Bruno Rocha/FotoArena
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Renúncia de Doria encerra estilo inovador e dá lugar a discrição de Covas

Justiça barrou slogans da gestão Doria. Covas deverá reduzir ritmo de agendas públicas, como as da área de zeladoria

Bruno Ribeiro e Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - A renúncia de João Doria à Prefeitura encerra o estilo inovador e polêmico de gestão da cidade. Não somente pelo perfil menos midiático do sucessor Bruno Covas (PSDB), mas também por causa de duas decisões recentes da Justiça.

Doria termina o mandato proibido de usar o slogan “Acelera” e a logomarca “SP Cidade Linda”, duas siglas que criou e usou exaustivamente na Prefeitura e em suas redes sociais até as liminares concedidas a pedido do Ministério Público Estadual em fevereiro e março. Segundo a Justiça, Doria usava essas marcas para se promover pessoalmente, o que ele nega. 

Neto do ex-governador Mario Covas, o novo prefeito da capital já deu sinais de que não manterá o ritmo de agendas públicas de Doria, em especial dos programas de zeladoria nas manhãs de sábado e domingo. Com 37 anos (completará 38 amanhã), Covas é formado em Direito e Economia e iniciou a carreira política cedo, na juventude do PSDB. Foi eleito deputado estadual em 2006 e reeleito em 2010. Entre 2011 e 2014, foi secretário do Meio Ambiente do governo Geraldo Alckmin (PSDB), de onde saiu para se eleger deputado federal.

Conhecido por atuar nos bastidores, Covas foi o responsável por boa parte das indicações políticas na montagem do governo Doria e articulou dentro do partido a campanha para que o prefeito fosse escolhido como candidato da sigla a governador, nas prévias de março. 

Em outubro do ano passado, ambos tiveram uma rusga, depois que Doria sacou Covas da Secretaria das Prefeituras Regionais e demitiu seu braço direito na pasta, Fábio Lepique, após a imprensa destacar a piora nos índices de zeladoria urbana, como varrição de rua e tapa-buraco. Para amenizar o atrito, Doria criou a Secretaria da Casa Civil para abrigar Covas até a sua saída hoje. 

Ambos acordaram que a transição de equipe será feita gradativamente. Agora, apenas Cláudio Carvalho, ex-diretor da Cyrela e amigo que Doria colocou no lugar de Covas nas Prefeituras Regionais, deve sair. Em julho, nomes ligados a Doria, como Anderson Pomini (Justiça), Júlio Serson (Relações Institucionais), Paulo Uebel (Gestão) e Fábio Santos (Comunicação) devem sair para fazer a campanha dele a governador ou voltar à iniciativa privada. Só a partir de 2019 é que Covas deverá montar o próprio time na Prefeitura.

Covas terá desafio de reconstruir base aliada na Câmara

Bruno Covas (PSDB) assume amanhã o comando da Prefeitura de São Paulo com o desafio de reconstruir a base aliada na Câmara Municipal para tentar aprovar uma série de projetos robustos e polêmicos herdados da gestão João Doria, como a revisão da Lei de Zoneamento e o Projeto de Intervenção Urbana (PIU) do Arco Jurubatuba.

A crise com a base ficou latente na votação da reforma da Previdência, em março, que acabou sendo suspensa por 120 dias porque o governo não conseguiu reunir o apoio mínimo de 28 votos entre os 55 vereadores. Doria queria aprovar o projeto que aumenta alíquota de 11% para 14% antes de deixar o cargo, alegando rombo de R$ 4,7 bilhões no sistema municipal, mas a base rachou diante da pressão dos servidores.

Na sequência, o prefeito exonerou 50 funcionários ligados a vereadores que não apoiaram o projeto e ocupavam cargos comissionados nas Prefeituras Regionais. A represália azedou a relação entre o Executivo e o Legislativo, que pode se estender ao longo do ano por causa das eleições, já que alguns partidos que eram da base, como PSB, PR, PSC e PPS, devem apoiar a reeleição de Márcio França (PSB) a governador na disputa contra Doria em outubro.

Ao todo, a coligação de Márcio França inclui partidos que somam 18 vereadores. Somados aos 11 vereadores de oposição do PT e do PSOL, eles já seriam maioria e poderiam dificultar o governo Covas na cidade. 

Integrante da base governista, o vice-presidente da Câmara, Eduardo Tuma (PSDB), afirma que os vereadores desses partidos “saberão separar a questão eleitoral da gestão municipal”. Segundo ele, o “governo é Doria-Covas” e vai concluir as promessas feitas na campanha eleitoral até o fim do mandato.

Muitos projetos que estão na Câmara, porém, vão exigir quórum qualificado para serem aprovados, ou seja, apoio de 37 dos 55 vereadores. Um deles é a revisão da Lei de Zoneamento aprovada na gestão Fernando Haddad (PT) e o Arco Jurubatuba, essencial para privatização do Autódromo de Interlagos. 

Crítico. Para Antonio Donato, líder do PT na Câmara, Doria “fez uma política de ataque aos direitos sociais” cortando Leve-Leite e o Passe Livre Estudantil e “será difícil piorar” a situação atual da cidade. “Mas ainda precisamos ver como Covas atuará.

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