Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Reserva intocada pode virar parque

Donos de área a 28 quilômetros do centro querem que a Prefeitura preserve as últimas árvores que resistiram ali e transforme a Fazenda Nhô-Chico em local público

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Mais resistentes do que a casa de Jorge Almir dos Santos, um senhor alto e corcunda que mora em uma construção de alvenaria erguida por ele mesmo; mais antigas que ligações clandestinas que cortam o céu; em maior número do que as crianças e os cachorros que correm perto dos córregos e nas vias de terra batida. É praticamente impossível não notar as últimas árvores que restaram em pé no Jardim Herculano, zona sul de São Paulo, um lugar tão abandonado e acostumado a uma rotina de violência que às vezes nem as páginas policiais dos jornais lhe dão bola. Em meio à difícil rotina dos moradores, elas desafiam as inúmeras ocupações irregulares e colorem de verde uma das áreas mais duras e áridas da metrópole.

A 28 quilômetros do centro da capital, as árvores do Jardim Herculano ficam perto da península da Riviera Paulista, antiga Fazenda Itupú, uma região desconhecida para grande parte dos paulistanos. Propriedade do então ministro da Fazenda e Negócios Interiores Uladislau Herculano de Freitas, o local tem hoje mais de 100 mil metros quadrados de mata, dezenas de tipos diferentes de árvores, pássaros como tucanos e casas que remontam ao início do século passado. Os arredores estão todos tomados por loteamentos e lixo, heranças do lado perverso da urbanização sem controle na periferia paulistana. Para preservar o que restou de verde naquele endereço, os donos da reserva querem agora transformá-la em um parque público, o Parque Nhô-Chico.

"Já recolhemos cem assinaturas para a criação do parque, enviamos projeto para a Secretaria do Verde e também doamos para a Prefeitura 40 mil metros quadrados de área", diz o arquiteto Marcello Glycerio de Freitas, um dos herdeiros da reserva. Procurada, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente afirmou que a viabilidade do pedido está sendo estudada pelos técnicos do órgão. "A ideia não é fazer um parque de lazer, como o do Ibirapuera, mas uma área de preservação. Aqui tem até uma nascente. E, se isso não for protegido, corre o risco de desaparecer."

Por volta de 1930, Herculano de Freitas dividiu a fazenda para seus dez filhos - entre eles, Francisco Glycerio de Freitas, avô de Marcello. Sua área herdada é justamente a única que resiste intacta. O nome Nhô-Chico era uma homenagem ao avô de Freitas, o general Francisco Glycerio (1846-1916), um dos pais do republicanismo no Brasil. Campineiro, o general viveu por muitos anos no Rio, quando foi deputado federal e senador. Quando visitava São Paulo, ficava na casa do genro, Herculano de Freitas, no número 26 da Rua Paraíso - em imóvel que foi demolido para a construção da Avenida 23 de Maio.

A memória do político continua presente no dia a dia da cidade, na rua e no bairro do Glicério - lugar que, diga-se de passagem, nunca morou.

"Meu avô casou com uma carioca e se mudou para cá, achando que a Guarapiranga ia virar a versão paulistana da Lagoa Rodrigo de Freitas", diz Marcello. Hoje, ainda restam moradias dessa época, como uma grande residência de 1910 e uma cocheira. Pelo meio do mato denso que ainda existe no terreno, parece até uma cidade bem distante de São Paulo. "Aqui é uma paz tremenda, nem parece que é zona sul da capital", afirma Luiz Glycerio de Freitas Filho, de 64 anos, que desde 1966 mora no sítio. "Eu já tentei mudar para a cidade, mas não tem jeito, eu não me adapto. Sabe como é, não consigo de jeito nenhum dormir com o barulho da cidade."

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