Resgate histórico de casarões renova o centro do Rio

Aumenta o trabalho de arquitetos que recuperam imóveis tombados, apesar da burocracia e das dificuldades técnicas e financeiras

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2012 | 03h02

Encontrar as várias cores de paredes e janelas e, lá no fundo, descobrir o tom original, fazer funcionar de novo um elevador esquecido há décadas e partir apenas de uma fachada parcialmente destruída para erguer um casarão de três andares são alguns prazeres dos arquitetos que fazem obras em imóveis tombados no Rio. O caminho até tudo ficar pronto, no entanto, é tortuoso. Requer pesquisa, aprendizado e paciência para enfrentar a burocracia do poder público.

O baixo preço dos imóveis é um atrativo para os investidores, mas o alto custo das obras e o esforço para obter autorizações de várias instâncias de governo são os principais entraves. Apesar das dificuldades, a paisagem do centro e da zona sul tem sido modificada nos últimos anos com a reforma de belos casarões antes desocupados.

Em um dos pontos mais cobiçados de Ipanema, no número 234 da Avenida Vieira Souto, de frente para o mar, a casa construída em 1938 voltou à cor original e teve portas e janelas recuperadas durante a obra para abertura do Restaurante Vieira Souto, em dezembro. "É um trabalho muito delicado, feito por um especialista em prospecção. Vimos camada por camada das paredes e madeiras. Encontramos azul, marrom, bege e amarelo, até que chegamos à primeira camada. Então puxamos a pigmentação e conseguimos chegar à cor marfim, com detalhes de branco", conta o arquiteto Eduardo Fischer, autor do projeto e responsável pela obra do restaurante.

Sob a fiscalização do Patrimônio Municipal, Fischer levou nove meses para reformar o imóvel tombado em 2003. Uma das surpresas do arquiteto foi quando detalhou para os técnicos da prefeitura o projeto da nova cozinha, nos fundos do terreno, onde são produzidas massas, doces, pães e biscoitos. "Eu quis manter as características da casa, mas eles não permitiram, porque seria como uma imitação. Pediram que fosse totalmente diferente. Entendi os argumentos. É preciso ficar claro que aquela parte é de outro período, não faz parte do original", conta.

Arte e conservação. A prospecção de cores é uma das especialidades que ganham espaço com o aumento das obras em imóveis tombados. Restauração de ornamentos e marcenaria em madeiras antigas também são atividades revalorizadas recentemente. Com a tendência de expansão desse tipo de obra, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio e a prefeitura organizaram, no mês passado, uma oficina de conservação de jardins históricos, da qual participaram operários, mestres de obras, arquitetos e engenheiros. A ideia é expandir os cursos para outros temas e qualificar novos profissionais. O curso teve a colaboração da Casa de Oswaldo Cruz, unidade dedicada à preservação da história e do patrimônio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que tem sede em uma das pérolas do patrimônio carioca, um palacete de inspiração moura construído entre 1904 e 1909 e tombado em 1981.

Outro trabalho cuidadoso na recuperação dos velhos casarões é a pesquisa histórica e arquitetônica. Arquitetos vão em busca de plantas, fotos antigas, registros de intervenções anteriores e até cartões-postais, no esforço de trazer o que for possível do projeto original. Foi depois da garimpagem da história do sobrado de mais de 140 anos no número 16 da Rua Primeiro de Março, no centro, que o arquiteto Jorge Nascimento conseguiu resgatar grande parte da antiga farmácia Granado.

O casarão onde foi fundada a botica, em 1870, estava ocupado por outra farmácia em 2009, quando passou por uma ampla reforma e voltou às mãos da rede Granado. Jorge Nascimento retomou o desenho do piso com ladrilho hidráulico e recuperou o elevador vindo da França no começo do século.

Gargalos. A recuperação dos casarões da Vieira Souto e da Primeiro de Março são exemplos bem-sucedidos de recuperação de bens tombados, segundo o subsecretário municipal de Patrimônio Cultural, Washington Fajardo. Ele reconhece que há muitos "gargalos" burocráticos na aprovação das obras.

Disposto a investir R$ 30 milhões na recuperação das casas e de um hotel e transformar em escritórios, o empresário Gustavo Felizzola obteve só na semana passada a última autorização que faltava, da Procuradoria Geral do Município. Foram dois anos de espera por licenças.

A demora na autorização para obras de recuperação do complexo de casarões do início do século passado batizado de Vila Aimorés, na Glória, zona sul do Rio, foi um "alerta" para o poder público, segundo Fajardo. Nos planos do arquiteto Jorge Astorga está a restauração na íntegra de duas das nove casas e a reconstrução da décima, que ruiu em 2008. Com licença finalmente concedida, as obras devem durar um ano e meio.

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