Ed Ferreira/Estadão
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Reserva técnica é 'tucanada' no volume morto, diz Andreu

'Não se pode ficar contando com incorporar o cheque especial na conta', afirmou diretor-presidente da ANA em evento em Campinas

LUCAS SAMPAIO, Especial para O Estado

18 de março de 2015 | 20h37

CAMPINAS - Chamar o "volume morto" do Sistema Cantareira de "reserva técnica" é uma "tucanada", afirmou nesta quarta-feira, 18, Vicente Andreu, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), órgão federal responsável pela gestão do sistema junto com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), estadual.

"Vocês viram aqui que 'volume morto' é um termo internacional. A novidade é 'reserva técnica'", afirmou Andreu a jornalistas em evento sobre segurança hídrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)."A 'tucanada' foi dada aqui (no Brasil). O volume morto é o cheque especial".

O diretor-presidente da ANA havia feito sua apresentação antes dos norte-americanos Richard Palmer e William Werrick, que usaram a expressão "dead storage" (volume morto, em tradução livre) para se referir aos 287,5 bilhões de litros de água que estão sendo usados para garantir o abastecimento humano da região metropolitana de São Paulo pela Sabesp durante a atual crise hídrica - os 982 bilhões de litros do volume útil se esgotaram em junho do ano passado.


Palmer é chefe de departamento e professor de engenharia da Universidade de Massachusetts e Werrick, especialista em recursos hídricos e ex-consultor de planejamento hídrico da agência federal norte-americana US Corps of Engineers. 

"Não se pode ficar contando com incorporar o cheque especial na conta", afirmou Andreu sobre a utilização do volume morto - motivo de discórdia entre a ANA, que visa a preservar a maior quantidade de água no sistema para enfrentar a atual estiagem, e o governo estadual paulista, que reluta em decretar oficialmente racionamento.

"Você vai incluir o cheque especial como mecanismo corriqueiro de garantia (do abastecimento) ou vai trabalhar dentro do que era historicamente o volume (útil)?", questionou Andreu. "Se o reservatório chegar a zero em abril, como você atua nesse caso? Porque toda a água que vai ter para o próximo período (de estiagem) é a água do volume morto."

Hoje, os reservatórios do Cantareira estão com 15,3% da sua capacidade, segundo a metodologia da Sabesp (que incorpora as duas cotas de volume morto no cálculo), ou -13,7%, se a "reserva técnica" consumida for contabilizada como volume negativo. Pela metodologia do governo paulista, o volume do sistema teria de chegar a 29,3% para se recuperar o volume morto utilizado e o Cantareira voltar a operar no volume útil.

Em nota, o subsecretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo, Marcio Aith, disse que a fala de Andreu é "mais uma declaração infeliz". "O sr. Andreu desrespeita novamente o governo de São Paulo, que trabalha há um ano, de forma ininterrupta, para garantir o abastecimento de água para a população. Os desafios hídricos brasileiros são imensos. O sr. Andreu deveria falar menos e trabalhar mais."

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