Remoções vão atingir áreas nobres da capital

Prédios residenciais estão no traçado da Linha 6; moradores já [br]reclamam, alegam proximidade da Linha 4 e ameaçam resistir

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2010 | 00h00

O provável traçado da futura Linha 6-Laranja passa por diferentes cenários e realidades. Se por um lado existe a euforia do progresso proporcionado pela chegada do metrô, há também o temor de precisar ceder a propriedade para as obras. E isso atinge muitos no percurso entre a Estação São Joaquim, na zona sul, e a Vila Brasilândia, na zona norte, em área nobre ou na periferia, residentes ou comerciantes, donos de imóveis abandonados ou frequentadores de um tradicional espaço de escola de samba.

O mapa das desapropriações previstas pelo Metrô atinge áreas nobres, como uma quadra da Avenida Angélica, em Higienópolis, região central. Ali está prevista a construção da Estação Angélica (nome provisório). Mas, para isso, precisarão deixar o local um supermercado Pão de Açúcar, uma loja de artigos importadores e um prédio de dez andares.

A rede de supermercados não quis se pronunciar, pois "desconhece o projeto e seus desdobramentos". Os moradores do prédio, por outro lado, já se posicionaram contrários a uma linha de metrô na região, principalmente se forem atingidos.

Reclamação. "Se já vai ter a Linha Amarela passando pela Consolação, por que vão fazer estação aqui?", questiona a estudante Philippa Gerber, de 19 anos, moradora do prédio que pode ser desapropriado. Ela conta que o apartamento em que vive pertence a sua família há 25 anos e ninguém pretende deixar o local. "Aqui é perto de tudo. Hoje eu estudo no interior e volto nos fins de semana. Mas quero morar aqui quando me formar."

Perto dali, na Rua da Consolação, outros dois prédios residenciais estão previstos para serem desapropriados. No térreo de um deles funciona, há dez anos, uma loja que empresta objetos para programas de televisão e peças de teatro. A gerente, Silvana Procópio, sentiu uma mistura de alegria e apreensão quando soube da Linha Laranja. "Eu moro na Vila Brasilândia e fiquei feliz que vai ter metrô lá. Só que não adianta nada se eu perder meu emprego." Ela acredita que um dos motivos para o bom desempenho de seu estabelecimento é a localização, perto dos teatros da Praça Roosevelt.

Vai-Vai. Outro imóvel que deve ser atingido pertence à escola de samba Vai-Vai, na Bela Vista - a quadra da agremiação não será afetada. "Faz tempo que se cogita isso, mas enquanto é projeto, não temos motivos para nos preocupar", diz o diretor Thobias da Vai-Vai. Ele acrescenta que o local atual é de fácil acesso, além de ser um reduto tradicional da escola. "O bairro tem tudo a ver com a Vai-Vai. É festeiro."

Os exemplos acima de áreas residenciais possivelmente atingidas são exceção quando se trata das desapropriações na zona sul, no centro e na zona oeste (como Perdizes e Pompeia). A maior parte dos imóveis nessas áreas é totalmente comercial. A futura Estação Cardoso de Almeida (nome provisório), por exemplo, vai ficar em uma área onde há atualmente três estacionamentos.

Por outro lado, muitas áreas residenciais devem ser atingidas na periferia - como em bairros da zona norte. O Metrô diz, em nota, que isso ocorre porque a região central é caracterizada como área comercial. "Daí a probabilidade de um número maior de desapropriações de imóveis comerciais na área central do que de imóveis residenciais. De qualquer maneira, as desapropriações sempre serão aquelas absolutamente necessárias."

No local em que deve ser a Estação Vila Brasilândia, por exemplo, uma grande parte de um lado da Rua do Sabão pode ser desapropriada. Apesar de poucos terem notícias dos locais atingidos, os rumores já tomam conta do lugar, assim como o receio de precisar deixar a casa. "Todo mundo está falando nisso. Foi por isso que eu não cheguei a comprar a casa aqui e aluguei por pouco tempo", diz a diarista Margarida das Graças Ferreira.

PARA LEMBRAR

Comunidade se uniu e alterou a Linha 5-Lilás

O prolongamento da Linha 5-Lilás, que levará o trecho entre Capão Redondo e Largo 13, em Santo Amaro, até o Campo Belo, teve de ser adiado por alguns meses até que fosse redefinida a área a ser desapropriada. O traçado proposto, que vai até a Linha 3-Verde, na Chácara Klabin, passava por vários imóveis na Avenida Adolfo Pinheiro. Em 2008, comerciantes e moradores se mobilizaram e conseguiram algumas alterações no projeto. Só em 2009, 134 proprietários de imóveis na zona sul entraram com ações na Justiça para forçar o Metrô a aumentar as ofertas pelas casas.

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