponde a uma das 13 listas da bandeira paulista. A parte da edificação que lembra um mastro onde a bandeira tremula mostra de maneira estilizada os anéis de casamento doados para a campanha.

Barão de Itapetininga, antigo número 70, esquina com a Praça da República 

Foi ali que ocorreu a célebre manifestação de 23 de maio de 1932, que terminaria com quatro mortos - sendo três no local: Euclides Bueno Mirgaia, Antonio Américo de Camargo Andrade e Mário Martins de Almeida. Um jovem de 14 anos, Dráusio Marcondes de Sousa, atingido durante a troca de tiros, morreu 5 dias depois. “Originando aí, pela união das siglas de seus nomes e sobrenomes, a sigla M.M.D.C (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo)”, contextualiza Rezzutti.

Um decreto do governador Pedro de Toledo, datado de agosto do mesmo ano, oficializou o MMDC como entidade do movimento constitucionalista.

Pátio Interno da Faculdade de Direito de São Paulo/USP

Logo que acabou o movimento revolucionário de 1932, a escultora Adriana Janacópulos (1897-1978) recebeu a encomenda de três monumentos para a Universidade de São Paulo, em homenagem aos estudantes mortos. “Um deles ficou numa das famosas arcadas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O conjunto escultórico conta com um busto de um jovem no momento em que recebe uma bala e morre simbolizando os acadêmicos mortos. Abaixo da escultura, no granito negro pintado em cores vermelhas lemos a mais triste das famosas quadras acadêmicas "Quando se sente bater/no peito heroica pancada/ deixa-se a folha dobrada/ enquanto se vai morrer..."”, diz Rezzutti.

Palácio Campos Elíseos

Na noite de 9 de julho o interventor federal Pedro de Toledo (1860-1935) foi pego de surpresa pelo seu secretariado. Era uma reunião, sem que ele tivesse convocado. Ali, foi informado que estava em andamento uma luta armada contra o governo de Getúlio Vargas. Sob pressão, Toledo aderiu à causa - e, de interventor, passou a conduzir o confronto e o processo de rompimento com o governo federal. No mesmo dia, ele foi aclamado governador de São Paulo. No dia seguinte, uma multidão de paulistas foi até o Palácio dos Campos Elíseos: era um apoio ao novo governador.

Rua MMDC, no Butantã

Na toponímia paulistana, não são poucas as homenagens à Revolução de 1932. No Butantã, há a Rua M.M.D.C. “Essas iniciais lembram os quatro rapazes que, em 23 de maio de 1932, foram sacrificados no conflito deflagrado nas proximidades da Praça de República: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo”, atesta o Dicionário de Ruas, do Arquivo Histórico Municipal. “Logo após o início da Revolução de 9 de julho, essas iniciais serviram de designativo a uma das mais eficientes organizações de guerra e que os melhores serviços prestou aos combatentes e à população de São Paulo.” Também vale ressaltar a Avenida 23 de Maio, cuja data marcou o início dos combates, e a própria Nove de Julho. Na Vila Clementino, a Rua Pedro de Toledo homenageia o governador do Estado na época. No Mandaqui, há a Praça General Bertholdo Klinger. General Isidoro Dias Lopes emprestou seu nome a uma rua de Santana.

Casa Guilherme de Almeida

No sobrado de 230 metros quadrados onde viveu o poeta, advogado, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e tradutor Guilherme de Almeida (1890-1969) há muito a ser visto sobre a Revolução de 1932. Residência de Almeida de 1946 até a sua morte, a casa-museu guarda muitos de seus objetos pessoais - entre eles, alguns que aludem ao movimento constitucionalista, cuja causa foi defendida ardentemente por ele. Estão ali a arma que ele usou, quando se alistou na “guerra paulista”, e o seu capacete.

Obelisco do Ibirapuera

Oficialmente, se chama Obelisco Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932. O popular Obelisco do Ibirapuera, monumento erguido para celebrar a memória dos que morreram no movimento constitucionalista, foi reaberto ao público em dezembro de 2014, depois de ficar fechado por 12 anos. Do lado externo, algumas esculturas precisaram ser reconstruídas e o monumento passou por uma limpeza geral intensa. No subsolo, o trabalho foi geral. Ali estão os restos mortais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (que deram origem ao famoso acrônimo MMDC), do jornalista Guilherme de Almeida (o Poeta de 32), do jurista Ibrahim de Almeida Nobre (o Tribuno de 32), do agricultor Paulo Virgínio (o Herói de Cunha) e de outros 713 ex-combatentes, cujas cinzas ficam guardadas em columbários. 

Praça do Patriarca

Em 24 de maio de 1932, a Praça do Patriarca foi palco de um grande comício dos revoltosos contra o governo federal. A convocação se espalhou por panfletos pela cidade. “Dos estudantes ao povo de São Paulo. Depois dos acontecimentos de ontem, nenhum paulista pode deixar de atender ao apelo de São Paulo”, dizia a mensagem. “Viva São Paulo livre!”

A surpresa, entretanto, veio no meio do evento. “De um avião voando perigosamente a baixa altura descem cópias do manifesto do coronel Ávila Lins, comandante interino da II Região Militar”, conta Hernâni Donato, no livro História da Revolução de 32. “O pronunciamento é tão evasivo quanto os discursos dos outros chefes militares: as tropas federais ‘não permitem que elementos quaisquer perturbem a ação enérgica e patriótica do Governo Revolucionário em prol da manutenção e organização do Governo Paulista’”.

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Guerra também foi combatida em outros Estados do País

Uma das mais emblemáticas participações de fora de São Paulo foi a de mato-grossenses, da região onde hoje é o Mato Grosso do Sul; revoltosos de lá chegaram até a criar um novo Estado

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Não foi uma guerra de São Paulo contra o resto do País - pecha forjada pelo revisionismo histórico. Na verdade, tropas de outros Estados, sob a liderança dos paulistas, também se voltaram em prol da Constituição em embates frente ao governo de Getúlio Vargas.

“A guerra constitucionalista de 1932, embora sustentada particularmente em São Paulo e pelos paulistas, também foi combatida em outros Estados nos extremos norte e sul, leste e oeste, no centro do País. Centenas de mortos e feridos em dezenas de combates tão ou mais desesperados e perdidos mesmo antes de seu começo do que os travados em solo bandeirante, dão testemunho de que o ideal da constitucionalização era reclamo nacional. E não obstinação ou desculpas de paulistas”, afirma Hernâni Donato em seu livro História da Revolução de 32.

O mesmo Donato, aliás, frisou isto alguns meses antes de morrer, em seu discurso de posse como membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi em 9 de julho de 2012, justamente quando a Revolução comemorava 80 anos.

Uma das mais emblemáticas participações de fora de São Paulo foi a de mato-grossenses, da região onde hoje é o Mato Grosso do Sul. Os revoltosos de lá chegaram até a criar um novo Estado, batizado de Maracaju - existiu de 10 de julho a 2 de outubro de 1932, sem a autorização do governo federal.

O governador foi o então ex-prefeito de Campo Grande, Vespasiano Barbosa Martins. Dele, ficou um manifesto. “São Paulo levantou, mato-grossenses, o lábaro da guerra para salvar o Brasil. Nenhum mato-grossense válido pode fugir à luta redentora. Tivemos campanhas políticas memoráveis, revoluções por nobres ideais. Nenhuma, porém, teve a magnitude, a nobreza, o ideal alevantado como esta - buscando extinguir um governo sem lei, para dar ao povo a sua Constituição, a sua Lei sagrada”, diz trecho. “Meus concidadãos mato-grossenses! Nestes dias históricos é esta a palavra de ordem - às armas! Pela continuidade da nossa Pátria! Pela unidade do Brasil! O coração, a vida, pela salvação do Brasil!”

A então sede do governo ainda está preservada: é uma loja maçônica de Campo Grande. Ainda que temporária, essa cisão acabou sendo o embrião da separação da região sul do Estado, o que ocorreria em 1977.

Contexto. “Havia uma razão econômica para que o sul do Mato Grosso apoiasse a causa defendida pelos paulistas. A produção bovina de lá vinha toda para São Paulo”, contextualiza o historiador Paulo Rezzutti, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. “Essa ideia de que era São Paulo contra o Brasil não corresponde à realidade. Foi uma bobagem construída pelo governo federal ainda durante os conflitos, tentando desqualificar o movimento, atribuindo a ele um caráter separatista dos paulistas”, afirma o historiador Marco Antônio Villa, autor do livro 1932: Imagens de uma Revolução.

Quanto a Maracaju, o projeto teve de ser abortado, naquele momento, quando as tropas federais conseguiram conter todos os ímpetos revolucionários. “Em setembro, com o jogo já perdido, começaram as negociações para que a ideia de separação, naquele momento, fosse descartada”, conta Villa.

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Artigo: 1932 - Um pouco sobre a guerra

A única forma de se entender o movimento de 1932, que culminou na maior campanha militar em território brasileiro no século 20, é inserir os fatos dentro de uma visão global, comparando o que aconteceu em solo brasileiro com algumas das grandes ações militares dos séculos 19 e 20.</p>

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Ao contrário delas, a guerra civil paulista não teve nenhuma grande ação decisiva para o resultado final. 32 não tem nenhuma batalha comparável a Gettysburg, na Guerra Civil Norte-Americana, ou às batalhas do Somme e Verdun, na Primeira Guerra Mundial. Nem com a luta sem quartel na frente russa, na Segunda Guerra Mundial. 

A luta, em três frentes, durou 3 meses, ao longo dos quais os paulistas foram paulatinamente esmagados pelas tropas federais e deixou um saldo oficial de aproximadamente mil mortos (2.500, levando em conta mortes não diretamente ligadas aos combates), número insignificante, se comparado às 60 mil baixas britânicas no primeiro dia da Batalha do Somme, aos mortos em Gettysburg ou aos vinte milhões de russos mortos na Segunda Guerra Mundial.

Mas a comparação precisa levar em conta outros fatores. Enquanto, desde o século 19, a Revolução Industrial mudava a cara da Europa e dos Estados Unidos, em 1932, o Brasil mal e mal conhecia seu interior. Não havia estradas de rodagem ligando São Paulo a Campo Grande, Londrina, Uberaba, ou mesmo a cidades dentro do próprio Estado, como Araçatuba e Presidente Prudente. 

As ligações rodoviárias eram feitas por meio de estradas de terra, aliás, como era a estrada velha de São Paulo a Campinas, no trecho entre Jundiaí e Vinhedo, até a década de 1960. Foi também apenas na década de 1960 que teve início a ligação rodoviária entre o sul e o norte do país, com a construção da Belém-Brasília.

São Paulo era cortado por uma importante malha ferroviária, construída para escoar o café do interior para o porto de Santos. Os demais estados brasileiros não tinham nada comparável, o que fazia as ligações entre as diferentes regiões serem difíceis e demoradas.

A energia elétrica era escassa na zona rural. Telefone era artigo de luxo que, quando funcionava, com o auxílio de telefonistas, demorava horas para completar uma ligação interurbana.

A industrialização dava seus primeiros passos, em um país que só veio a ter sua primeira siderúrgica dez anos depois. Os níveis de analfabetismo se aproximavam de 70%. A participação do povo na vida política era pequena, por conta do analfabetismo e pelo desenho dado pela Constituição para o funcionamento da máquina político-administrativa da nação.

É neste cenário, agravado pela crise mundial de 1929, que acontece a Revolução de 1930, que viria a quebrar a sequência política instalada no Brasil desde a Proclamação da República. Getúlio Vargas altera a ordem vigente, introduzindo a centralização absoluta do poder em suas mãos.

São Paulo foi o Estado mais afetado pelas mudanças. Unidade mais rica e desenvolvida da Federação, São Paulo estava habituado a comandar a política nacional, eleger regularmente o Presidente da República e gozar de grande autonomia na administração do seu território. A centralização imposta pela nova ordem, e a leitura equivocada da realidade do Estado pelo novo Governo Federal, feriu o orgulho e atingiu diretamente a vida dos paulistas.

Logo após a vitória de 1930, os paulistas sentem a mudança dos ventos, com o Governo do Estado entregue a um grupo de "tenentes" ligados a Getúlio Vargas, dispostos a mudar o ritmo do desenvolvimento acelerado de São Paulo.

A reação é imediata. Mas, ao contrário da regra nacional, de passividade da população, desta vez o povo se rebela e demonstra nas ruas a insatisfação com o que acontecia. A educação e a saúde de melhor qualidade, a introdução de novas tecnologias de produção, a consolidação de uma sociedade moderna e a possibilidade de garantir um futuro melhor para sua família haviam gerado um novo cidadão, ciente de suas possibilidades, de seu direito a uma vida digna e disposto a pagar o preço para mantê-la.

A espinha dorsal da Revolução de 1932 foi a população, que pegou em armas para manter as conquistas sociais e seu modo de vida. Muito mais do que os políticos, os verdadeiros responsáveis pelo movimento e pela eclosão da guerra foram as pessoas comuns, que não hesitaram em sair às ruas, protestar e, depois de 9 de julho de 1932, tomar em armas e marchar para as frentes de combate ou trabalhar em atividades de apoio ao esforço de guerra.

9 de julho de 1932 foi a data em que os protestos evoluíram para a guerra. Se, de um lado, uma série de fatores políticos teve seu peso, foi a população do Estado, que aderiu imediata e incondicionalmente, quem possibilitou a organização dos batalhões de voluntários, base das tropas que, durante os três meses seguintes, lutaram nas fronteiras de São Paulo contra forças numericamente superiores, mais bem equipadas e treinadas.

A única chance de vitória dos paulistas era, logo depois da eclosão do movimento, marchar rapidamente para o Rio de Janeiro. Não foi o que aconteceu. Em vez de seguir célere, pelo menos até Barra do Piraí, onde cortaria as principais ligações do Rio de Janeiro e Minas Gerais, se posicionando apenas a duas horas da Capital Federal, a tropa paulista recebeu ordem de parar em Queluz e aguardar a chegada dos comandantes em chefe da Revolução, os generais Isidoro Dias Lopes e Bertoldo Klinger. A partir desse momento, o movimento estava condenado. A guerra de trincheiras era francamente favorável às tropas federais, que começaram a pressionar os paulistas, até a rendição, três meses depois.

A falta de ousadia do Coronel Euclides Figueiredo foi fatal para os revolucionários. Ao ordenar que suspendessem a marcha, ele sacrificou a única vantagem de suas tropas. Se se mantivesse o avanço em direção à Capital, o Primeiro Exército deveria aderir ao movimento e depor Getúlio Vargas. A interrupção foi lida como fraqueza dos revolucionários e as forças federais ficaram leais ao ditador. Em poucos dias, São Paulo estava cercado pelas tropas do exército e das polícias de Minas Gerias e do Rio Grande do Sul.         

Enquanto a ditadura enviava para as frentes de combate soldados profissionais, das Polícias Estaduais, do Exército e da Marinha, mais bem armados e equipados, as tropas paulistas eram formadas por unidades do exército aquarteladas no Estado, sem treinamento e de discutível lealdade, soldados da Força Pública, bem treinados e equipados, mas em parte pouco confiáveis, e, principalmente, voluntários civis, sem qualquer familiaridade com assuntos militares, comandados por homens do Exército ou da Polícia, nem todos à altura dos cargos.

Em função da posição geográfica de São Paulo e das malhas ferroviária e rodoviária, a guerra se estendeu em três frentes: Vale do Paraíba, Frente Norte, na fronteira com Minas Gerais, e Frente Sul, na fronteira com o Paraná.

Um dos erros dos líderes paulistas foi conspirar contra a ditadura quase que às claras, permitindo que Getúlio Vargas acompanhasse de perto o que acontecia e ordenasse a retirada do armamento moderno dos quartéis do Estado.

Em 9 de julho, os paulistas foram à luta, armados com fuzis velhos, poucos canhões e algumas metralhadoras e fuzis-metralhadoras. Do outro lado, as tropas federais contavam com armas mais modernas, em muito maior quantidade, inclusive artilharia de campanha, força aérea e marinha, que rapidamente bloquearam o Porto de Santos, impedindo a entrada de eventual auxílio.

Os relatos a respeito da guerra, feitos em dezenas de livros escritos por combatentes e revolucionários de todas as patentes, mostram os paulistas bastante desorganizados e com uma tênue e despreparada cadeia de comando. Mas, tão grave quanto a falta de comando eficiente e coordenado, foi a incompetência, a traição e a covardia de dezenas de comandantes das tropas revolucionárias, tanto do Exército como da Polícia, que deixaram vários batalhões de voluntários mal treinados e mal equipados, apesar de sua coragem, serem cercados, bombardeados ou atacados pelas tropas federais.

Se, no Vale do Paraíba, soldados de alguns batalhões de voluntários, às sextas-feiras, deixavam a linha de frente para passar o fim de semana em São Paulo, como narra Paulo Duarte em "Palmares Pelo Avesso", o trem blindado deu provas de bravura. Se, na Frente Sul, a covardia de alguns sargentos e tenentes era desmoralizante, a coragem dos voluntários retardou o avanço do inimigo. E se, na Frente Mineira, havia traidores, a Coluna de Cavalaria do Coronel Romão Gomes deu provas de bravura e competência militar.

Vale transcrever parcialmente passagens de alguns livros sobre a Revolução:

"Em Buri se combate e há defecções. O Coronel Klingelhoefer percorre as trincheiras a pé...A retirada se faz, mantendo a artilharia o inimigo à distância...Fala o Coronel Taborda (comandante paulista em Buri): acabo de chegar de Buri, onde assisti ao espetáculo horrível da derrota pela traição de uns e a covardia de outros." (A Epopeia - Aureo de Almeida Camargo).

"Mário sempre foi alegre e animado. Na hora de maior aperto para nós ele encontrava qualquer coisa para contar que fizesse rir os companheiros...Acredito que em dados momentos vozes estranhas e misteriosas advertem o homem de fatos futuros. Mario naquela noite teve um pressentimento que se tornou realidade. Cavou com as suas mãos o próprio túmulo." (Nove de Julho - Valentim Alves da Silva).

"Pinhal caiu, segundo comunicação que acabei de receber...temos ordem de retirada imediata. Nem em São João podemos nos deter. Vamos diretamente para Cascavel." (A Coluna Invicta - Herbet Levy).

"Em Casa Branca há um grande acúmulo de caminhões procedentes de todas as cidades abandonadas. Lentamente, vai sendo organizada a caravana da retirada." (Idem).

"Por volta do meio dia, porém, uma de nossas trincheiras não consegue conter a tropa atacante, quando, com os 18 homens de que dispunha chegou a ter apenas 4 de seus fuzis funcionando! E sem outra alternativa, vê-se obrigada a abandonar sua posição para não cair prisioneira." (Batalhão 14 de Julho - Augusto de Souza Queiroz).     

"Depois do movimento de julho, nada mais restava a São Paulo senão calar-se, como se calou, com a dignidade conquistada pelos que morreram." (A Epopeia).   

"Ninguém foi para a guerra pela constituição, pensando em separatismo,.. Ninguém marchou por causa de Klinger ou de Isidoro. ..Fomos todos pensando em defender São Paulo. E foi esse idealismo  que criou...o heroísmo da mocidade paulista." (Itararé, Itararé - Honório de Sylos). 

Esmagado pelo número, pelo armamento superior das tropas federais e pelo desabastecimento de seus exércitos, São Paulo lutou durante três meses. Vendo o fim da resistência organizada e avaliando os riscos para a população no caso de uma invasão do Estado por soldados querendo vingança e saquear o inimigo vencido, o Comando da Força Pública (atual Polícia Militar), para evitar cenas de terror envolvendo a população civil, ordenou o cessar fogo. Em 2 de outubro de 1932, São Paulo se rendeu, pondo fim à luta armada contra Getúlio Vargas.

 

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