'Retire o tíquete', repete locutora

Além de estar no GPS, voz de Ana Maria também orienta motoristas em catracas de dez estacionamentos de shoppings de São Paulo

Vitor Hugo Brandalise, de O Estado de S. Paulo

02 Maio 2010 | 16h16

 

SÃO PAULO - Certamente, uma das vozes mais ouvidas da metrópole. Ana Maria Mello, radialista e ex-vendedora de produtos de acrílico, é a voz de estacionamentos dos shoppings da capital. Ela dá as boas-vindas e oferece o tíquete a carros parados em pelo menos dez deles, como o Pátio Higienópolis, o Iguatemi e o West Plaza.

 

Veja também:

som Ouça Ana Maria Mello

linkQuem são as vozes do Metrô?

 

"Aperte o botão e retire o tíquete. Se há uma frase que já cansei, essa é ela", conta a locutora, de 47 anos, em tom de brincadeira. "E já fiquei de orelha vermelha de tanto ver gente na minha frente brigando com a minha voz porque o tíquete enguiçou ou qualquer coisa do tipo."

 

Ana Maria é dona também de outra voz conhecida dos motoristas paulistanos - é ela quem informa para "virar lentamente à direita", ou que há, "à frente, curva à esquerda". É a voz dos aparelhos de GPS de quatro marcas diferentes. "Hoje já é possível baixar outras vozes e tudo o mais, mas a voz padrão é minha. Sensação gostosa de orientar tanta gente por aí..."

 

Para completar, a voz suave de Ana Maria arranjou, desde o ano passado, outra ocupação - uma "santa" ocupação, como lhe disseram recentemente. Em pelo menos três igrejas da capital, ela representa a voz de oratórios e velários eletrônicos, instalados nas Paróquias de Santa Rita de Cássia e de Imaculada Conceição, na região central, e de Madre Paulina, no Ipiranga, zona sul.

 

Nessas igrejas, basta apertar o botão dos oratórios, para uma oração de Frei Galvão, São Francisco, Santa Rita, ecoar pelas naves das igrejas, para completar a emoção dos fiéis. "Essas pessoas vão à igreja porque precisam de ajuda, porque estão aflitas, precisam de apoio. Então, como já estão predispostas, chegam a chorar quando ouvem a oração. Participar disso é recompensador", conta Ana Maria, "santa voz" da própria Nossa Senhora num outro oratório da Igreja de Santa Rita de Cássia, no Pari, em que é acompanhada por outro locutor - incumbido de fazer, simplesmente, a voz de Jesus.

 

Com calma, Milton. O locutor oficial do Estádio do Pacaembu, Milton Silva de Carvalho, há sete anos empunhando o microfone nas arquibancadas do mais charmoso estádio da capital, não tem vergonha de dizer: é corintiano roxo. "Mas sou profissional. Tenho de dar a escalação de cada time com o mesmo timbre, o mesmo tom. Essa é a orientação da Secretaria de Esportes."

 

Orientação, que, às vezes, não consegue cumprir. Rindo, Milton relembra de um clássico do ano passado, um Corinthians e Palmeiras no qual o locutor do Pacaembu não se segurou. "Com tantos ídolos, do Corinthians, não resisti e coloquei mais vibração ao falar alguns nomes. Saiu um ‘RRRONAAALDO’, que não passou pela administração do Pacaembu. Me puxaram a orelha", conta, sorrindo, a voz do estádio - um profissional com formação militar, que foi locutor oficial do Palácio do Planalto, em Brasília, nos tempos do General João Batista Figueiredo. "Como eu disse, sou profissional."

 

Perseguição. Voz dos recados de grandes operadoras de celular, a apresentadora da TV Gazeta Luciana Camargo conta que já ouviu quem dissesse que ela "persegue" seus conhecidos. "É que sou, também, a voz da maior parte dos elevadores Atlas", conta. "E no conjunto, fica divertido. Já chegaram a dizer que não me aguentam mais: acabou o crédito do celular e lá vou eu avisando, depois ainda me ouvem na rádio, na TV, e quando vão para casa e pegam o elevador, ainda tem de me ouvir dizendo para onde vai", contou, às gargalhadas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.