Retrofit faz casas dos Jardins trocarem arquitetura clássica por contemporânea

Nos últimos quatro anos, 279 residências de uma das áreas mais nobres da zona sul da cidade foram reformadas ou reconstruídas

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2012 | 03h02

Nada de restauro na fachada ou simples troca de acabamento. Nos Jardins, área nobre da zona sul, centenas de casas têm passado por uma verdadeira transformação. Aos poucos, quarteirões tombados pelo órgão estadual de patrimônio histórico adquirem novo visual - perdem espaço traços arquitetônicos clássicos e se multiplicam projetos de linhas contemporâneas, assinados por arquitetos de grife.

Modelos tipicamente europeus, delimitados por colunas, janelas viradas para a rua e jardins frontais, têm dado lugar a fachadas com linhas retas, grandes vãos, cores claras e uso frequente de vidro e madeira. As mudanças já começam a preocupar a Associação de Moradores dos Jardins (Ame Jardins), que aponta a existência de 3,5 mil imóveis nos quatro bairros. Desse total, 279 casarões sofreram intervenções nos últimos quatro anos.

Como a maior parte da região é tombada, alterações exigem aprovação do Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). O órgão impede divisão dos lotes, alterações no traçado urbano e corte de vegetação.

"É claro que os donos de imóveis têm direito de promover intervenções de acordo com a legislação, mas o alto número de reformas já nos preocupa", diz o diretor executivo da Ame Jardins, João Maradei.

Cuidados. Em sua opinião, a demanda por mudanças - ou pelo chamado retrofit - valoriza as novas construções, mas descaracteriza a região. "Nosso objetivo é preservar os Jardins e impedir sua desfiguração." Há duas preocupações principais: o respeito à vegetação e os transtornos provocados pelas obras. "Em alguns casos, o barulho invade a madrugada por causa da circulação de caminhões para carga e descarga. Em outros, tapumes tomam as calçadas, dificultando a passagem de pedestres."

Basta circular pelas ruas dos Jardins Europa, América, Paulista e Paulistano para notar a existência de vários tapumes envolvendo terrenos até a conclusão do serviço. O entra e sai de operários, engenheiros e arquitetos também tem alterado a rotina de moradores dos bairros. Em alguns quarteirões, há mais de uma obra em andamento.

Para a artista Roberta Britto, de 46 anos, o prazer de viver na região supera a dificuldade de qualquer exigência. Moradora do Jardim Paulista, ela iniciou uma reforma em 2010 e já trocou o piso, as janelas, o portão, construiu um jardim de inverno e subiu o muro. "Não é uma operação barata, mas está ficando com a minha cara. É maravilhoso morar nos Jardins e acompanhar essa mudança", diz.

Já a Prefeitura diz fiscalizar a execução das reformas de acordo com a planta apresentada pelo proprietário. A legislação municipal impõe a obrigatoriedade de alvará para imóveis com área construída igual ou maior a 1,5 mil metros quadrados.

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