Restauro revela imagem de 400 anos

Trabalho anterior desfigurou imagem de terracota que pode ser de mestre sacro

Eduardo Reina, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

 

Por 400 anos uma estátua de Nossa Senhora sobreviveu a agruras e aventuras na Capela de São Miguel Arcanjo, no bairro de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Ficou escondida atrás de um altar, depois foi reverenciada por fiéis, escapou da ação de um vândalo e esteve até num saco de lixo por meses. Na semana passada, durante trabalhos de restauração, descobriu-se que a imagem de terracota de 60 centímetros é um tesouro: uma obra de arte do século 17.

Há quase 15 anos, um trabalho de restauro amador desfigurou a obra e alterou as características principais. No processo atual de restauro, pelo artista Júlio Moraes, foram revelados traços e detalhes originais da escultura que remetem a frei Agostinho de Jesus (1600-1661), um beneditino considerado pelos estudiosos de arte sacra colonial como o primeiro escultor brasileiro.

Nos últimos tempos, a imagem ficou no escritório do padre Geraldo Antonio Rodrigues, juntamente com a de outros santos. "Nunca ninguém imaginou que poderia ser uma obra rara", comenta o religioso. Ele acredita que a estátua represente Nossa Senhora dos Prazeres ou Nossa Senhora da Piedade.

"Temos 99% de certeza de que a autoria é do frei Agostinho, por causa das várias características descobertas no trabalho. Com a retirada das camadas de pintura até chegar à cor original, foi possível verificar a riqueza de detalhes", diz Alexandre Galvão, gestor da Capela de São Miguel Arcanjo, que é de 1622. Uma dessas características está no detalhe da manga do manto, dobrada para fora em diagonal. "As sobrancelhas finas e as feições delicadas também remetem ao frei", diz. "Toda santa feita por ele tinha uma inclinação para trás, de modo que, quando estava no alto do altar, as pessoas a olhassem em perspectiva", completa o padre.

Para Júlio Moraes, a descoberta ajuda "a resgatar mais um pouco a imensa história da arte sacra paulista". "Há emoção com a descoberta. É como encontrar um velho conhecido nosso."

Saga. A peça já sobreviveu ao ataque de um vândalo, em 1952, que invadiu a igreja e quebrou várias imagens. Nessa época, uma paulada arrancou a cabeça e a mão direita do Menino Jesus que está nos braços da santa. Depois, os registros desaparecem.Há 13 anos, padre Geraldo foi procurado por uma historiadora, que dizia ter descoberto duas peças da capela num ateliê em São Paulo, onde foram "restauradas". Acabaram resgatadas após o pagamento de cerca de R$ 5 mil. "Estavam embaixo de uma escada que ia para uma laje, dentro de um saco de lixo, ao lado de um caixote com cascas de banana e laranja", explica.

Valor tão baixo para restaurar obras tão preciosas resultou em consequências, negativas. A peça de frei Agostinho foi pintada com tinta automotiva. "Brilhava como um carro", conta o padre. Foi feita uma base de madeira coberta por gesso, que enterrou parcialmente os três anjos aos pés da santa. Esse gesso era para endireitar a inclinação natural da obra. As ranhuras dos cabelos encaracolados receberam massa, assim como as madeixas e o manto sobre os ombros foram desfigurados pela nova pintura.

Agora a obra não ficará mais exposta nem na capela nem na Catedral de São Miguel. "Haverá visitação apenas em momentos especiais", prevê padre Geraldo.

QUEM FOI

FREI AGOSTINHO DE JESUS

(1600-1661)

CERAMISTA SACRO

Nascido no Rio, foi discípulo de frei Agostinho da Piedade, outro escultor santeiro, mas de nacionalidade portuguesa. Em São Paulo, Agostinho de Jesus morou na capital, em Santos e em Santana de Parnaíba. Das obras dele no País, quatro estão no mosteiro e na Igreja de São Bento, na região central da capital paulista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.