Repaginado, museu para cegos reabre

Centro de Memória Dorina Nowill ganhou espaço acessível e totalmente interativo; a visitação é gratuita, mas é preciso agendar

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

11 Março 2013 | 02h07

Totalmente repaginado e com cara de museu, o Centro de Memória Dorina Nowill - fundado pela professora brasileira que ficou cega aos 17 anos - reabre as portas hoje. O acervo da fundação, exposto desde 2002, agora ganha um espaço próprio e totalmente acessível.

A exposição convida o visitante a experimentar uma viagem sensorial e interativa, cheia de recursos sonoros e olfativos. É possível "enxergar" como um cego, seja por meio de equipamentos modernos - como uma caneta que, apontada para os objetos, conta o que eles são -, seja por meio dos tradicionais livros em braile, que tanto ajudaram e continuam ajudando os deficientes visuais.

"O objetivo é transformar este local no primeiro centro de referência histórica da inclusão de pessoas com deficiência visual no Brasil, dando ao circuito cultural da cidade de São Paulo uma proposta totalmente inclusiva, que agrega acessibilidade, cultura e educação", explica a curadora do espaço, Viviane Sarraf.

As peças e recursos de exposição interativos mostram a trajetória dos cegos no Brasil, com a evolução das ferramentas e equipamentos que os auxiliam a ter uma vida independente e ativa. "No início, os deficientes visuais sofriam com falta de perspectiva e preconceito. Hoje em dia, há muitas possibilidades de inclusão", compara Viviane.

Visitas. O tour começa por uma réplica da sala de trabalho de Dorina Nowill, com mobília, objetos e livros que originalmente pertenceram à professora (leia mais sobre ela no quadro ao lado). Há até porta-retratos com fotos de familiares sobre a mesa. "Ela gostava de receber os visitantes em sua sala, então a gente mantém essa tradição", diz a curadora.

No espaço que concentra a maior parte da exposição, há dispositivos de áudio onde podem ser ouvidos trechos de livros falados com a tecnologia de cada época, década a década, dos anos 1970 até a atualidade. Ao lado, as mídias que também evoluíram - de grandes fitas e gravadores arcaicos que eram emprestados pela fundação aos deficientes até os CDs com gravações feitas em arquivos MP3.

Tradicional e moderno. Os equipamentos também são bem interessantes. Há regletes - uma variação do aparelho de escrita inventado por Louis Braille, espécie de gabarito utilizado para escrever, à mão, em braile -, máquinas de escrever em braile de todos os tipos, das antigas às modernas, além de computadores equipados com softwares modernos de leitura.

Uma das invenções mais curiosas do acervo é uma engenhoca americana dos anos 1960 que, com uma pequena câmera, transforma textos em relevo para que o cego possa sentir as palavras. Mais recente, um equipamento inventado no Brasil lê as cores - e pode ser usado pelo cego para escolher roupas ou mesmo identificar notas de dinheiro.

Em outro espaço do museu, há uma reprodução do ambiente doméstico do deficiente visual. Um relógio adaptado permite uma leitura táctil das horas, pelo relevo. Joias, batons e esmaltes também ganharam identificação em braile. E há a seção das bengalas, desde as mais antigas, muitas improvisadas, até as leves, coloridas e modernas.

Percorrer o espaço, mais do que entender o dia a dia dos deficientes visuais, permite ao visitante se aproximar dessa realidade - o que facilita a convivência e amplia a acessibilidade.

Mas a visita não precisa acabar aí. Depois de conhecer o Centro de Memória, fica o convite para ver os outros espaços da Fundação: a gráfica em braile, a biblioteca e os estúdios de gravação de livros falados, entre outros, sempre com mediadores prontos para explicar a atividade.

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